A arte de ser mãe, dentro e fora do palco: conheça as histórias de algumas mães artistas

Conexão entre a mãe e seus filhos transcende o cotidiano em família e chega à trajetória artística de alguns pernambucanos. Contamos suas histórias neste Dia das Mães de 2019

Karynna quer trazer Klara para perto de seus afazeresKarynna quer trazer Klara para perto de seus afazeres - Foto: Ed Machado/Folha de Pernambuco

Às vezes a ligação entre mãe e filha transcende o âmbito familiar e envereda também pelo campo profissional. Pode ser uma paixão construída pelo convívio, pela admiração pelo trabalho que se realiza. Uma forma de se espelhar. De partilhar vivências e se tornar ainda mais próximas. De construir histórias que às vezes ultrapassam mais de uma geração. Neste Dia das Mães, a Folha de Pernambuco trouxe três exemplos de mulheres talentosas que dividem com suas filhas suas atividades no campo da arte e da diversão.

Elo fortalecido pela música

"A música é uma vivência de nós duas, um momento de partilhar um elo", diz a cantora Karynna Spinelli acerca das apresentações que a filha Klara Lua, de 13 anos, começou a realizar aos 11. Prestes a completar 15 anos de carreira, Karynna não teve essa experiência com Kaíque, o filho de 21 anos. "Para ele, meu trabalho era aquilo que nos afastava, e só entendi isso tarde demais", lamenta.

Disposta a fazer diferente, ela sempre incluiu Klara em seus afazeres - além dos ensaios e shows, Karynna realiza vários trabalhos sociais, exercendo também atividades dentro da sua religião,o Candomblé. "Quero poder trazer ela para perto de mim e construir esse entendimento acerca do meu trabalho e das minhas ausências", resume.

Falante e emotiva, Klara quase chorou em vários momentos da entrevista que concedeu à reportagem. "Sempre gostei de me apresentar, mas nem sempre estava com vontade de cantar. O que eu gosto mesmo é de dançar", confessa. A menina representou a cantora Clara Nunes numa série de shows da mãe no ano passado. "Na primeira apresentação, as duas tremiam. Eu nem olhava para ela, com medo de desabar", ri Karynna.

Apesar do sucesso, na sequência Klara resolveu que não tinha mais vontade de participar, e a mãe a respeitou a decisão. Em 2019, no Carnaval, a cantora teve a ideia de fazer um backing vocal com as adolescentes Sofia e Pandora, duas meninas que integravam o elenco do espetáculo "Baile do Menino Deus". "Aí, Klara se empolgou. Juntamos as três, que têm a mesma idade, e a troca foi muito rica. As meninas têm uma formação profissional mais profunda, cursam o Conservatório de Música. Klara teve que estudar mais, aprendeu o repertório de Leci Brandão, Ivone Lara, Beth Carvalho. E até cantou em iorubá", enumera. Klara sorri e reforça: "foi uma sensação muito boa". "Eu vejo o sentimento nos olhos dela e me orgulho muito da sua postura de estar sempre aberta a aprender", complementa a mãe.

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Fátima e Teca dividem o prazer da dança e o dia a dia na academia há 27 anos

Fátima e Teca dividem o prazer da dança e o dia a dia na academia há 27 anos - Crédito: Jose Britto/Folha de Pernambuco

Longa estrada de talento, parceria e amor

Já são três gerações de bailarinas na família Freitas. Fátima, de 63, é a matriarca. Thereza Rachel, a Teca, de 43, é o esteio de Fátima e a mãe de Luísa, 12, e Júlia, 10, que começam a trilhar o caminho das antecessoras. Nem sempre esse convívio é simples. "Se eu tivesse de sofrer de depressão, já tinha tido um troço há muito tempo", gargalha Teca. "E eu tenho um coração maravilhoso, porque senão, já tinha infartado", retruca Fátima, bem humorada.

As duas partilham a paixão pela dança e as dificuldades de se administrar uma empresa há 27 anos, desde que Fátima resolveu jogar a filha nas salas de aula, com apenas 16 anos. "Eu queria dar um cochilinho à tarde, mas ela me arranjou uma turma no horários mais ingrato, logo depois do almoço", relembra Thereza. "Eu disse a ela que não tinha nenhum problema, porque eu também comecei aos 16", confessa Fátima.

