Ter, 17 de Março

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Uma Série de Coisas

Luto é ponto de partida na segunda fase de “Como Água Para Chocolate”

Segunda temporada abandona o romantismo e aposta na dor como motor dramático

Azul Guaita interpreta Tita em "Como água para chocolate"Azul Guaita interpreta Tita em "Como água para chocolate" - Divulgação/Max

A segunda e última temporada de “Como Água Para Chocolate” começou a ser disponibilizada semanalmente na HBO Max. Não há pressa, na trama, em reacender paixões nem em recuperar o encanto sensorial que marcou a primeira fase da série. O episódio de estreia escolhe o caminho da ausência. 

Os dois primeiros episódios do novo ano ditam o tom do que parece que irá reverberar ao longo da temporada, personagens atravessados pelo luto, pela violência e pelo esvaziamento emocional.

Baseada no romance de Laura Esquivel e dirigida por Julián de Tavira, a série mantém o tom de drama histórico, mas desloca o centro da narrativa. Se antes o desejo reprimido era o eixo, agora é a devastação que assume o comando. 

A história retoma exatamente do ponto em que parou: Elena, mais uma vez, reafirma seu poder autoritário ao entregar Pedro aos militares responsáveis pela repressão, um gesto que carrega crueldade política e familiar ao mesmo tempo. 

A resposta é imediata e brutal. Pedro é levado para o fuzilamento. Tita, arrancada de casa e empurrada para o confinamento de um convento. A separação não é apenas física. Ela se transforma em um estado permanente de suspensão. Pedro acredita ter perdido Tita para sempre. Tita, por sua vez, passa a viver sob a certeza de que Pedro está morto. 

Esse desencontro de informações cria um vazio que domina o início da segunda temporada. Até a morte recente do filho de Pedro com Rosaura, que poderia ser o centro do sofrimento, acaba soterrada por uma dor maior, mais silenciosa e persistente.

A virada da temporada acontece quando Tita volta à cozinha. Não como gesto romântico, mas como reencontro com algo essencial. Cozinhar, aqui, não é metáfora óbvia de amor, mas sinal de que ainda existe uma chama que se recusa a apagar. 

O realismo mágico surge de forma contida, quase tímida, mais sugerido do que exibido. A série parece consciente de que exagerar nesse recurso quebraria o peso emocional construído até ali.

Ao iniciar a nova temporada dessa forma, a série mexicana deixa claro seu posicionamento. Não se trata de reacender um romance, mas de examinar as cicatrizes deixadas por um amor atravessado pela violência, pela tradição e pelo autoritarismo. O desejo segue ali, mas agora misturado à espera, ao ressentimento e à dúvida. E é justamente nessa recusa ao conforto que a série encontra sua força.

*Fernando Martins é jornalista e grande entusiasta de produções televisivas. Criador do Uma Série de Coisas, escreve semanalmente neste espaço. Instagram: @umaseriedecoisas.

*A Folha de Pernambuco não se responsabiliza pelo conteúdo das colunas.

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