Livro inspira a mulher negra a perceber sua capacidade e seu valor

A jornalista Jaqueline Fraga é autora do livro 'Negra Sou' - Leo Malafaia

Em clima de Dia das Mulheres, hoje, convidamos a jornalista Jaqueline Fraga (https://www.instagram.com/jaquefraga_/), autora do livro ‘Negra Sou’ (https://www.instagram.com/livronegrasou/), finalista do Prêmio Jabuti 2020. Durante nosso bate-papo, assuntos relacionados ao empoderamento, equidade, mercado de trabalho, desafios da pandemia, histórias inspiradoras e sororidade. 

“Sabe a máxima do “uma sobe e puxa a outra”? Vamos atuar em rede, incentivando aquela que está ao nosso lado. Quando andamos juntas ou nos inspiramos umas nas outras, ficamos mais fortes”, comenta a escritora. A jornalista tem recebido feedback positivo das leitoras que falam sobre como o ‘Negra Sou’ as impactaram e as incentivaram a buscar seus sonhos e sua colocação profissional. 

Além do livro ser finalista no Jabuti, a jornalista recebeu menção honrosa na categoria ‘Grande Reportagem’, do ‘Prêmio Direitos Humanos de Jornalismo’.“Eu sou só orgulho com a trajetória do ‘Negra Sou’ e por saber que com ele estou também inspirando e influenciando outras mulheres jovens e negras a buscarem seus sonhos”, comenta.

Para os próximos passos, Jaqueline já planeja a segunda edição da obra e está engajada num programa online semanal, batizado como ‘Nossa Voz’, em que destaca boas notícias relacionadas ao universo da negritude. 

1 - Qual a principal mensagem que você quer passar com o livro que aborda as histórias de cinco negras (foto) em profissões exitosas?

"Eu sempre falo que nós precisamos mostrar o sucesso de mulheres negras para que percebamos, cada vez mais, que esses espaços também são nossos. Por isso, eu acredito muito na importância da representatividade, porque nos permite, justamente, enxergar que os espaços sociais mais valorizados também podem e devem ser ocupados por nós. Passamos muito tempo sem ver mulheres negras em posições de prestígio, em profissões de destaque, em espaços de poder. E precisamos nos ver e nos enxergar nesses locais para que se torne comum e para que, como eu disse, saibamos que são nossos também".

Jaqueline e as cinco mulheres que serviram de inspiração para seu livro

2 - Como se deu as escolhas das convidadas do livro?

"Eu me baseei em dados do IBGE e do IPEA que elencaram as profissões mais valorizadas no Brasil. Então, selecionei cinco daquelas carreiras e fui em busca de mulheres pernambucanas que atuassem nas referidas áreas. E busquei mulheres que estavam em diferentes fases da vida. Assim, as reportagens especiais originais trazem as histórias de três profissionais que estavam naquele momento atuando no mercado de trabalho, mas também de uma então estudante universitária e de uma profissional aposentada. No livro, nós conhecemos a história de profissionais de sucesso das seguinte áreas: Medicina, Direito, Odontologia, Engenharia e Militar". 

3 - Quais inspirações que cada uma das entrevistadas transmitem?

"Cada uma delas tem a sua singularidade. Eu gostei muito de contar cada história e percebo o tanto que cada uma pode contribuir nessa busca por representatividade, por equidade no mercado de trabalho, por referências. Carolina, Gleyciane e Lúcia Helena aproximam-se muito da minha realidade, até por termos faixa etária parecida. Foi muito rico me aprofundar nas suas trajetórias, acompanhar suas evoluções. 

Já Bernadete e Laurinete são duas mulheres mais velhas, hoje ambas aposentadas, e que representam essa ancestralidade na vida. Saber que elas estão aí há tanto tempo sendo inspiração e lutando por igualdade é muito significativo. E as histórias do livro estão aí para isso também, para que mais mulheres negras se inspirem e percebam a sua capacidade. Para que saibam que elas podem seguir as profissões que há certo tempo não costumávamos nos ver. 

Eu tenho recebido um feedback muito positivo nesse sentido, de leitoras que entram em contato comigo e falam sobre como o Negra Sou as impactaram e as incentivaram a buscar seus sonhos e sua colocação profissional. Essa é, com certeza, uma das partes mais gratificantes desta minha vida de escritora".

4 - Como as mulheres negras podem se empoderar e renovar forças para ir em busca de seus objetivos?

"A gente passou muito vendo apenas, ou em sua esmagadora maioria, pessoas brancas em posições sociais privilegiadas. Mas isso vem mudando. E sem dúvidas graças ao movimento negro e ao movimento das mulheres negras, afinal, o empoderamento partiu de nós para o mundo. Quando nós vemos que uma mulher negra igual a nós está conquistando o seu espaço, está se empoderando, está valorizando a sua beleza, está tendo sucesso profissional, nós percebemos que também podemos alcançar as mesmas coisas. 

Já disse Angela Davis: “Quando a mulher negra se movimenta, toda a estrutura da sociedade se movimenta com ela”. Quando uma mulher negra se empodera e alcança o seu sucesso, ela inspira muitas outras mulheres negras também. E aqui eu enxergo a força da atuação em rede, da união e do compartilhamento de ideias, vivências e projetos".

5 - Com a pandemia, as mulheres negras foram as mais atingidas no mercado de trabalho, em especial, sofrendo com desemprego. Será um retrocesso na luta das mulheres? 

