Receitas na Web

Receitas no ambiente virtual - Divulgação

De uns tempos pra cá, interessei-me em observar receitas culinárias em vídeos na internet, para fins didáticos. Este interesse adveio da evidência de como estes materiais têm um público cativo, a julgar pela explosão de programas culinários em TV aberta, canais a cabo, blogs, sites de pessoas famosas, etc. Como nutricionista, sou, por vezes, solicitada a opinar sobre preparações culinárias. A montanha de informações que chega por caminhos virtuais, a cada segundo, mexe com os indivíduos: uns, mais atentos, questionam. Outros, apenas seguem.

A este ponto das minhas reflexões, vendo a forma nova de comunicar o jeito de fazer comida, surge uma nostalgia ao lembrar os Cadernos de Receitas, que faziam parte do enxoval de toda nova dona de casa, e que se assemelhavam a verdadeiros tesouros de famílias. Seus registros possuíam valor afetivo: aqui, uma receita dos doces da vovó; ali, o bolo de milho, o pé-de-moleque e a canjica, tradicionais das festas juninas na casa de uma tia querida; acolá, um manjar dos deuses, que uma amiga do coração nos segredara, com as pitadas de “como eu faço”...


Além do caderno personalizado, com anotações caligráficas esmeradas e decalcomanias ilustrando os títulos das seções (Doces, Bolos, Tortas, Salgados, Sopas, Molhos, Comidas Regionais, etc.), muitas famílias costumavam investir em coleções de livros de receitas publicadas por grandes editoras. Nos primeiros tempos de casada eu colecionei “Almoço e Jantar”, que constava de fascículos com uma variedade de receitas a perder de vista, o que ocasionava uma corrida às bancas de revistas. Era um estresse, deixar de comprar algum daqueles volumes preciosos.


Era usual, também, as grandes indústrias alimentícias publicarem coletâneas de receitas tendo como ingredientes seus produtos mais famosos; a sensação do momento era correr e procurar a disponibilização destes brindes nas lojas, o que estava atrelado, geralmente, à compra de certo número de unidades dos produtos. E uma vez com o abençoado livreto nas mãos, haja tempo e dinheiro para providenciar os ingredientes e “colocar as mãos na massa”, literalmente. Era uma das estratégias do marketing da época, para fidelizar cada vez mais os consumidores.


Voltando aos sites de receitas, tem de tudo: dos mais estruturados, com apresentadores ou blogueiros bem treinados, com uma didática primorosa e uma sequência lógica de procedimentos (o tal passo a passo), impecável. Outros (Ave Maria!), sem qualquer organização das etapas de apresentação, ignorando o empenho necessário à compreensão dessas tarefas por parte dos variados públicos, no ambiente virtual. Isso tudo, sem falar na chateação que é, o tanto de propagandas dos patrocinadores e as chamadas insistentes para “dar um joinha”, para “ir lá no site e se inscrever”, e para “não esquecer de ativar o sininho das notificações”.


É claro que o meu viés de observação é, sobretudo, profissional. No planejamento de refeições a técnica culinária define muito o êxito da tarefa. Tudo importa: a especificação correta das quantidades dos ingredientes, a adoção de medidas caseiras padronizadas, a clareza na sequência de preparo, a organização do ambiente, a higiene, a disposição dos utensílios, a estimativa do tempo de preparo e da temperatura do forno e o rendimento da receita.
 E há um item, para o qual sou bastante crítica: a higiene demonstrada. Sinto falta de ver o apresentador paramentado com avental, luvas e toucas de proteção dos cabelos. Arrepio-me, vendo pessoas com pulseiras e anéis enquanto preparam comida. Elas deveriam ser orientadas para exemplificar as boas práticas de manuseio dos alimentos...