A Copa, a bola, a alma
Porque o futebol brasileiro é um poema. Coletivo. Moreno. Feito de cabeça, tronco, membros. E alma
Um dia, Nelson Rodrigues, o cronista, disse: “Em futebol, o pior cego é o que só vê a bola. A mais sórdida pelada é de uma complexidade shakespeareana”. Outro dia, o mesmo Nelson escreveu: “Estão a postos os jogadores, o técnico e o massagista. Mas quem ganha as partidas é a alma. E aqui pergunto: que entende de alma um técnico de futebol ? “.
Rigoletto de lança-perfume, a divina goleada, Didi sem Guiomar, o complexo de vira-latas, os inimigos do óbvio, João sem medo, à sombra dos crioulões em flor, o mais belo futebol da Terra: está tudo (e mais alguma coisa) lá, em À Sombra das Chuteiras Imortais, Companhia das Letras, São Paulo, 1993. Assinado, Nelson Rodrigues.
Quem o leu, sabe um pouco o que é o futebol brasileiro. Sua magia, sua grandeza, suas frustrações. E sobretudo seus Napoleões da bola. E seus Portinari de gols que são verdadeiras pinturas. No século XX, o futebol brasileiro teve três fases: o futebol como cena de subúrbio até os anos de 1950; o futebol como evento de classe média, entre as décadas de 1960 e 70; e o futebol como projeto empresarial, a partir dos anos de 1980. Sem falar nas casas de aposta.
Essa seria uma perspectiva sociológica. Que não é a mais bela. Nem a mais extraordinária. Nem a mais fatal, diria Nelson Rodrigues. Porque o futebol brasileiro é um poema. Coletivo. Moreno. Feito de cabeça, tronco, membros. E alma. Desde quando botamos no armário da consciência o complexo de vira-lata. Como disse Nelson: “Eu vos digo: o problema do escrete não é mais futebol, nem de técnica, nem de tática. É um problema de fé em si mesmo”.
Basta ter visto Garrincha jogar. Um completo bailarino. Pronto para se apresentar no Maracanã, no Avery Hall ou em Pau-Grande. Driblando até as barbas de Rasputin. A ponto de os torcedores começarem a desconfiar como é gostoso ser brasileiro. Já na perspectiva do gramado, o futebol brasileiro viveu três momentos: o momento heroico, em 1958, em que o zagueiro Nilton Santos impôs ao técnico Vicente Feola a escalação de um menor de 17 anos, chamado Pelé. Que ainda não vira filmes de Brigitte Bardot.
O segundo momento, dos Titãs, em 1970. Um time que tinha técnica e beleza. Logística e arte. Arte na feitura de gols inesquecíveis. E logística nos passes milimétricos, construídos com régua e compasso futebolístico. Foi o momento de Djalma Santos, Zito, Garrincha, Didi, Vavá e Zagalo.
O terceiro momento, da maturidade, em 1994, quando a seleção foi tetracampeã. A seleção era respeitada. E respeitava a bola. O lúdico virou mestrado de futebol. Os jogadores viraram catedráticos do esporte. Percebia-se que, por trás da prática, havia uma teoria. Inspirada pelos deuses do futebol. E treinada no olimpo. Foi o momento de Cafu, Ricardo Rocha, Raí, Romário e Bebeto.
E assim a seleção foi pentacampeã. Queremos ser hexacampeões. Lembro novamente de Nelson Rodrigues, agora como torcedor do Fluminense. Que escreveu: “A partir do momento em que o Fluminense deixou de ser tão estilista, tão Flaubert, os gols começaram a jorrar aos borbotões”.



