A arte nos limites da loucura

Afirmar que existe relação entre arte e loucura levanta polêmica. Mas o fato é que, sendo saudável ou não, o artista é visto como alguém fora dos padrões vigentes

Fantasia de compensação, de Rodrigo BragaFantasia de compensação, de Rodrigo Braga - Foto: Cortesia

O crítico de arte e escritor Ferreira Gullar certa vez declarou que não é a loucura que faz o indivíduo virar artista. O artista é que, por acaso, pode ser louco ou esquizofrênico. Não foi a loucura, portanto, que fez de Arthur Bispo do Rosário um artista genial e reconhecido internacionalmente. Diagnosticado com esquizofrenia paranoide, Bispo dizia ter uma missão divina e obedecia vozes que lhe mandavam costurar e desfiar seu uniforme de interno da Colônia Juliano Moreira, no Rio de Janeiro, onde passou 50 dos seus 80 anos internado.

Sua obra é composta de objetos artesanais feitos com o que ele encontrava no lixo, como madeira e tecido, e que transformava em miniaturas de carrinhos, navios, estandartes, entre outras figuras que remetem às recordações de infância. Além do manto, que bordou cuidadosamente a vida inteira, para usá-lo ao fim dela. A obra de Bispo é ligada à arte de vanguarda, à arte pop e ao novo realismo, e comparada às obras de um dos grandes ícone do Modernismo, o francês Marcel Duchamp, que transformou um urinol em obra de arte.

Há quem defenda que seria um tipo de preconceito dissociar a arte produzida por alguém clinicamente diagnosticado como louco daquela criada por um artista considerado ‘saudável’ mentalmente. Mas, afinal, onde termina o limite da arte e onde começa o da loucura? O que separa as duas dimensões? Muitas vezes, a arte serve de escape para liberação de traumas, gerando obras estranhas ao senso comum. “Uma coisa que eu percebo desde que vim morar no Rio de Janeiro, há cinco anos, é que muitos artistas contemporâneos possuem uma verve psicológica muito intensa”, acredita o artista e curador Rodrigo Braga, que encontrou na arte um canal através do qual dialoga com horrores da sociedade ou dele mesmo.

Uma fobia social o acompanhou por toda a adolescência e, no auge desse problema, Rodrigo se deparou com um cachorro muito magro, sarnento e doente, e quando seu olhar encontrou o dele, o artista caiu no choro, no meio da rua, e disse que tinha medo que notassem que ele estivesse tão doente quanto aquele cachorro. Assim nasceu a obra “Fantasia de compensação”, de 2004, em que Rodrigo mescla o real e o virtual, costurando o focinho e os olhos de um cachorro nele mesmo, como se transplantasse a força do animal para si.

“Esse trabalho me deu mais confiança para lidar com o outro. Me permitiu o autoconhecimento”, revela o artista. Mas a reação de algumas pessoas foi de repulsa e revolta, diante das imagens fortes, e do que elas levavam a imaginar - alguns pensaram que Rodrigo havia matado o animal. O artista, no entanto, sempre esclareceu que pegou o cão já morto do Centro de Vigilância Ambiental da Prefeitura do Recife. “É engraçado que as pessoas sabem que existe esse serviço, que mata os animais abandonados ou de rua, e ninguém faz nada”, pontua.

A artista Juliana Notari também se utiliza do que alguns chamariam de loucura como força de potência para a criação. Em 2002, após sofrer uma sequência de assaltos violentos, tendo sido, no último deles, ameaçada com um pedaço de vidro, Juliana produziu a obra “Por entre cacos”, originada do medo. Tratava-se de uma performance em que a artista caminhava por entre pedaços de vidro, “para sair da dor e se livrar do perigo”, conta Juliana. Para ela, essas obras psicológicas, que trabalham com o inconsciente, morte, sangue, são consideradas sujas ou impuras pela maioria das pessoas. “A arte possibilita que mexamos com esse caráter de choque”, explica.

“Os artistas são pessoas que não têm medo de fugir à regra, que incomodam. Mas não basta somente a vontade de ser diferente. É preciso muito mais porque o caminho é difícil, solitário, porém muito bonito e necessário, porque a dissonância sempre vai existir, senão o mundo seria muito monótono”, analisa Maria do Carmo Nino, curadora, professora da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e artista.

O artista, seja ele saudável mentalmente ou não, historicamente é visto como alguém fora dos padrões vigentes. “Andar na contramão é o papel da arte”, lembra Maria do Carmo. “A arte é o caminho para questionar as coisas estabelecidas. Quando abordamos a arte do passado, não a encaramos mais com estranhamento porque já estamos acostumados”, explica a especialista.

Mas afinal, “o que é ser normal?”, indaga o pernambucano Paulo Bruscky. Ele conta que, nos anos 1960, já foi chamado de ‘louco’, quando fazia suas performances pelas ruas do Recife. “Diante do inusitado, a reação do ser humano é negar. A verdade é que sempre existiu preconceito”, diz o artista, autor do Manifesto Nadaísta, nos anos 1970. Na época, Bruscky organizou exposição com direito a coquetel, curador e Imprensa para assistir à obra nenhuma. “Eu não tenho conceito estético.

Gosto de quebrar com o bonito, negar o ‘normal’ do ser humano”, declara. O pernambucano conta que é um grande admirador da arte de Arthur Bispo. “Ele era genial”, derrete-se Bruscky, que também encontrou no lixo e nas ruas muitos dos objetos que transformou em obra de arte, só que de uma maneira consciente, catalogando as obras. O acervo chega a mais de cinco mil itens, e é conhecido internacionalmente. Para Bruscky, existem muitos ‘Bispos’ por aí, inclusive ele.

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