Seg, 08 de Junho

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Uma Série de Coisas

Mesmo irregular, despedida de “Euphoria” ainda encontra beleza no caos de crescer

Visualmente impecável, temporada final oscila entre boas atuações e roteiro perdido

Zendaya é destaque na terceira e última temporada de "Euphoria"Zendaya é destaque na terceira e última temporada de "Euphoria" - Divulgação/Max

Existe uma sensação estranha ao assistir à terceira temporada de “Euphoria”. Não exatamente de decepção, mas de distanciamento. Como reencontrar alguém depois de muitos anos e perceber que a pessoa mudou tanto que, às vezes, parece outra. 

Visualmente, a série da HBO Max continua linda e intensa, considerando o salto temporal de cinco anos que tira os personagens do ambiente escolar e joga todos em uma vida adulta meio desajeitada, meio amarga.

A mudança era inevitável. Depois de duas temporadas transformando corredores de escola em campos de guerra emocionais banhados por neon, seria difícil continuar fingindo que aqueles personagens ainda pertenciam à adolescência. O problema é que “Euphoria” sempre impressionou pelo viés do exagero juvenil. Na impulsividade. No drama vivido como fim do mundo. Quando a série tenta amadurecer seus conflitos, ela perde um pouco da identidade que a tornou um fenômeno.

Ritmo mais lento

Sam Levinson parece interessado em transformar a temporada final quase numa ressaca emocional permanente. Os episódios têm um ritmo mais lento, menos explosivo, mais contemplativo. 

Em alguns momentos funciona muito bem. Em outros, parece apenas uma narrativa rodando em círculos. Há cenas longas demais, conflitos que demoram a encontrar propósito e personagens que entram e saem da história sem o peso que deveriam ter numa despedida.

Ainda assim, seria injusto ignorar o quanto “Euphoria” continua tecnicamente impressionante. A fotografia permanece absurda de bonita. Os enquadramentos seguem sofisticados sem parecer exercício vazio de estilo, e a direção de arte mantém aquela atmosfera melancólica bem desenvolvida. Mesmo sem o uso tão marcante da trilha de Labrinth, ainda existe cuidado visual na televisão atual.

Elenco e personagens

Zendaya continua sendo o coração da série. Rue já não é aquela adolescente em espiral constante das temporadas anteriores. Existe um desgaste nela agora. Uma apatia silenciosa. E a atriz entende isso perfeitamente. 

Sua atuação aqui é menos explosiva, mas talvez até mais difícil. Pequenos olhares, pausas, silêncios e recaídas emocionais carregam mais peso do que um grande monólogo. É uma interpretação mais contida, mas igualmente interessante de assistir.

O arco de Cassie também acaba surgindo como um dos mais interessantes dessa reta final. Existe algo genuinamente triste e humano na tentativa dela de reconstruir a própria identidade fora da validação masculina. 

A relação dela com Maddy ganha nuances inesperadas, e a temporada acerta ao permitir que as duas amadureçam sem apagar as cicatrizes que deixaram uma na outra.

Ausências

Ao mesmo tempo, há ausências difíceis de ignorar. Algumas são físicas, outras emocionais. Certos personagens parecem esvaziados, quase como se a série já não soubesse exatamente o que fazer com eles. 

Mesmo nos tropeços, “Euphoria” continua tendo algo magnético. Talvez porque poucas séries tenham conseguido traduzir tão bem o vazio emocional de uma geração inteira sem transformar isso em discurso pronto. Quando funciona, ainda é hipnótica. Quando falha, pelo menos falha tentando alguma coisa diferente.

A terceira temporada não encerra “Euphoria” da maneira impecável que muita gente imaginava anos atrás. Mas também passa longe de destruir o legado da série. É uma despedida irregular, bonita, excessiva e meio melancólica. O que, pensando bem, talvez seja a forma mais “Euphoria” possível de terminar.

*Fernando Martins é jornalista e grande entusiasta de produções televisivas. Criador do Uma Série de Coisas, escreve semanalmente neste espaço. Instagram: @umaseriedecoisas.

*A Folha de Pernambuco não se responsabiliza pelo conteúdo das colunas.

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