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Uma Série de Coisas

“5 Tipos de Medo” faz da periferia o centro da narrativa

Filme aposta em narrativa em mosaico para conectar histórias marcadas por violência e sobrevivência

Ator João Vitor Silva interpreta Murilo em "5 Tipos de Medo"Ator João Vitor Silva interpreta Murilo em "5 Tipos de Medo" - Divulgação

“5 Tipos de Medo” estreia nos cinemas nesta quinta-feira (9) e, antes de entrar em cartaz, a coluna Uma Série de Coisas, da Folha de Pernambuco, teve acesso ao filme. E já vale avisar que quanto menos você souber sobre ele, melhor. Não por truques baratos, mas porque o impacto está justamente na forma como as peças vão se encaixando.

Dirigido por Bruno Bini, o longa aposta em uma estrutura fragmentada, quase como um quebra-cabeça. São cinco histórias que se cruzam na periferia de Cuiabá, todas atravessadas por escolhas difíceis, perdas e tentativas de mudar de vida. No meio disso tudo, um personagem funciona como ponto de ligação: Sapinho.

Interpretado por Xamã, ele é o tipo de figura que incomoda porque não cabe em definição simples. Traficante, violento, imprevisível, mas também alguém que, dentro daquela lógica específica, ocupa um papel de proteção. É o tipo de contradição que o filme não explica, não suaviza e nem tenta resolver, só expõe. E isso dá o tom do que vem pela frente.

Em um momento, estamos acompanhando Marlene, vivida por Bella Campos, em uma relação que mistura afeto e instabilidade. Em outro, a história muda de eixo e mergulha em personagens que lidam com perdas, raiva e luto. Aos poucos, essas trajetórias começam a se cruzar de forma mais clara, até que tudo converge no ato final.

O interessante é que o filme não trata essas histórias como peças isoladas. Existe uma tentativa de mostrar como essas vidas estão conectadas por algo maior, um sistema que empurra, limita e, muitas vezes, define o rumo de cada um. Questões como violência, abandono estatal, dependência química e até ecos recentes da pandemia aparecem de forma integrada, sem virar discurso pronto.

Um dos maiores acertos está justamente no equilíbrio dessa estrutura. Narrativas fragmentadas costumam correr o risco de se perder ou deixar pontas soltas, mas aqui existe um cuidado evidente em amarrar tudo. Mesmo quando uma sequência parece deslocada, ela encontra sentido mais à frente.

Também ajuda o fato de o filme ter um pé muito firme no lugar que retrata, em Cuiabá. Existe uma intimidade com aquele espaço, com aquelas pessoas, que atravessa o filme inteiro. Isso dá uma camada de verdade que sustenta até os momentos mais duros.

Mas nem tudo se resolve com a mesma força. Em alguns trechos, o filme parece querer abraçar mais do que consegue desenvolver. Certos personagens ficam à margem, algumas situações passam rápido demais. Não chega a comprometer o todo, mas deixa a sensação de que havia ainda mais a explorar ali.

Por outro lado, quando o filme desacelera e deixa os personagens respirarem, ele cresce. Bella Campos entrega uma presença segura, principalmente nos momentos mais íntimos, enquanto Xamã surpreende ao construir um personagem que não pede empatia, mas também não a recusa. Ele simplesmente existe, e isso já é suficiente para gerar tensão.

“5 Tipos de Medo” é um filme sobre gente tentando sobreviver dentro de estruturas que não dão muita escolha. Nem sempre é confortável, nem sempre é linear, mas dificilmente é indiferente. E talvez esse seja o maior mérito, fazer você sair da sessão com a sensação de que aquelas histórias continuam existindo mesmo depois que a tela escurece.

*Fernando Martins é jornalista e grande entusiasta de produções televisivas. Criador do Uma Série de Coisas, escreve semanalmente neste espaço. Instagram: @umaseriedecoisas.

*A Folha de Pernambuco não se responsabiliza pelo conteúdo das colunas.

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