Comida afetiva (Parte II)

Vegetais crus na composição do cardápio saudável - Foto: Ed Machado/Folha de Pernambuco

Outro dia escrevi aqui um texto com a parte I de Comida Afetiva. Ele foi inspirado por meio da experiência extra rotina de preparar umas comidinhas de verdade - basicamente saladas de frutas e vegetais crus e cozidos, bem como preparações regionais pertencentes ao repertório de nossa família. Essas comidinhas eram - e ainda são - parte importante dos atuais afazeres, destinada a servir com zelo e carinho ao meu filho e à minha nora, na circunstância especialíssima do nascimento e primeiros meses de vida de Maria Luíza, nosso mais novo presente!

Relendo o referido texto, veio o desejo de atualizar os leitores nessa rotina, e enriquecê-lo com mais reflexões. Na minha história as comidas de verdade se entrelaçam com as comidas afetivas da infância e da adolescência e entrada na vida adulta, dadas as peculiaridades da minha geração (tenho sessenta e cinco anos). Nossa família, como tantas outras de classe média, viveu algumas agruras financeiras e teria sido pior, se meus pais não fossem os consumidores conscientes que nos educaram e exemplificaram para o não desperdício. Lá em casa o “repartir o pão” era literal, sempre.

Posso afirmar que nossa geração foi minimamente influenciada pela onda de consumo de comida industrializada, mesmo sendo de origem urbana, o que facilitaria, sobremaneira, o acesso. Acho que o mais longe que chegávamos na infância era querer tomar refrigerante mais vezes - sendo ele um produto fortemente associado às festinhas de aniversário. Nesse aspecto, virou comida afetiva na lembrança, contudo, não a ponto de consumir com frequência, no meu caso (pelo contrário: nunca fez parte do hábito nem da preferência, dada a evidência de que é um dos alimentos mais nocivos à saúde, na modernidade).

Na geração seguinte, a dos nossos filhos, foi muito difícil conter as influências da propaganda que induz ao consumo avassalador de tudo que é “brebôte”, como dizia Dona Maria, uma pessoa muito especial, trabalhadora da casa dos nossos pais, por longos anos. “Brebôte”, para D. Maria, era toda sorte de comidas supérfluas, do tipo que alguns dicionários informais, definem acertadamente: “comida de pouco teor nutritivo, de má qualidade; comida não muito saudável.” 

Pois é, haja brebôtes sendo incorporados hoje em dia à alimentação saudável; posso, inclusive, traduzir “brebôte” como sinônimo das comidas processadas e ultraprocessadas que se contrapõem àquelas na forma in natura ou minimamente processadas, estas, sim, sinônimo da comida de verdade. Mas, voltando ao foco das comidas afetivas, o valor agregado é tanto mais significativo quanto maior seja o envolvimento na concepção da comida, que vai do planejamento ao preparo, propriamente dito. 

Na minha atual rotina, evoluímos para a sugestão, por parte do meu filho, de priorizar o preparo e envio de comidinhas no período de sábado a terça-feira, apenas. Esta logística considera o uso de eventuais sobras de porções dos cardápios variados, nos dias subsequentes. Tem a ver com as preferências deles, e até com a presença ou não da trabalhadora diarista, em dias alternados. Escolho fazer preparações mais simples (como salada crua com três ou quatro vegetais, por exemplo), em dias com tarefas mais “puxadas” aqui em casa, como faxina.

Às vezes a confecção da preparação requer a conciliação de vários ingredientes, como a queridíssima salada de frutas: tê-las, “ao ponto”, todas no mesmo dia, requer até uma certa astúcia, sobretudo em período de entressafra, como se dá com a manga e o abacaxi. Para as bananas, nem inchadas nem maduras demais. Laranjas, ultimamente só as mexericas e congêneres. E por aí, vai. Planejar todas as frutas, calculando as quantidades para equilibrar sabores, texturas e cores, é uma verdadeira alquimia! E embora eu nunca descuide do valor nutritivo, o que mais importa é o processo de doar energia amorosa em tudo isso!

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