“Pico dos Marins”: 40 anos depois, a busca por Marco Aurélio continua
Com material inédito, caso Marco Aurélio ganha um documentário cuidadoso no Globoplay
Há casos criminais que geram curiosidade pela complexidade, outros pela brutalidade. O desaparecimento de Marco Aurélio Simon ocupa um lugar diferente. O que torna essa história tão inquietante é justamente o vazio. Não há corpo, não há explicação definitiva, não há sequer uma teoria capaz de encerrar a conversa.
Quase quatro décadas depois, continua existindo apenas uma pergunta que ninguém conseguiu responder: o que aconteceu com aquele garoto de 15 anos que subiu o Pico dos Marins em junho de 1985 e nunca mais foi visto?
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O novo documentário, “Pico dos Marins: O Caso do Escoteiro Marco Aurélio”, do Globoplay, parte dessa pergunta e entende algo fundamental desde o início: ele não está contando um caso encerrado. Está acompanhando uma busca que nunca terminou.
O caso
Para quem nunca ouviu falar da história, Marco Aurélio era um escoteiro paulista que participou de uma expedição ao Pico dos Marins, na Serra da Mantiqueira. Durante a trilha, um dos integrantes do grupo se machucou e a subida foi interrompida. Marco seguiu adiante para ajudar a orientar o caminho de volta enquanto os demais auxiliavam o colega ferido. Em algum momento daquele percurso, desapareceu. Simples assim. Ou melhor: assustadoramente assim.
Desde então, o caso atravessou gerações. Houve buscas, investigações, suspeitos, teorias, reportagens de televisão, escavações e incontáveis tentativas de reconstruir os acontecimentos daquele dia. Nenhuma delas trouxe uma resposta definitiva.
O podcast
Quem acompanhou o excelente podcast “Pico dos Marins: O Caso do Escoteiro Marco Aurélio”, lançado em 2022, provavelmente vai reconhecer boa parte da espinha dorsal da investigação apresentada na série.
A adaptação para o audiovisual amplia o alcance do trabalho realizado por Marcelo Mesquita e Ivan Mizanzuk, adicionando imagens de arquivo, documentos, fotografias e depoimentos que ajudam a dar rosto e dimensão emocional a personagens que, no áudio, já eram extremamente marcantes. Mais do que uma simples transposição de formato, a série funciona como uma expansão natural do podcast.
Sem espetáculo
O grande mérito da série é não transformar esse mistério em espetáculo. Seria fácil cair na armadilha dos documentários de true crime que parecem mais interessados em criar suspense do que em compreender as pessoas envolvidas.
Aqui, o foco está em outro lugar. Está na família. Está na passagem do tempo. Está no peso de conviver durante quarenta anos sem saber o que aconteceu com alguém que você ama.
É impossível não se impressionar com a figura de Ivo Simon, pai de Marco Aurélio. A cada episódio, fica evidente que a investigação deixou de ser apenas uma questão policial há muito tempo. Tornou-se uma missão de vida. E o documentário entende que essa persistência talvez seja a história mais poderosa que ele tem para contar.
Materiais inéditos
O grande acerto está no acesso a materiais inéditos. As gravações feitas pela família, fotografias, documentos e entrevistas recentes ajudam a construir uma narrativa que vai além da simples reconstituição dos fatos. Em vários momentos, a sensação é de estar folheando um álbum de memórias interrompidas.
Também chama atenção a forma como a produção revisita personagens que, durante anos, permaneceram em silêncio ou falaram pouco publicamente. Novos depoimentos acrescentam camadas importantes a uma história que parecia já ter sido examinada de todos os ângulos possíveis.
Mas talvez o aspecto mais forte de “Pico dos Marins: O Caso do Escoteiro Marco Aurélio” seja a capacidade de transmitir a dimensão humana da dúvida. Estamos acostumados a histórias que terminam com uma revelação, uma prisão ou uma resposta. A vida real nem sempre oferece esse conforto. E o documentário tem coragem de encarar essa realidade sem tentar forçar conclusões.
Ao longo dos episódios, a montanha deixa de ser apenas cenário e passa a funcionar quase como um personagem. Um lugar cercado por beleza, silêncio e mistério. Um espaço que, para uma família, representa quatro décadas de perguntas sem resposta.
Quando os créditos sobem, a sensação que fica não é a de ter assistido um documentário sobre o passado. É de ter acompanhado uma busca que continua acontecendo, todos os dias, desde 1985.
*Fernando Martins é jornalista e grande entusiasta de produções televisivas. Criador do Uma Série de Coisas, escreve semanalmente neste espaço. Instagram: @umaseriedecoisas.
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