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Uma Série de Coisas

“Scarpetta” é série que sabe o que tem de bom, apesar dos excessos

Investigação consistente sustenta narrativa protagonizada por Nicole Kidman

Nicole Kidman interpreta Dra. Scarpetta, em novo thriller da Prime VideoNicole Kidman interpreta Dra. Scarpetta, em novo thriller da Prime Video - Connie Chornuk/Prime

Existe uma expectativa natural em torno de “Scarpetta”. Não só por vir de uma série de livros bastante popular nos Estados Unidos, mas também pelo tipo de produção que o Prime Video vem investindo nos últimos anos, thrillers com cara de “evento”. Além do elenco de peso, é claro.

Aqui, porém, a proposta parece um pouco diferente desde o início. Em vez de seguir o caminho mais direto de ação, a série aposta em um terreno mais específico, o da investigação forense. 

A protagonista, vivida por Nicole Kidman, é uma médica-legista que retorna ao trabalho depois de um longo período afastada e se depara com um caso que ecoa algo do passado. A narrativa, então, passa a caminhar em duas frentes, alternando tempos.

Pontos altos

Esse é, talvez, o principal acerto da série. Há um cuidado em construir a investigação sem pressa excessiva, permitindo que o espectador acompanhe os detalhes, as conexões e as lacunas. 

Não é uma trama que depende de grandes reviravoltas a cada episódio, mas de um acúmulo de informações que, aos poucos, vão formando um quadro mais complexo. Funciona bem, especialmente para quem gosta desse tipo de construção mais gradual.

Porém, quando a série tenta expandir seu foco, seja para desenvolver a vida pessoal da protagonista ou para inserir temas mais contemporâneos, o resultado fica menos consistente, mas ainda assim, atrativo. 

Grande elenco e alguns tropeços

As relações familiares têm bons elementos em cena, com presenças como Jamie Lee Curtis e Ariana DeBose, mas raramente ganham a mesma força dramática da investigação principal. Em vários momentos, parecem mais uma interrupção do que um complemento.

Algo parecido acontece com algumas ideias que a série introduz ao longo dos episódios. Há um interesse claro em dialogar com questões atuais, como tecnologia, comportamento, formas de lidar com o luto, mas essas abordagens nem sempre se desenvolvem de forma orgânica. Ficam na superfície, sem impacto real na narrativa.

Apesar de truncada, série é atrativa 

Mesmo com arcos “interruptivos”, eles ainda conseguem ser interessantes. E quando volta ao foco essencial, a série sustenta bem o interesse e chega no seu auge.

Nicole Kidman opta por uma interpretação mais contida, o que combina com o tom geral da produção. Não há grandes explosões dramáticas; o que se vê é uma personagem mais observadora, marcada por experiências passadas que a série vai revelando aos poucos. 

É uma escolha que contribui para a atmosfera mais sóbria que a história tenta construir. “Scarpetta” parece dividida entre duas vontades, a de ser um thriller investigativo sólido ou uma obra mais ampla, interessada em discutir temas maiores. Quando se mantém na primeira, encontra um caminho seguro. Quando insiste na segunda, perde um pouco da precisão.

Talvez o equilíbrio entre essas duas frentes apareça na possível segunda temporada, ainda não confirmada até a publicação desta coluna. Por enquanto, a sensação é de uma série que funciona melhor quando simplifica e confia mais no que já tem de forte.

*Fernando Martins é jornalista e grande entusiasta de produções televisivas. Criador do Uma Série de Coisas, escreve semanalmente neste espaço. Instagram: @umaseriedecoisas.

*A Folha de Pernambuco não se responsabiliza pelo conteúdo das colunas.

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