Opinião: A desigualdade bate a porta da sala de aula

Por Rebeca Simões, professora

Professora Rebeca Simões - Arquivo Pessoal

Durante a fase mais crítica da pandemia da Covid-19, o desafio enfrentado pelas crianças, suas famílias e a escola, foi a adaptação à Educação Remota. Hoje, com o retorno às aulas presenciais, os problemas são outros. Além do re-acolhimento das crianças em ambiente escolar, se faz necessário remediar os danos à aprendizagem ocorridos durante este período.

Todavia, não podemos perder de vista o aumento da desigualdade social promovida pela pandemia, pois o bom desenvolvimento educacional está atrelado à garantia de direitos básicos de sobrevivência, entre eles, o direito à alimentação diária. Os dados do segundo inquérito nacional sobre insegurança alimentar no contexto da pandemia da Covid-19, realizado pela Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional (Rede PENSSAN), revelam que o Brasil já soma cerca de 33,1 milhões de pessoas sem ter o que comer diariamente, e esta realidade de insegurança alimentar bate à porta da sala de aula.

Estudos têm mostrado uma ligação direta entre as condições socioeconômicas e a educação das crianças e como a falta de acesso a comida de qualidade, moradia segura, acompanhamento médico, núcleo familiar afetivo e ambientes de vivência estimulantes afetam a capacidade de aprendizagem. Pesquisas de neurociência avançam significativamente sobre o assunto, demonstrando as implicações da pobreza sobre a formação cerebral de crianças expostas por um longo espaço de tempo a situações de vulnerabilidade social. Através dos estudos neurocientíficos, foi possível identificar que crianças expostas a situações de escassez tendem a apresentar dificuldades em processar informações com a finalidade de perceber, integrar, compreender e responder adequadamente aos estímulos do ambiente, ou seja, ocorre uma diminuição no desenvolvimento das funções cognitivas, levando o indivíduo a não pensar e não avaliar como cumprir uma tarefa ou uma atividade social.

O psicólogo argentino Sebastian Lipina, autor do livro “Pobre Cérebro", nos traz informações valiosas sobre o assunto. Segundo Lipina, “De qualquer forma, do ponto de vista do cuidado infantil, qualquer menino ou menina deve ter a alimentação necessária para que seu corpo seja saudável; ser olhado, respeitado e estimulado a amar, aprender, brincar. Se tudo isso não acontecer, podem surgir dificuldades em seu desenvolvimento”. (LIPINA, Revista Ñ, 2020).

Contudo, as dificuldades de aprendizagem apresentadas por crianças em situação de pobreza não são irreversíveis. O quadro pode ser convertido quando as intervenções ocorrem no tempo certo, nos primeiros anos de vida, período denominado de primeira infância, onde o desenvolvimento de estruturas e circuitos cerebrais necessários para o desdobramento das capacidades cognitivas, emocionais e afetivas são formadas. Todavia, a retomada do pleno desenvolvimento cerebral dessas meninas e meninos é algo que transcende as competências do espaço escolar.

É preciso a cooperação dos vários setores e agentes da sociedade, desde âmbito público e privado, inclusive iniciativas do 3º setor. Sob esta perspectiva, em 2015, as nações que compõem a ONU se comprometeram a instituir um plano de ação global que inclui medidas para erradicar a pobreza extrema e a fome, promover a paz, oferecer uma educação de qualidade para as crianças, além de proteger o planeta.

No início da década, em contexto local foi sancionada a lei n° 18.769 /2020, que instituiu o Primeiro Plano Decenal para a Primeira Infância do Recife, com metas e estratégias a serem alcançadas até 2030. O plano é composto por cinco eixos estratégicos: direito à educação e cultura, direito à saúde, direito à assistência social e direitos humanos, direito ao espaço urbano, governança e intersetorialidade. Mas para que o marco legal seja efetivado, é preciso que os setores envolvidos no desenvolvimento da primeira infância tenham plena ciência das diretrizes apresentadas pelo documento e promovam ações pontuais, bem como ações permanentes, visando atingir o maior número de metas possível. Diante disso, enquanto profissional de educação, devemos ir para além da sala de aula e dos conteúdos escolares.

Precisamos orientar e informar as famílias dos estudantes sobre a importância da primeira infância e dos estímulos e cuidados necessários, para que cada criança possa se desenvolver da forma mais saudável possível. Enquanto cidadãos, devemos cobrar dos órgãos competentes a aplicação de Políticas Públicas que viabilizem a erradicação da pobreza e de investimento na primeira infância. Ainda no século passado, o sociólogo Hebert de Souza já afirmava “quem tem fome tem pressa”, assim, sem o esforço imediato estaremos condenando as gerações atuais a uma realidade de miséria e estagnação e não conseguiremos avançar na luta pela construção de uma sociedade economicamente viável e socialmente justa.

Rebeca Simões Graduada em Letras, pós-graduanda em Língua Portuguesa e Ensino. Trabalha como professora na Rede Pública de Ensino e é Gestora da OSC Instituto Mucambo.

REFERÊNCIAS:

- Livro da Primeira Infância. Disponivel em: http://comdica.recife.pe.gov.br/sites/default/files/comdica/arquivos/ paginas_basicas/primeiro_plano_decenal_para_a_primeira_infanc ia_do_recife_v.47_1.pdf Acesso em: 22 de jun de 2022.

- Um elevador social quebrado? Como promover a mobilidade social. Disponível em: https://www.oecd.org/brazil/social-mobililty-2018-BRA-PT.pdf Acesso em: 22 de jun de 2022. - Plano Decenal para Primeira Infância. Disponível em: https://www2.recife.pe.gov.br/sites/default/files/plano_decenal_par a_a_primeira_infancia-3.pdf Acesso em: 22 de jun de 2022.

- LIPINA, Sebastian. Por qué la pobreza impacta en el cerebro [Entrevista concedida a Gisela Daus. Clarim.com, Argentina, 08/07/2020. Revista Ñ. Disponível em: https://www.clarin.com/revista-enie/ideas/sebastian-lipina-pobrezaimpacta-cerebro_0_uEmFBTNLC.html?utm_term=Autofeed&utm_ medium=Social&utm_source=Twitter#Echobox=1594311295 Acesso em: 22 de jun de 2022.

- Os princípios da primeira infância segundo a neurociência. Geração Amanhã, 23/01/2020. Disponível em: https://geracaoamanha.org.br/principios-da-primeira-infancia-segu ndo-a-neurociencia/#:~:text=A%20capacidade%20de%20mudan% C3%A7a%20do,%C3%A9%20muito%20menor%20na%20crian% C3%A7a Acesso em: 22 de jun de 2022.

- 2º Inquérito Nacional sobre Insegurança Alimentar no Contexto da Pandemia da Covid-19 no Brasil. Rede Penssan. Disponível em: https://pesquisassan.net.br/2o-inquerito-nacional-sobre-inseguranc a-alimentar-no-contexto-da-pandemia-da-covid-19-no-brasil/ Acesso em: 23 de jun de 2022

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