Sáb, 08 de Agosto

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Uma Série de Coisas

“The Boys” termina cansada de si mesma, mas ainda sabe fazer barulho

Entre excessos e provocações já conhecidas, série equilibra espetáculo e desgaste

"The Boys" tem 8 episódios na quinta e última temporada, disponíveis na Prima Video"The Boys" tem 8 episódios na quinta e última temporada, disponíveis na Prima Video - Jasper Savage/Amazon Prime Video

É comum vermos por aí séries que se tornaram um fenômeno cultural ter dificuldade de dar um desfecho para a história. Principalmente quando boa parte do sucesso vem justamente da sensação de imprevisibilidade, como por exemplo “Game Of Thrones”, da HBO Max.

Durante anos, “The Boys” viveu da capacidade de chocar, provocar, rir da indústria de super-heróis e ao mesmo tempo parecer mais viva do que muita produção que ela satirizava. O curioso é que, depois de cinco temporadas, a série parece ter chegado naquele ponto em que já não sabe mais diferenciar provocação de repetição.

Na quinta e última temporada, isso fica evidente logo nos primeiros episódios. Existe uma demora estranha para a trama realmente engrenar. Para uma temporada final, a sensação deveria ser de urgência constante, mas boa parte do começo parece ocupada reorganizando peças que já estavam posicionadas há muito tempo.

Tem personagem revisitando dilemas antigos, conflitos girando em círculos e algumas cenas que existem mais pelo impacto momentâneo do que pela construção dramática.

Elenco permanece ótimo

Ainda assim, seria injusto dizer que  perdeu totalmente a mão. Porque mesmo menos inspirada, a série continua tendo uma personalidade muito forte. O humor absurdo ainda funciona em vários momentos. A violência continua desconfortável daquele jeito específico que sempre marcou a produção. E, principalmente, Antony Starr continua assustador como Capitão Pátria.

Talvez o maior acerto dessa temporada seja justamente entender que o personagem funciona melhor quando está vazio. Isolado. Desgastado pela própria necessidade de ser amado e temido ao mesmo tempo. 

Starr faz um trabalho impressionante ao transformar o Capitão Pátria numa figura cada vez mais instável sem nunca cair totalmente na caricatura. Existe algo profundamente triste naquele homem que acredita ser Deus, mas reage emocionalmente como uma criança abandonada.

Karl Urban também encontra bons momentos como Billy Bruto, embora o roteiro insista demais em conflitos internos que a série já explorou inúmeras vezes antes. Em alguns episódios, parece que estamos assistindo versões recicladas de discussões emocionais que já aconteceram em temporadas anteriores.

Talvez seja aí que mora o principal desgaste desse encerramento, virou um pouco aquilo que sempre criticou. Algumas pontas ficam soltas não por ambiguidade dramática, mas por planejamento de franquia. Isso enfraquece bastante o peso emocional do final.

Construção estética é o maior pilar

Ao mesmo tempo, visualmente, a série continua muito forte. Existe um cuidado enorme na forma como ela retrata decadência, paranoia e isolamento. A direção frequentemente encontra imagens ótimas para representar o estado mental dos personagens, principalmente Bruto e Capitão Pátria. Mesmo quando o texto tropeça, a construção estética ainda segura muita coisa.

E a crítica política continua ali, embora menos afiada do que antes. Em certos momentos funciona muito bem, especialmente quando mistura fanatismo, religião e culto à personalidade. Em outros, parece satisfeita demais em apenas repetir comentários que a própria série já fez temporadas atrás.

Mesmo assim, ainda é difícil largar a série. Porque  construiu personagens fortes demais para serem ignorados. “The Boys” perdeu parte da coragem criativa que fez dela algo tão diferente lá no começo, mas ainda sabe criar desconforto, ainda sabe gerar tensão e ainda entende muito bem como transformar figuras superpoderosas em retratos miseráveis de ego, carência e poder.

O fim pode não ter sido o encerramento que muita gente imaginava quando a série estava no auge da terceira temporada, mas também não apaga o impacto que ela teve na televisão dos últimos anos. Mesmo cansada, barulhenta e irregular, “The Boys” continua tendo mais personalidade do que muita franquia que segue funcionando no piloto automático.

*Fernando Martins é jornalista e grande entusiasta de produções televisivas. Criador do Uma Série de Coisas, escreve semanalmente neste espaço. Instagram: @umaseriedecoisas.

*A Folha de Pernambuco não se responsabiliza pelo conteúdo das colunas

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