Teca diz que este momento foi algo mágico e transformador: "se for pensar como eu dançava antes e como me tornei depois de ser professora, você vai ver outra pessoa. Me apaixonei". Hoje, as duas têm funções específicas dentro da Academia Fátima Freitas, que tem 31 anos de existência. Mas às vezes uma dá uma pisadinha no espaço da outra. "Eu gosto de comandar", admite Teca. "Ela quer inverter o comando o tempo inteiro", reclama Fátima. "São visões e idades diferentes, mas queremos o bem comum, e aí de vez em quando as duas abaixam as cristas e param para escutar o outro lado", contemporiza Teca.A queixa maior dos outros membros da família, como o irmão João Paulo, é a mania de pensarem em trabalho 24h por dia. "Ele já chegou a levantar da mesa de um restaurante e ir embora", confessa Teca, ressaltando que isso "já melhorou muito".

Luísa e Júlia também frequentam a academia. "São osso duro, duas anãs", brinca a avó, que descreve as meninas como extremamente sensíveis, criativas e críticas. "Elas vêem a academia como trabalho, algo bom e saudável mas que sustenta a vida delas. Acho importante que entendam que isso aqui não é a Mirabilândia", conta a mãe, que se orgulha da postura das filhas.

"Ninguém se acha melhor ou pior por ser neta de Fátima Freitas, pelo contrário. Os espaços são conquistados. Mamãe mesmo nunca passou a mão na minha cabeça, se você for olhar os vídeos e fotos da época em que eu era criança e adolescente, eu quase nunca apareço na frente. Ela diz que é porque eu faltava aos ensaios. Esse é um senso de justiça que hoje eu reconheço totalmente", afirma Teca, que diz se assustar ao se ver repetindo com as filhas as atitudes que a mãe tomou em sua adolescência, numa longa estrada de talento e amor.

Maria do Céu e Deborah administram a Metrópole, espaço que é referência no mundo LGBT

Maria do Céu e Deborah administram a Metrópole, espaço que é referência no mundo LGBT - Crédito: Ed Machado/Folha de Pernambuco

Um olhar para a inclusão e a liberdade 

A vocação da empresária e promotora de eventos Maria do Céu Kelner é criar diversão, acolhimento - e filhos. Além de David, 31; Deborah, 25; Vitória, 18; e Ângelo, 13; ela "adotou" um rapaz que hoje tem 19 anos, Victor - expulso de casa aos 14 anos, após a mãe descobrir sua homossexualidade. Falante e animada, há 18 anos Maria do Céu está à frente da mais famosa boate LGBT do Recife, a Metrópole, que ela descreve como um espaço libertário, um "quilombo LGBT". Dividindo o comando da boate e a gestão de outros negócios (como o Bar do Céu e o pub Miami), Deborah tem uma longa trajetória de amor com os projetos da mãe.

"Ela sempre esteve aqui, ficava dentro do escritório esperando para ser amamentada, quando ainda funcionava a Doktor Froid, neste mesmo endereço", conta Maria. "Depois, ela sempre foi uma menina que queria trazer os amigos para cá. Teve festa de cinco, de 13, de 15 anos aqui dentro, mesmo eu alertando que haveria problemas. A Metrópole é um lugar de bandeira política de cidadania LGBT, onde todos são bem vindos. Eu dizia, vai chamar 50, vão vir no máximo 20. Mas ela era líder na escola, e os amiguinhos faziam confusão em casa e vinham de todo jeito", gargalha.

Maria critica a falsa moral que permeava a situação. "As mães dos amiguinhos ligavam para saber se a festa seria aberta, se o resto do público teria acesso, mas ninguém se preocupava em perguntar se ia ter bebida alcoólica, o que Deborah nunca pediu e eu jamais deixaria", afirma.

Formada em Relações Internacionais e em Ciências Políticas, Deborah começou a se aproximar dos detalhes de produção na época em que organizava as calouradas na universidade. Depois, naturalmente se aproximou da mãe.

"Na verdade, o que me fez vir trabalhar com ela foi companheirismo. Eu sou a filha mais próxima, completamente apaixonada por ela", derrete-se ela. "Vi que mamãe estava precisando de ajuda e não medi esforços. Ela está seguindo um caminho novo, tem o sonho de entrar para a política, e se é para correr atrás disso, eu estou aqui, com ela", afirma.

As posturas das duas se complementam: enquanto Deborah é mais do backstage, com excelentes capacidades finaceiras e administrativas, Maria é psicóloga e tem a enorme sensibilidade de escutar as demandas dos frequentadores do local.

"Aqui somos resistência, não temos renda extra de eventos, congressos, formaturas, por causa do preconceito. Mas estamos aqui também para educar as pessoas e mostrar que este é um espaço importante em termos de cidadania, de inclusão e de mercado", finaliza Maria do Céu.

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