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Uma Série de Coisas

Segundo ano de "Avatar: O Último Mestre do Ar" cresce, mas continua apressada

Novos episódios da Netflix sacrifica emoção para dar conta de uma história grande demais

Gordon Cormier interpreta Aang, na adaptação do "Último Mestre do Ar" da NetflixGordon Cormier interpreta Aang, na adaptação do "Último Mestre do Ar" da Netflix - Divulgação/Netflix

Adaptar “Avatar: O Último Mestre do Ar” nunca seria uma tarefa simples. A animação conquistou um lugar raro na cultura pop porque conseguiu equilibrar aventura, humor, fantasia, política e amadurecimento sem parecer sobrecarregada. 

O segundo livro, então, representa um salto de qualidade dentro da própria série. É quando aquele universo ganha camadas, os personagens deixam de ser apenas carismáticos e as consequências da guerra passam a ocupar o centro da narrativa. Por isso, era inevitável olhar para essa nova temporada da Netflix com uma expectativa maior, e talvez também com um pouco mais de receio.

A boa notícia é que existe uma evolução clara em relação ao primeiro ano. A série parece mais confortável com o próprio tom, as cenas de ação têm mais impacto, a direção encontra imagens mais interessantes e a história abandona de vez qualquer sensação de aventura leve. O mundo está mais pesado, os conflitos são maiores e existe uma tentativa sincera de tratar esse universo com a seriedade que ele merece.

Trama do segundo ano

Disponível na Netflix, a segunda temporada adapta parte dos acontecimentos do Livro da Terra, considerado por muitos fãs o ponto alto da animação original. Aang, Katara e Sokka seguem viagem pelo Reino da Terra enquanto procuram novos aliados para enfrentar a Nação do Fogo. 

É nesse caminho que entram personagens fundamentais, como Toph, ao mesmo tempo em que a história mergulha em lugares marcantes como Ba Sing Se e amplia o peso político, espiritual e emocional da guerra que atravessa esse mundo.

Alguns tropeços

O problema é que a temporada nunca parece confiar no próprio ritmo. São muitos acontecimentos importantes disputando espaço em apenas sete episódios. 

Toph, Ba Sing Se, Long Feng, Dai Li, a Biblioteca dos Espíritos, a perda de Appa, Jet, Azula, Zuko... Cada um desses elementos sustentaria episódios inteiros por conta própria, mas aqui eles passam diante dos olhos do espectador quase como uma lista de compromissos que a série precisa cumprir antes de chegar ao final.

É uma sensação estranha porque as ideias são boas. A adaptação encontra soluções inteligentes para organizar eventos da animação, mistura histórias diferentes e tenta construir uma identidade própria sem simplesmente reproduzir cada cena do material original. 

Em vários momentos isso funciona. Em outros, fica a impressão de que o roteiro mal termina uma sequência antes de já apontar para a próxima.

Ba Sing Se, Zuko e Iroh

Ba Sing Se talvez seja o maior exemplo disso. A cidade continua fascinante, mas nunca ganha tempo suficiente para ser descoberta. A tensão política existe, Long Feng representa uma ameaça convincente e os Dai Li funcionam bem como parte de um regime autoritário, só que tudo acontece depressa demais. 

Falta espaço para sentir aquele ambiente, para entender como aquela cidade respira e por que ela se tornou um dos cenários mais memoráveis da animação. Se existe um núcleo que continua sustentando boa parte da temporada, é o de Zuko e Iroh. A jornada dos dois segue sendo a mais interessante justamente porque recebe aquilo que falta em boa parte da série, tempo. 

Zuko continua dividido entre aquilo que acredita ser seu destino e a pessoa que começa, aos poucos, a enxergar no espelho. Iroh, mais uma vez, funciona como o coração emocional da história, especialmente nos momentos em que o personagem deixa transparecer um sofrimento que nunca precisa ser explicado em voz alta.

Elenco

Já Avatar e seus amigos ainda enfrentam dificuldades que vêm desde a primeira temporada. Gordon Cormier parece menos confortável como Aang do que anteriormente, entregando um protagonista mais apagado justamente quando o personagem precisava carregar um peso dramático maior. 

Algumas conversas soam artificiais, como se os personagens estivessem preocupados em explicar a história em vez de simplesmente vivê-la. Toph, por outro lado, chega como um respiro. A personagem mantém boa parte da personalidade forte que conquistou os fãs da animação, sem virar uma versão exagerada de si mesma. 

Sua presença renova a dinâmica do grupo e traz uma energia diferente para a temporada, mesmo que ainda falte aquele carisma imediato que fez dela uma das figuras mais queridas da obra original.

A técnica cresce

Tecnicamente, a produção também demonstra crescimento. A dobra de terra finalmente transmite impacto físico, as coreografias são mais criativas e existe uma preocupação maior em diferenciar os estilos de combate de cada nação. Ainda aparecem alguns efeitos visuais que denunciam as limitações do orçamento, principalmente quando a história exige cenários gigantescos, mas, no geral, a evolução é perceptível.

O encerramento deixa claro que a equipe criativa sabe onde quer chegar. A queda de Ba Sing Se, a vitória da Nação do Fogo e o destino de Aang criam um final forte o suficiente para despertar curiosidade pelo próximo capítulo. 

Talvez seja justamente por isso que a principal frustração da temporada fique ainda mais evidente, ela tem bons personagens, boas ideias e um universo fascinante, mas insiste em atravessar tudo isso na velocidade de quem tem medo de perder a atenção do público.

No fim das contas, a segunda temporada representa um avanço. É uma adaptação mais segura, mais bonita e mais ambiciosa do que a anterior. Ainda assim, permanece presa ao mesmo obstáculo, a dificuldade de permitir que seus melhores momentos respirem. Quando desacelera, a série mostra que pode encontrar um caminho próprio. Pena que isso aconteça com menos frequência do que deveria.

*Fernando Martins é jornalista e grande entusiasta de produções televisivas. Criador do Uma Série de Coisas, escreve semanalmente neste espaço. Instagram: @umaseriedecoisas.

*A Folha de Pernambuco não se responsabiliza pelo conteúdo das colunas.

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