10 anos sem David Bowie, o homem que voltou para Marte
Em 10 de janeiro de 2016, o artista britânico partia, deixando como legado uma obra marcada pela liberdade, reinvenção e coragem estética
Há exatos 10 anos, o mundo perdia o britânico David Robert Jones, porque David Bowie – nome pelo qual ficou mundialmente conhecido –, na verdade, voltou para o espaço sideral… para Marte, alienígena que forjava ser, entre as inúmeras outras personas que ele performou ao longo de sua carreira.
A morte de Bowie, em 10 de janeiro de 2016, provocou um abalo imediato e global na cultura pop. Dois dias antes – 8 de janeiro, dia do seu aniversário –, ele havia lançado “Blackstar”, seu último álbum, que soou como um testamento artístico: denso, enigmático e atravessado por símbolos de finitude.
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Bowie foi vitimado por um câncer no fígado, descoberto em 2014. Esta informação foi mantida sob sigilo absoluto, só revelada após a partida do artista.
Artistas, fãs e instituições culturais reagiram com homenagens que extrapolaram a música, reconhecendo Bowie como esse criador que redefiniu os limites entre som, imagem, moda, gênero e performance.
“Blackstar”, o ato final
Lançado em 8 de janeiro de 2016 – dia do aniversário de 69 anos de Bowie –, “Blackstar” foi o seu ato final artístico, uma espécie de réquiem, conduzido junto a Tony Visconti (amigo e parceiro de Bowie, produtor de 13 álbuns do britânico), enquanto travava uma batalha silenciosa.
“Blackstar” é o 25º e último álbum de estúdio de David Bowie – que também tem, em sua discografia, dois álbuns gravados com a temporária banda Tin Machine.
Gravado entre 2014 e 2015, em Nova York, “Blackstar” nasceu de um momento de reclusão: Bowie enfrentava um câncer de fígado, diagnosticado em segredo, e decidiu não tornar pública sua condição, canalizando a experiência da doença para a criação artística.
Musicalmente, “Blackstar” marca uma ruptura em relação ao rock mais convencional de sua fase anterior, o álbum “The Next Day”, de 2013 – lançado, na época, após um jejum de 10 anos sem um álbum de estúdio.
No seu último disco, Bowie se aproxima do jazz experimental e do art rock, inspirado pela cena nova-iorquina contemporânea da época.
Para isso, discretamente, ele reuniu um grupo de músicos ligados ao jazz, liderados pelo saxofonista Donny McCaslin, o que rendeu sete faixas.
“Blackstar” apresenta composições longas, densas e fragmentadas. A faixa-título, “Blackstar”, com mais de nove minutos, traz o tom enigmático do álbum, enquanto “Lazarus” – escrita em paralelo ao musical homônimo que Bowie desenvolvia para a Broadway – tornou-se o epicentro simbólico do disco, especialmente por conta do verso “Look up here, I’m in heaven” (“Olhe pra cima, eu estou no paraíso”), reinterpretado à luz de sua morte iminente.
Visualmente, Blackstar também se destacou: a capa minimalista, criada por Jonathan Barnbrook, substitui o nome de Bowie por uma estrela negra estilizada, sinalizando a dissolução da identidade do artista em sua própria obra.
Os videoclipes de “Blackstar” e “Lazarus” – o primeiro, lançado em novembro de 2015; e o segundo, na véspera do lançamento do álbum – e as letras do disco são como códigos abertos, repletos de referências à morte, ao corpo e à transcendência, sem jamais recorrer à confissão direta.
Após o falecimento de Bowie, “Blackstar”, e toda a série de mensagens cifradas que ele trazia, foi recebido como um gesto radical de despedida e passou a ser lido como um “testamento artístico”.
Inclusive, é importante salientar que Bowie ergueu um álbum inteiro, gravou dois clipes e concebeu a trilha sonora de um musical em meio ao tratamento do câncer, mantido em sigilo até mesmo para os músicos que colaboraram com “Blackstar”.
Todo esse processo, gestado na iminência da morte, mostra como Bowie foi visceralmente artista até seus últimos dias de vida, praticamente “orquestrando” artisticamente os instantes finais de sua passagem pela Terra.
“Blackstar” alcançou o topo das paradas em diversos países e foi amplamente celebrado pela crítica, consolidando-se como uma das obras mais impactantes de sua carreira — não apenas por antecipar a morte do artista, mas por transformá-la em linguagem, forma e legado.
Repercussão
Após a morte de David Bowie, uma série de homenagens artísticas, institucionais e simbólicas aconteceu ao redor do mundo, refletindo o impacto profundo que ele teve na música, nas artes visuais, na moda e na cultura pop.
Murais e grafites surgiram em cidades como Londres, Berlim, Nova York, Paris e São Paulo. Muitos deles retratando Bowie como Ziggy Stardust – seu personagem mais embelmático – ou com o símbolo da estrela negra, a Blackstar.
Fãs se reuniram em locais simbólicos, como Brixton, bairro onde Bowie nasceu, transformado em um grande memorial a céu aberto com flores, cartas, velas e cantoria.
No cenário artístico, artistas como Paul McCartney, Madonna, Lady Gaga, Iggy Pop, Bruce Springsteen, Elton John e Patti Smith publicaram depoimentos emocionados, reconhecendo Bowie como um artista que redefiniu limites.
Lady Gaga realizou um tributo marcante no Grammy Awards 2016, incorporando diferentes personas de Bowie em uma performance arrebatadora.
Por falar em Grammy, na edição de 2017, Bowie foi agraciado com cinco prêmios póstumos, por “Blackstar”: Melhor Performance de Rock ("Blackstar"); Melhor Canção de Rock ("Blackstar"); Melhor Álbum de Música Alternativa (Blackstar); Melhor Engenharia de Álbum, Não Clássico (Blackstar); Melhor Pacote de Gravação (Blackstar, prêmio para o diretor de arte Jonathan Barnbrook).
Impacto social e simbólico
Do ponto de vista simbólico, Bowie subverteu a lógica tradicional do luto público. Em vez de uma morte abrupta ou trágica, houve um adeus elaborado, consciente e profundamente estético, canalizado em “Blackstar”.
Letras enigmáticas, imagens de decomposição e transcendência, e referências diretas ao fim do corpo criam uma narrativa em que Bowie encara a finitude com lucidez, ironia e beleza.
A forma como Bowie morreu também reforçou sua imagem como um artista que sempre esteve à frente do seu tempo. Ele controlou a narrativa até o fim, recusando a exposição pública da doença e transformando o próprio desaparecimento em uma obra: Bowie se despede falando por meio da arte, não da confissão.
Dez anos depois, a morte de David Bowie permanece como um marco cultural. Ela consolidou seu legado não apenas como músico inovador, mas como símbolo de liberdade, reinvenção e coragem estética.
Mais do que o fim de uma vida, sua partida foi um ato final de criação, e, paradoxalmente, o momento em que Bowie se tornou ainda mais presente na memória coletiva.

