Mendonça Filho: A educação só será prioridade quando for uma prioridade de toda a sociedade

Ex-Ministro Mendonça Filho, em entrevista exclusiva ao Papo de Primeira - Arthur de Souza

Mendonça é um político com características de gestor. Quem não se deixa levar por análises com vieses ideológicos, logo percebe que ele tem uma vontade de acertar, de contribuir com o país e com Pernambuco. O ex-Ministro deu diversas declarações com postura de estadista, valorizando o passado independente da origem política de quem o construiu, focando a análise sob uma ótica técnica.

Foi um dos melhores Ministros de Educação do país para alguns especialistas. Em pouco mais de dois anos, entregou muitas obras e focou em avanços de políticas públicas fundamentais para o sistema educacional brasileiro, como a nova BNCC (Base Nacional Comum Curricular) e o suporte para a expansão das escolas em tempo integral no país.

Abaixo, um resumo da nossa entrevista:

Papo de Primeira - Mendonça, você é administrador, político e dois fatos marcam muito sua trajetória nos últimos anos: primeiro, o início da implantação das escolas em tempo integral no Estado de Pernambuco e, depois, sua passagem como Ministro de Educação no governo do Presidente Temer, marcada pelo diálogo com diversos entes que compõem o ecossistema educacional do país e bastante elogiada pelo nível de entrega.

De que forma você se vê hoje na educação? É sua principal bandeira?

Bom Rogério, obrigado pelos elogios. Nossa amizade é de longa data e nossa relação no campo da educação é de admiração mútua e respeito pela sua profundidade e atuação na área.

A rigor, minha primeira grande aproximação com a área da educação foi enquanto eu era Vice-Governador do governo Jarbas e toquei a coordenação da implantação do modelo de escolas em tempo integral, que hoje é um modelo seguido por praticamente todos os estados do Brasil e que virou política nacional durante minha passagem enquanto Ministro de Educação.

No exemplo da primeira escola em tempo integral do estado, O Ginásio Pernambucano, tivemos a participação fundamental de Marcos Magalhães e outros empreendedores. Para mim, funcionou como uma virada de chave para percepção da força da educação em termos de potencial transformador da realidade social, necessária não só para Pernambuco, mas para todo o Brasil.

E quando Ministro de Educação, o palco estava pronto, a oportunidade aberta, para se trabalhar políticas consensuais que já estavam em maturação há muito tempo e que precisavam sair do papel. Então pude liderar um time na consolidação de vários projetos e programas, que a meu ver, significaram forte avanço em termos de políticas educacionais para o Brasil.

Mendonça e Rogério na redação da Folha de Pernambuco - Arthur de Souza

Papo de Primeira - Ainda sobre sua passagem pelo MEC, quais foram os maiores legados deixados por sua gestão? Você considera que há continuidade do que foi deixado lá?

Foram vários os legados. Inclusive, não coloco esses legados como algo estanque, diante do período da nossa equipe a frente do MEC (Ministério de Educação e Cultura), visto que muitas ações e políticas herdei de administrações anteriores e tive a felicidade de acelerar a implementação como, por exemplo, a Base Nacional Comum Curricular (BNCC), que é a definição de um marco que permite a estrutura para elaboração de currículos para todas as etapas de ensino da educação básica.

Nesse caso, peguei o processo em debate, precisávamos focar e tirar do papel o que hoje possibilita os mesmos objetivos de aprendizagem para o aluno do Amazonas, ou do Rio Grande Sul, ou de Pernambuco, com espaço para que os currículos possam ser definidos em cada rede local, de acordo com suas peculiaridades, vocações e prioridades.

Destaco também a política de escolas integrais, que foi nacionalizada, e praticamente os 26 estados e o Distrito Federal incorporaram o apoio do Governo Federal com metodologia, avaliação periódica, repasse de recursos e com toda a tecnologia de gestão que possibilitou uma melhora considerável no IDEB (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica) do Ensino Médio. Inclusive, o Relatório do Instituto Sonho Grande identificou, de acordo com os dados do IDEB, que depois de anos de estagnação, houve a primeira evolução conquistada graças à política de escolas integrais implantadas em nossa gestão.

