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Uma Série de Coisas

Quarta temporada de “A Origem” faz série amadurecer junto com seu próprio terror

Disponível na Globoplay, série amplia mitologia sem perder de vista seus personagens

"A Oriem" tem 10 episódios por temporada, disponíveis na Globoplay"A Oriem" tem 10 episódios por temporada, disponíveis na Globoplay - Divulgação

Poucas séries de mistério conseguem sobreviver ao próprio sucesso. Quanto mais perguntas acumulam, maior o risco de decepcionar quando chega a hora de responder alguma delas. “A Origem” passou três temporadas andando nessa corda bamba, acumulando símbolos, criaturas, visões e acontecimentos que pareciam impossíveis de organizar. 

A boa notícia é que o quarto ano mostra que havia um plano. E, talvez pela primeira vez desde a estreia, a série encontra um equilíbrio muito confortável entre preservar seus segredos e fazer a história realmente avançar.

A trama

Para quem ainda não conhece, “A Origem” acompanha moradores de uma cidade da qual ninguém consegue escapar. Quem entra naquele lugar fica preso, enquanto criaturas que assumem aparência humana saem à noite para caçar quem estiver do lado de fora. 

Conforme os episódios avançam, fica claro que os monstros são apenas uma parte do problema. A série mistura terror, suspense e ficção sobrenatural para construir um quebra-cabeça que parece crescer a cada temporada. No Brasil, as quatro temporadas estão disponíveis no Globoplay.

Quarta temporada

O grande mérito deste novo ano é perceber que o verdadeiro motor da série nunca foram apenas os monstros. Eles continuam assustadores, claro, mas deixam de ocupar o centro da narrativa. O medo passa a existir dentro dos próprios personagens, que já não sabem quanto tempo conseguem suportar vivendo naquele ciclo de perdas, falsas esperanças e decisões impossíveis.

A chegada do misterioso Homem de Amarelo reorganiza completamente a dinâmica da cidade. Enquanto Boyd tenta impedir que a comunidade desmorone de vez, Tabitha retorna trazendo novas possibilidades para entender aquele lugar. E, como a série já acostumou seu público, cada descoberta resolve uma dúvida e cria outras duas ainda maiores.

A diferença é que agora essas revelações têm consequência. Durante muito tempo, “A Origem” parecia colecionar enigmas apenas para alimentar teorias na internet. Nesta temporada, cada resposta muda a forma como os personagens enxergam aquele mundo, e também a maneira como o espectador revisita tudo o que já aconteceu. 

Os talismãs, as árvores, os túneis e outros elementos espalhados desde os primeiros episódios finalmente ganham novos significados, sem aquela sensação de que o roteiro está apenas improvisando.

Grande elenco 

Harold Perrineau continua sendo o grande coração da série. Boyd sempre carregou a responsabilidade de manter todos vivos, mas agora já não existe espaço para a figura do líder inabalável. 

O desgaste físico aparece no rosto, o cansaço pesa em cada decisão e Perrineau consegue transmitir tudo isso sem recorrer a grandes explosões emocionais. Basta um olhar para entender que aquele homem está chegando ao próprio limite.

Catalina Sandino Moreno também ganha mais espaço. Tabitha assume um papel importante dentro da investigação sobre a origem daquele lugar, funcionando como um contraponto interessante ao pessimismo crescente dos moradores.

O restante do elenco acompanha esse nível com bastante naturalidade, algo raro em séries com tantos personagens dividindo espaço.

A técnica é impecável

Visualmente, “A Origem” continua sabendo usar o silêncio melhor do que boa parte das produções de terror atuais. A direção prefere construir tensão aos poucos, deixando que a fotografia, os enquadramentos fechados e a sensação constante de isolamento façam o trabalho. Os sustos existem, mas nunca parecem gratuitos. O desconforto nasce muito antes da criatura aparecer em cena. Isso é o melhor da série.

Nem tudo funciona com a mesma precisão. Existe uma pequena sensação de que alguns episódios poderiam chegar ao mesmo destino em menos tempo. Felizmente, isso é quase imperceptível, principalmente quando a reta final acelera e entrega algumas das sequências mais fortes da série.

Temporada madura

O desfecho também merece elogios por não escolher o caminho mais fácil. As consequências envolvendo a Árvore das Garrafas, o novo estágio da cidade e as perdas sofridas pelos personagens deixam claro que ninguém está protegido. 

Pela primeira vez em muito tempo, “A Origem” consegue encerrar uma temporada oferecendo respostas suficientes para recompensar quem esperou quatro anos, mas sem sacrificar o mistério que faz a série funcionar.

Depois de tanto tempo vivendo da promessa de que tudo faria sentido, “A Origem” finalmente começa a cumprir esse acordo com o público. Ainda existem muitas perguntas sem resposta, mas agora elas parecem parte de uma construção maior, e não apenas combustível para prolongar a história. 

É uma temporada mais madura, mais segura e emocionalmente mais pesada. Se as anteriores fizeram a gente querer descobrir o que existe naquela cidade, esta faz algo ainda melhor: faz a gente se importar, de verdade, com quem continua preso nela.

*Fernando Martins é jornalista e grande entusiasta de produções televisivas. Criador do Uma Série de Coisas, escreve semanalmente neste espaço. Instagram: @umaseriedecoisas.

*A Folha de Pernambuco não se responsabiliza pelo conteúdo das colunas.

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