Do Sputnik ao 5G: a tensão entre China e Estados Unidos na nova 'Guerra Fria'

Stand da Huawei no Mobile World Congress, na Espanha - Lluis Gene/AFP

Durante o período de Guerra Fria entre Estados Unidos e União Soviética, o duelo entre as duas potências ficou marcado pela corrida espacial. Quem lançaria o primeiro satélite? Ou quem iria pisar na lua primeiro? Sputnik, Apollo 11… símbolos de domínio além do planeta, tudo de acordo com os avanços tecnológicos. Passado este período e findados os soviéticos, em 2020 as tensões desta vez se acirram entre Estados Unidos e China. O duelo pelo posto de referência mundial ocorre repaginado no campo da tecnologia. Saem as espaçonaves e entra a internet, o 5G, privacidade de aplicativos e smartphones.

Tema principal dos embates, a privacidade do usuário e governamental chega acompanhada do 5G e dos aplicativos. Recentemente, os Estados Unidos acusaram empresas chinesas, como a Huawei, de utilizarem dados americanos sem autorização. A grande preocupação é em relação à possível utilização de dados internos governamentais, que poderiam pôr em cheque estratégias americanas. A embaixada chinesa em Houston, inclusive, foi fechada como forma de retaliação.

“O que vemos em investigações nos EUA é que a Huawei é um grande risco. Seus equipamentos representam um grande risco para quem tem parceria com eles, grande risco de direito de propriedade intelectual, em termos comerciais”, diz o Cônsul Geral dos Estados Unidos no Recife, John Barrett.
A fala de Barrett corrobora com as suspeitas americanas. Em junho, a atualização da Apple para o sistema operacional iOS 14 revelou que o aplicativo chinês TikTok estava tendo acesso constante à área de transferência sem autorização dos usuários. A empresa responsável pelo segundo aplicativo mais baixado de 2019, por sua vez, afirmou que se tratava de um recurso de anti-spam, projetado para identificar comportamentos repetitivos.

Para os chineses, a segurança é ponto fundamental nas boas relações comerciais. Andy Purdy, diretor de Segurança da Huawei nos EUA, afirmou em comunicado recente que a Huawei sempre tem na cibersegurança a sua prioridade: “Acreditamos que a segurança é vital para a continuidade dos negócios e, por isso, estamos sempre ouvindo o feedback de nossos clientes”.

Jornalista da Agência Xinhua, veículo oficial de notícias sobre a China no Brasil, Janaína Camara da Silveira analisa como uma disputa frágil o duelo com os americanos. “Eles (os chineses) têm as mesmas preocupações que a gente tem no Ocidente. A minha leitura é que se trata de tentativa de barrar um país gigantesco em população, economia, de ir um passo à frente”, enfatiza. 

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Brasil

No meio de todo o embate, o Brasil é peça chave no cenário geopolítico mundial. Tendo China e Estados Unidos como principais parceiros comerciais, o País se vê prestes a uma “sinuca de bico” com o leilão das radiofrequências do 5G em 2021. Pioneira nas pesquisas, as chinesas Huawei e ZTE não são empresas de agrado dos americanos. A rejeição pode impactar no impedimento da participação no leilão e consequentemente no atraso da chegada da tecnologia em solo brasileiro.

Em comunicado recente, o diretor sênior de Relações Governamentais da Huawei Brasil, Atílio Rulli, defendeu a diminuição de entraves existentes na área de telecomunicações. Além disso, a companhia tem 91 contratos comerciais assinados, mais de 600 mil eNodes (estações radiobase) entregues e mais de 20% dos registros globais para 5G em todo o mundo. “Estes números comprovam que a Huawei é líder mundial em 5G e está muito à frente neste mercado, em termos de desenvolvimento da tecnologia”, explicou o diretor.

O cenário, apesar dos entraves políticos, parece ser favorável para a chegada do 5G chinês no Brasil. "Acreditamos que o Brasil terá um posicionamento de admitir a tecnologia chinesa, pois elas são as mais avançadas no momento. A China é o maior parceiro comercial do Brasil desde 2009, independentemente de ideologias políticas", afirma o CEO do LIDE China, grupo de líderes empresariais no Brasil, José Ricardo dos Santos Luz Junior.

Com ou sem China, a tecnologia já está em fase de testes em solo brasileiro. Claro e Vivo iniciaram a testagem do 5G em São Paulo e no Rio de Janeiro, utilizando tecnologia da sueca Ericsson. A empresa, inclusive, é uma das que está à frente das pesquisas, concorrendo com a Huawei. 

No entanto, apesar dos entraves em meio à pandemia do novo coronavírus em 2020, as próximas cenas deste capítulo, deverão ser vistas apenas no primeiro semestre de 2021, de acordo com o ministro das Comunicações, Fábio Faria.