'A Forma da Água' se revela uma metáfora sobre ausências e afetos

Filme com 13 indicações ao Oscar, estreia, nesta quinta-feira (1º), nas salas de cinema

Encontro entre Elisa (Sally Hawkins) e um grande anfíbio toma contornos existenciaisEncontro entre Elisa (Sally Hawkins) e um grande anfíbio toma contornos existenciais - Foto: Fox Film do Brasil/Divulgação

Os melhores filmes de Guillermo del Toro parecem misturas empolgantes de gêneros, obras que ocupam a fronteira indefinida e fascinante entre sonho e pesadelo, fábula e realidade. Estreia hoje o novo longa-metragem do diretor mexicano: "A Forma da Água", que recebeu 13 indicações ao Oscar e venceu o Globo de ouro nas categorias melhor diretor e trilha sonora.

O filme se passa nos anos 1960 e fala sobre Elisa (Sally Hawkins), que trabalha na limpeza de um centro de pesquisa do governo. As primeiras cenas apresentam a rotina de Elisa de um jeito que ressalta certos vazios em sua existência, um resumo que através da repetição e da potência dramática sugere a ausência de algo fundamental.

Durante um turno em seu trabalho, ela e sua amiga Zelda (Octavia Spencer) são chamadas para limpar manchas de sangue e no processo recolhem dois dedos do chão. É quando o filme assume uma atmosfera macabra de horror e elementos fantásticos, apresentando um monstro capturado por militares e estudado nesse centro, uma espécie de anfíbio do tamanho de um ser humano. 



Há um mistério interessante em torno do que significa esse personagem, chamado em diferentes ocasiões de aberração, milagre e divindade. Aos poucos fica evidente de um jeito empolgante que esse monstro parece representar todos aqueles que sofrem preconceitos, uma vasta possibilidade de interpretação social e religiosa de uma entidade vítima de injustiças e violências sem sentido.

Assim como "Labirinto do Fauno" (2006), Guillermo del Toro cria uma fascinante trama de fantasia baseada em uma dura realidade histórica: neste caso, a Guerra Fria, os Estados Unidos dos anos 1960, a perseguição a gays, negros e mulheres. Há também uma interessante história de amor, uma envolvente noção de descoberta e reconhecimento.

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O filme tem uma vibrante mistura de tons e gêneros de cinema, passando do musical ao filme de espionagem e drama policial de forma fluida, aproximando-se de estilos que caracterizaram o cinema norte-americano dos anos 1950. Contribui para esse sentimento o trabalho da direção de arte e da fotografia, que criam uma representação visual que oferece pistas sobre o enredo e seus significados.

Outro ponto forte são os personagens. Pelo menos cinco recebem tempo significativo em cena, e o roteiro parece criar situações envolventes para todos. É notável a quantidade de pequenas tramas se desenvolvendo, todas bem conectadas e que unidas parecem dar novos sentidos e emoções ao enredo.

Em "Círculo de fogo" (2013) del Toro já deixava claro seu fascínio pelo filme de monstro, modalidade de cinema com raízes em Hollywood e nos filmes B dos anos 1940 e 1950, mas a partir de um conceito frenético de ação. Agora del Toro parece levar suas ideias para um caminho metafórico e existencial, uma fábula que a partir da ideia de monstruosidade discute o que está na essência dos sentimentos e das emoções, das raivas e dos preconceitos, das ausências e dos afetos. Um filme que ocupa a fronteira entre sonho e pesadelo e nesse encontro habita um instante raro de beleza.

Acusação de plágio
Os herdeiros do dramaturgo norte-americano Paul Zindel manifestaram recentemente críticas a Guillermo del Toro, dizendo que o diretor teria plagiado a peça “Let me hear you whisper”, encenada em 1969. O texto trata de uma zeladora de um laboratório do governo que acaba se apaixonando por um golfinho. Através de um comunicado oficial, a produtora Fox Searchlight afirmou que del Toro nunca teve acesso ao texto do dramaturgo.

Cotação: ótimo

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