“Cabo do Medo” atualiza um thriller inesquecível com personalidade
Minissérie prefere construir sua própria identidade a viver da comparação com o filme de 1991
“Cabo do Medo” é a nova adaptação da AppleTV+ que, nesta sexta-feira (31), lança o último episódio na plataforma. Sem tentar competir com o filme de Scorsese, a série aposta no suspense psicológico, em grandes atuações e em mudanças que dão uma identidade própria à história.
Remakes costumam despertar mais desconfiança do que entusiasmo. Ainda mais quando mexem com um clássico que atravessou gerações e ganhou uma adaptação dirigida por Martin Scorsese, com Robert De Niro em um de seus papéis mais lembrados.
A impressão inicial é inevitável. Vem logo a pergunta, por que revisitar essa história outra vez?
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Trama
A minissérie criada por Nick Antosca adapta novamente o romance “The Executioners”, de John D. MacDonald, mas faz mudanças importantes na estrutura da narrativa. Desta vez, quem esteve diretamente ligada à condenação de Max Cady é Anna Bowden (Amy Adams), uma advogada que precisa lidar com as consequências de um caso do passado quando o criminoso deixa a prisão decidido a destruir sua família.
Ao lado do marido, Tom (Patrick Wilson), ela entra em uma espiral de perseguição, paranoia e segredos que se desenrola ao longo de dez episódios.
Identidade própria
A principal qualidade da série está justamente na decisão de não viver à sombra do filme de 1991. As referências existem, claro, mas aparecem muito mais como homenagem do que como tentativa de reprodução.
Em vez de copiar enquadramentos ou a postura exageradamente teatral de Max Cady, a produção constrói sua própria identidade, sustentada por um suspense mais psicológico do que explosivo.
Grande elenco
Boa parte desse mérito passa por Javier Bardem. Seu Max Cady é inquietante porque nunca parece completamente previsível. Há momentos em que transmite calma absoluta, apenas para, segundos depois, deixar evidente que qualquer situação pode sair do controle.
Bardem evita transformar o personagem em uma caricatura e encontra uma violência muito mais desconfortável justamente na maneira como fala pouco e observa muito.
Amy Adams também ganha um protagonismo que altera completamente a dinâmica da história. Sua Anna carrega o peso da culpa, da insegurança e da responsabilidade de proteger quem ama enquanto tenta entender até onde Cady está disposto a ir.
Patrick Wilson funciona muito bem como contraponto, formando um casal que reage de maneiras diferentes diante da mesma ameaça, o que torna os conflitos internos tão interessantes quanto a perseguição em si.
Mudança de formato
A expansão para o formato de série poderia resultar em episódios inchados, mas isso acontece menos do que se imagina. Existe uma inevitável desaceleração em alguns momentos, especialmente na metade da temporada, quando certas situações parecem girar em torno da mesma tensão.
Ainda assim, o roteiro consegue usar esse tempo extra para desenvolver relações familiares, aprofundar dilemas morais e mostrar como o medo modifica pequenas decisões do cotidiano.
Visualmente, a série também encontra personalidade própria. A fotografia aproveita o calor sufocante de Savannah para criar uma atmosfera constantemente desconfortável. Tudo parece úmido, pesado e prestes a explodir.
A direção evita grandes excessos e prefere construir o suspense através dos silêncios, dos espaços vazios e da sensação permanente de que Max Cady pode surgir a qualquer momento.
Deslizes
Há, porém, uma escolha que merece um olhar mais crítico. Em determinados momentos, a narrativa associa Max Cady a elementos ligados às religiões de matriz africana, como búzios e referências a alguns orixás, como forma de reforçar sua aura de mistério e ameaça.
Ainda que essas referências ocupem pouco espaço dentro da trama, acabam reproduzindo um imaginário antigo que aproxima práticas religiosas afro de figuras violentas ou malignas. É uma associação que hoje soa datada e contribui, mesmo que involuntariamente, para estigmas que essas religiões enfrentam há décadas.
Felizmente, esse aspecto não define a construção do personagem, mas é uma escolha que poderia ter sido tratada com mais cuidado.
No fim, “Cabo do Medo” faz algo que parecia improvável, encontra espaço para existir sem depender apenas do prestígio do livro ou do filme de Scorsese. É um suspense elegante, bem interpretado e que sabe sustentar a tensão durante quase toda a temporada.
Talvez nunca substitua a força das adaptações anteriores, mas também nunca tenta fazer isso.
*Fernando Martins é jornalista e grande entusiasta de produções televisivas. Criador do Uma Série de Coisas, escreve semanalmente neste espaço. Instagram: @umaseriedecoisas.
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