Poderia citar também as mudanças no ENEM, mais amigável e possibilitando provas em dois domingos; Poderia citar a política de alfabetização, o Mais Alfabetização, que é um dos gargalos na base educacional brasileira, um dos maiores desafios é assegurar a alfabetização na idade certa; A ampliação da cobertura de vagas na educação infantil, se aproximando das metas fixadas no Plano Nacional de Educação; Projeto Residência Pedagógica; e várias iniciativas do âmbito de apoio aos estados e municípios: creches, quadras, escolas técnicas, universidades, que tiveram 100% do custeio liberados e uma retomada dos investimentos, o que significou muitas novas obras e outras concluídas, inclusive aqui em Pernambuco.

Hoje, infelizmente, houve uma desaceleração e ausência de foco e prioridades. Uma política pública na educação precisa ter qualidade técnica, o suporte da comunidade escolar e as condições políticas para serem aplicadas. Elas envolvem apoios múltiplos e interfaces diretas com educadores, professores, pais e sociedade civil. Então, não dá para pôr de pé uma política pública se você não considerar esse ecossistema, e isso nós levamos em consideração na época que estávamos como Ministro de Educação.

Não foram só flores. Talvez tenha sido o período mais agudo de instabilidade política no Brasil. Enfrentamos muita oposição, mas pelo diálogo, pelo argumento, pela perseverança em buscar um objetivo, a gente conseguiu superar obstáculos e adversidades.

Papo de Primeira - Diante dessas suas experiências, qual sua visão sobre o futuro da educação do país? Como e quando vamos superar as mazelas e fazer a educação de fato uma prioridade?

A educação só será uma prioridade quando ela for uma prioridade para sociedade, quando ela deixar de ser um problema dos governos.

Uma grande maioria da população mais pobre se satisfaz com muito pouco. Basta o acesso à escola, o transporte a merenda, e um pai ou uma mãe da periferia se satisfaz, porque ele não teve sequer a oportunidade que o filho teve.

Para a classe média, a discussão e outra. A classe média tem os filhos estudando na escola privada, em uma realidade distante da vida da imensa maioria de brasileiros, que frequentam escolas de baixa qualidade e baixas condições de infraestrutura, onde o desempenho final de aprendizagem é aquém do que seria necessário.

O problema do Brasil não é falta de recurso. O Brasil aplica mais de 6% do PIB na educação, percentual equivalente as principais nações do mundo. Muitas nações latino-americanas aplicam proporcionalmente menos recursos que o Brasil, no entanto conseguem desempenho melhor.

Falta a preocupação com a gestão para permitir uma adesão da sociedade e atacar os elos e as etapas fundamentais para um salto de qualidade: valorização de professores, alfabetização na idade certa e com qualidade, os estímulos na primeira infância (onde o potencial cognitivo de uma criança pode ser ampliado ou afetado negativamente), além de infraestrutura educacional, tecnologia e internet para alunos e professores.

Ficamos muitas vezes preocupados com acesso ao ensino superior, mas ainda não demos conta dessa base, da educação infantil, da alfabetização, do bom desempenho no Ensino Fundamental, o que faz com que boa parte dos alunos não cheguem no Ensino Médio, dando espaço a “geração nem-nem”, que muitas vezes são forçados a abandonar a escola por problemáticas complexas.

Não tenho solução mágicas, mas voltando a pergunta, sintetizo: para promovermos o salto de qualidade com equidade, precisamos da adesão da sociedade brasileira em torno da educação, elegendo essa propriedade para o Brasil como um todo.

Papo de Primeira - Concluindo, quais seus projetos para o futuro? Pretende dar continuidade à atuação na área educacional?

Hoje, a educação fará parte da minha vida tanto como cidadão e/ou homem público como uma prioridade máxima em qualquer cargo que esteja ocupando ou na ausência de um. Estarei sempre diretamente ligado a projetos na área debatendo, dando palestras, estudando, reciclando meu conhecimento e sempre focando em aprender mais.

E para frente, devo me candidatar a voltar ao parlamento como deputado federal e, ali estando, ter a bandeira da educação como uma bandeira prioritária de apoio aos governos nos três níveis, para que a gente possa garantir aos brasileiros, principalmente para as crianças e jovens, uma educação de melhor qualidade.

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