“O Agente Secreto”: Recife como memória, delírio e ferida aberta
Produção pernambucana indicada ao Oscar revisita a ditadura a partir do Recife e de seus fantasmas
Assistir a “O Agente Secreto” não foi, para mim, apenas ver um filme brasileiro indicado ao Oscar. Foi atravessar Recife por dentro. E não falo só das ruas, dos prédios, do calor que parece subir da tela. Falo de uma sensação mais funda, quase íntima, de reconhecimento.
Como pernambucano, é impossível não sentir que há algo ali que também me pertence. O filme não se limita a se passar em Recife, ele respira Recife. Cada espectador daqui reconhece um pedaço de si naquela paisagem, naquela rua ou na forma torta e inventiva de lidar com o absurdo.
Leia Também
• O que vem por aí: as séries mais aguardadas de 2026
• Onde assistir aos indicados a Melhor Filme no Oscar 2026
• Três séries nacionais que valem seu tempo antes de 2026
As indicações ao Oscar (quatro, nada menos) ajudam a dimensionar a força do projeto, mas elas não explicam o essencial. O que faz de “O Agente Secreto” um filme poderoso é a maneira como ele transforma a história política do país em atmosfera, em gesto, em delírio cotidiano.
A ditadura não aparece como um manual de horrores explicitados, mas como um estado permanente de estranhamento, medo difuso e imaginação doentia. É assim que regimes autoritários funcionam: eles reprimem, mas também contaminam a vida comum.
Nesse contexto, Wagner Moura sustenta o filme com uma atuação cheia de tensão interna, daquelas que dizem mais no silêncio do que no discurso. Seu personagem carrega no corpo a exaustão moral de quem vive cercado por segredos e suspeitas, e Moura entende como poucos esse tipo de figura atravessada pela história.
Ao seu lado, Tânia Maria surge como presença magnética, quase hipnótica, trazendo uma força que mistura dureza e afeto, memória, resistência e um certo alívio cômico que é mais do que bem-vindo. Cada aparição sua parece carregar décadas de Brasil não dito.
Há também algo de profundamente pessoal no modo como Kleber Mendonça Filho constrói “O Agente Secreto”. Não só porque ele é de Recife, mas porque sua filmografia inteira parece caminhar até aqui. Desde “O Som ao Redor” (2012), passando por “Aquarius” (2016) e “Bacurau” (2019), Kleber filma o Nordeste como território político, onde a história não é passado, mas um ruído constante que atravessa paredes, corpos e silêncios.
Em “O Agente Secreto”, esse ruído ganha forma concreta: a cidade vira personagem, o medo vira paisagem, e a ditadura deixa de ser um evento distante para se tornar algo que se infiltra na rotina, nas conversas atravessadas, nas fantasias populares.
É um cinema feito por alguém que conhece Recife não como cartão-postal, mas como memória viva e, talvez por isso, cada plano carregue a sensação de que o filme não está somente contando uma história, mas devolvendo à cidade aquilo que ela nunca conseguiu enterrar completamente.
A introdução da perna cabeluda é um achado cinematográfico raro. Em um país onde corpos de pessoas presas pelo regime simplesmente sumiram (muitos jogados em alto-mar, apagados da história oficial), a perna que surge no filme carrega um peso simbólico imenso.
Ela é resto, fragmento, sobra. Mas também é boato, fantasia, lenda urbana. É o horror real filtrado pela imaginação popular, pela necessidade quase infantil de dar forma ao que não se consegue compreender. O filme entende isso com uma inteligência impressionante, a perna não é só uma imagem surreal; ela é a tradução perfeita de um trauma coletivo mal resolvido.
O Recife que “O Agente Secreto” constrói é atravessado por esse surrealismo político. Não é a cidade cartão-postal, nem o Recife turístico. É o Recife do cochicho, do medo que circula, do “ouvi dizer”, do delírio que nasce quando a informação falta e a violência sobra.
O filme captura algo muito nosso: essa capacidade de fabular em meio à opressão, de criar narrativas quase fantásticas para dar conta de uma realidade insuportável. É uma imaginação que não é escapista, mas defensiva.
Talvez por isso o filme gera uma identificação tão forte. Cada um que assiste parece encontrar ali um pedaço seu, seja na memória familiar, nas histórias mal contadas sobre aquele período, seja na própria relação com a cidade. Eu senti isso o tempo todo.
“O Agente Secreto” não fala apenas de espionagem ou de política, fala de pertencimento, de memória, de como o passado continua assombrando o presente, mesmo quando tenta se esconder em metáforas.
As indicações ao Oscar colocam o filme em evidência internacional, mas, para mim, o mais bonito é vê-lo afirmar que uma história profundamente localizada, cheia de sotaque, de calor, de invenção popular, pode ser universal justamente por ser honesta com seu lugar.
“O Agente Secreto” se impõe com a força de quem sabe de onde vem. E talvez seja por isso que doa, encante e permaneça.
*Fernando Martins é jornalista e grande entusiasta de produções televisivas. Criador do Uma Série de Coisas, escreve semanalmente neste espaço. Instagram: @umaseriedecoisas.
*A Folha de Pernambuco não se responsabiliza pelo conteúdo das colunas.



