“Treta”, da Netflix, volta maior e acerta por não tentar repetir a fórmula
Segunda temporada troca a explosão psicológica imediata por um jogo social sufocante
Quando anunciaram que “Treta” voltaria como antologia, confesso que bateu aquela desconfiança automática. A primeira temporada tinha um conceito fechado, tão específico, que parecia difícil imaginar uma continuação que não soasse oportunista ou simplesmente repetitiva.
Afinal, boa parte do impacto vinha justamente daquela sensação de caos crescente surgindo de algo banal, muito parecido com nosso exemplo nacional, “Os Outros”, da Globoplay.
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Só que a nova temporada faz uma escolha diferente. Ela não tenta recriar a mesma dinâmica. Em vez de outra espiral de ódio impulsivo, a série agora trabalha um tipo de tensão mais silenciosa. Mais social. Mais venenosa.
Nova trama
Tudo começa com um vídeo gravado no momento errado, ou talvez no momento certo demais. Um jovem casal presencia uma briga entre dois membros da elite de um clube de golfe e decide registrar a cena. Fora de contexto, a gravação transforma Joshua, personagem de Oscar Isaac, num possível agressor. E é aí que a temporada começa a brincar com aparência, manipulação e conveniência moral.
O interessante é que ninguém parece completamente inocente. Nem os mais velhos, presos num casamento desgastado sustentado por aparência e status, nem os mais jovens, que usam discurso progressista e afeto performático como se fossem escudos éticos automáticos.
A série observa essas relações com um olhar incisivo, mas sem virar caricatura e funciona porque o elenco é competente e entende o tom da proposta.
Elenco
Oscar Isaac e Carey Mulligan estão excelentes juntos. Existe uma química cansada entre os dois, aquela sensação de casal que já passou do ponto de desgaste há anos, mas continua tentando sustentar uma imagem de estabilidade.
Oscar trabalha muito bem o descontrole reprimido de Joshua, enquanto Mulligan entrega uma personagem que parece estar constantemente oscilando entre vulnerabilidade e manipulação calculada.
Mas quem mais me surpreendeu foi Cailee Spaeny. A personagem dela começa quase como alguém deslocada naquele universo elitista, mas aos poucos revela uma ambição meio torta, meio oportunista, que torna tudo mais interessante.
Spaeny tem uma habilidade impressionante de parecer frágil e perigosa ao mesmo tempo. Charles Melton, por outro lado, traz um contraponto mais doce e quase ingênuo. O único personagem que ainda parece genuinamente tentando fazer a coisa certa, mesmo sem saber muito bem como.
Roteiro amplo, mais personagens
A estrutura da temporada também ajuda bastante. Diferente do primeiro ano, que girava em torno do incidente inicial, aqui a narrativa se espalha mais. Existem vários núcleos, várias tensões paralelas, e Lee Sung Jin consegue amarrar tudo sem transformar a série numa bagunça pretensiosa.
As chantagens emocionais, os discursos vazios, os casamentos sustentados pela aparência, a necessidade desesperada de parecer uma pessoa boa o tempo inteiro… a série encontra humor e tragédia nas pequenas hipocrisias cotidianas.
Ao mesmo tempo, essa segunda temporada é menos explosiva e mais densa. Tem menos surtos memoráveis e mais diálogos atravessados por ressentimento acumulado. Dependendo do espectador, isso pode soar menos imediato do que o primeiro ano.
Mas particularmente achei interessante como a série decidiu amadurecer junto com a própria proposta. A impressão final pode depender do tipo de narrativa que o público prefere. O caos e o thriller da primeira temporada ou algo mais denso e sem tantos sustos.
Visualmente, tudo também acompanha essa mudança. As mansões inacabadas, os ambientes sofisticados e frios, os clubes exclusivos… existe uma sensação constante de artificialidade naquele universo. Como se todos os personagens estivessem interpretando versões idealizadas de si mesmos o tempo inteiro.
E talvez seja justamente isso que faz a temporada funcionar tão bem, ninguém ali sabe mais separar sinceridade de performance.
A segunda temporada de “Treta” não tenta superar o primeiro ano no grito, ela muda o foco, muda o ritmo e encontra novos lugares para provocar desconforto. Continua afiada, continua engraçada em momentos muito específicos e continua entendendo que pequenos conflitos cotidianos podem virar bombas emocionais gigantescas.
*Fernando Martins é jornalista e grande entusiasta de produções televisivas. Criador do Uma Série de Coisas, escreve semanalmente neste espaço. Instagram: @umaseriedecoisas.
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