"Nós sabemos que as mulheres negras estão na base da pirâmide social. E, fazendo uma analogia com o ditado popular, “a corda sempre arrebenta para o lado mais fraco”. A história das mulheres, e em especial de mulheres negras, é marcada por muitas lutas, inclusive impostas pela interseccionalidade de gênero e raça e pelos preconceitos atrelados a ela. Essa luta vai continuar. Mas é uma pauta que não deve ser exclusiva de um grupo de pessoas, a busca pela igualdade e equidade deve estar presente em toda a sociedade".

6 - Segundo o IBGE, a diferença entre a taxa de desemprego entre brancos e pretos atingiu o pior nível desde 2012. Enquanto o índice para pretos está em 17,8% e para pardos, 15,4%, a taxa para brancos fica em 10,4%. Verificamos que a covid-19 evidenciou as desigualdades sociais e econômicas no Brasil e no mundo. Como reagir a essa triste realidade?

"A pandemia de fato evidenciou o que nós já percebemos no cotidiano. As pesquisas ainda mostram rotineiramente as discrepâncias quando analisamos as posições de pessoas negras e brancas no mercado de trabalho. Acredito que uma das formas de lidarmos com essas disparidades, e contorná-las, é de responsabilidade das organizações, que precisam estabelecer medidas práticas em prol da equidade de gênero e de raça, mesmo em situações tão adversas como as que estamos enfrentando. 

Para além disso, também precisamos parar de naturalizar que pessoas negras estejam sempre em cargos subalternos e pessoas brancas em cargos de nível hierárquico mais alto. Por exemplo, os estudos ainda mostram que a grande maioria de executivos, de CEOs, de diretores de empresas são homens brancos. Então, um dos desafios é justamente fazer com que essas pessoas também atuem na pauta antirracista e que a empresa abra espaço para mulheres e homens negros chegarem a essas posições".

7- O que essas premiações do seu livro significam para você enquanto mulher, jovem e negra?

"É uma honra enorme receber ou ser indicada a essas premiações. Estar entre os finalistas do Prêmio Jabuti foi de uma alegria e de um orgulho imensos, especialmente por ser o meu primeiro livro e por ser a única mulher, e a única pessoa com uma obra independente, indicada na categoria Biografia, Documentário e Reportagem. É o reconhecimento de um projeto que muito me orgulha e que tem como tema central a representatividade, justamente por que precisamos enxergar os espaços de destaque, poder e decisão como também sendo pertencentes às pessoas negras. 

O orgulho também foi gigante ao receber, pouco após o lançamento da obra, a menção honrosa na categoria ‘Grande Reportagem’ do ‘Prêmio Direitos Humanos de Jornalismo’. Além disso, antes de se tornar livro físico, o projeto também foi um dos vencedores do ‘Prêmio Antonieta de Barros Jovens Comunicadores Negros e Negras’. Então, essas premiações são de fato um reconhecimento e também um marco que corrobora o valor desse trabalho e a importância de contarmos essas histórias. Eu sou só orgulho com a trajetória do ‘Negra Sou’ e por saber que com ele estou também inspirando e influenciando outras mulheres jovens e negras a buscarem seus sonhos". 

8- Qual recado você gostaria de dar para as mulheres negras que passam dificuldades?

"Eu gostaria de lembrá-las que apesar das dificuldades nós não devemos desistir de nós, nem de nossos sonhos. Sei que cada uma tem sua própria vivência, com obstáculos às vezes difíceis de serem superados. Mas gostaria de frisar que podemos estar em qualquer profissão, em qualquer carreira, que devemos buscar nossos sonhos e objetivos e acreditar em nós. Sabe a máxima do “uma sobe e puxa a outra”? Vamos atuar em rede, incentivando aquela que está ao nosso lado. Quando andamos juntas ou nos inspiramos umas nas outras, ficamos mais fortes".

9- Qual será o próximo passo de Jaqueline?

"Falar sobre representatividade é algo que me motiva demais. O livro ‘Negra Sou’ trouxe como aspecto central mulheres negras que atuam em profissões de destaque, mas as reportagens falam sobre suas histórias como um todo, falam sobre suas vidas em si. Então, ao longo das páginas, nós conhecemos aspectos das suas carreiras, mas também da sua vida pessoal, da sua relação familiar, dos seus relacionamentos, da sua autoestima. 

Como a primeira edição está próxima de se esgotar, estou planejando lançar a segunda nos próximos meses. Aliado a isso, seguem as ações nas redes sociais, pelo perfil https://www.instagram.com/livronegrasou/ no Instagram. Inclusive, idealizei um programa online semanal, batizado como ‘Nossa Voz’, em que destaco boas notícias relacionadas ao universo da negritude. 

Também estou conduzindo o projeto ‘Conhecendo Escritoras Negras de Pernambuco’, que pode ser acessado pelo Instagram https://www.instagram.com/escritorasnegrasdepe/. Ainda não tenho nada oficial, mas penso em publicar outros livros que abordem carreiras específicas, sabe? Por exemplo, um livro que reúna histórias de jornalistas ou escritoras negras, ou outras áreas profissionais. E também um livro não-biográfico. Tenho poesias, crônicas e contos espalhados pelas gavetas ou computador. Desejo publicar uma obra com algumas dessas histórias também".

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