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'À Nordeste' traz amplitude de visões para exposição em cartaz em São Paulo

Mostra no Sesc 24 de Maio, no centro de São Paulo, congrega mais de 300 obras de artistas dos nove estados da região

Exposição 'Á Nordeste' foi montada de forma horizontal e labirínticaExposição 'Á Nordeste' foi montada de forma horizontal e labiríntica - Foto: Divulgação

Um dos primeiros baques em quem adentra a exposição instalada no quinto andar do Sesc 24 de Maio, no centro de São Paulo, é a visão da imensa tela "Os Retirantes", do paulista Cândido Portinari. Feita em 1944, ela retrata uma visão de miséria e abandono que por muito tempo foi a representação mais recorrente sobre os habitantes de nossa região.

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Junto a ela, um auto retrato produzido em 1945 pelo pintor cearense Antônio Bandeira traz uma ideia distinta de nordestino - produtivo, altivo, derramando com orgulho seu saber sobre o papel. As figuras de Portinari têm pés enormes e muito chão ressecado para percorrer. O homem retratado por Bandeira tem mãos gigantescas e todas as possibilidades pela frente. Do impacto causado pelo contraste entre as duas telas, pode-se puxar um dos infinitos fios possíveis para se tentar entender a trama de "À Nordeste", mostra que congrega mais de 300 obras e se apresenta como uma profusão de referências a nós relacionadas.

O nome da exposição surgiu de uma provocação do artista cearense Yuri Firmeza, que indagou: "A Nordeste de que?" As noções de centro, periferia, política e identidade passam a fazer sentidos diferentes quando se passa a questionar quais as referências utilizadas para se pensar esse espaço tão diverso e heterogêneo que habitamos, e o Nordeste passa a ser não um lugar, mas uma situação, uma posição em meio a um pensamento cristalizado ao longo dos séculos, que vem colocando o Sul e o Sudeste do Brasil como instâncias normativas que estabelecem política, economia e comportamentos estéticos e formais.

Com curadoria de Clarissa Diniz, Bitu Catundé e Marcelo Campos, a mostra reúne as mais diversas linguagens e suportes, numa profusão caótica que atordoa os visitantes. "Eu me perdi. Estava vendo um trabalho meu, saí para olhar alguma outra coisa e não conseguia mais voltar", confessa Daniel Santiago, um dos 39 pernambucanos que integram a lista de 160 artistas ali presentes.

Digital influencer Alcione Alves participa da exposição com o vídeo 'Teile e Zaga'

Digital influencer Alcione Alves participa da exposição com o vídeo 'Teile e Zaga' - Crédito: Divulgação

Segundo o curador Marcelo Campos, o processo de construção de "À Nordeste" levou cerca de três anos, ao longo dos quais a equipe procurou ampliar seus contatos e ideias em relação à produção de arte e cultura na região, visitando as nove capitais e várias cidades do interior - ao mesmo tempo, diz ele, "pensando em um Nordeste que não fosse aquele sempre alardeado, folclorizado, mais do mesmo". "A gente teve a ambição de apresentar essa produção de forma horizontalizada, sem hierarquizar as formas de produção de cultura e incluindo num mesmo patamar a arte popular, a arte contemporânea e a arte moderna, juntando tudo realmente em alguns momentos", tenta descrever.

Nessa vertigem lúcida, são inseridas chaves de compreensão que permitem tratar simultaneamente de tradição e atualidade. "Não é uma exposição que se pretende identitária, não temos qualquer pretensão de apresentar ao público o que é o Nordeste, mas sim, o que é 'estar à Nordeste'", resume Clarissa Diniz.

Para tentar nor(des)tear o público em meio à imensa exposição organizada de forma labiríntica, os curadores dividiram os trabalhos em oito núcleos permeáveis, que se entrelaçam entre si: "Futuro", "Insurgência", "(De)Colonialidade", "Trabalho", "Natureza", "Cidade", "Desejo" e "Linguagem". "Misturamos tudo em todos os núcleos, sempre tentando trazer um assunto e fluir em seu entorno. As camadas vão se intercalando e vai-se abrindo intervenções, estabelecendo problemas, criando provocações", diz Marcelo Campos.

Os alvos são variados, e são muitas as pedras propositais no caminho. Eles irritam os puristas da arte com a ousadia de trazer Romero Britto (tão menosprezado pelos seus pares por ser 'comercial') para um meio dito 'erudito'. Criam polêmica ao colocar uma série das cartilhas do educador Paulo Freire, dentro do núcleo "Trabalho". Representam uma série de instâncias que vêm sendo perseguidas dentro da atualidade, trazendo uma profusão de corpos transexuais, elementos religiosos afrobrasileiros e ícones variados do cinema, dança e música. Para a mostra, além de dezenas de peças realizadas em vários tempos, foram produzidas doze obras inéditas, incluindo as videoperformances "Declaração Universal dos Direitos dos Robôs", de Daniel Santiago e "Teile e Zaga", da digital influencer Alcione Alves.

Pernambuco visto pelo mundo


Abelardo da Hora, Alcione Alves, Aloisio Magalhães, Amanda Melo, Ana Lira, Bruno Faria, Carlos Mélo, Catarina Dee Jah, Cícero Dias, Coletivo O Gráfico Amador, Cristiano Lenhardt, Daniel Santiago, Gabriel Mascaro, Gilberto Freyre, Gilvan Samico, Isabela Stampanoni, João Cabral de Melo Neto, Joaquim do Rego Monteiro, Jomard Muniz de Britto, José Carlos, José Cláudio, Josué de Castro, Juliana Notari, Kátia Mesel, Lourival Cuquinha, Lula Cardoso Ayres, Marcelo Silveira, Márcio Almeida, Marie Carangi, Mestre Galdino, Mestre Noza, Mestre Vitalino, Montez Magno, Paulo Bruscky, Paulo Freire, Romero Britto, Saquinho de Lixo, Sérgio Vasconcelos e Vicente do Rego Monteiro. A lista de pernambucanos presentes em "À Nordeste" é a mais extensa e certamente uma das mais representativas da exposição.

Nenhum recorte conseguiria dar conta completamente da produção local, e do alto de seus 80 anos, Daniel Santiago (que participa da mostra com três obras produzidas em momentos distintos) segreda conhecer alguns artistas que se sentiram desprestigiados por não integrar a mostra. Ele, no entanto, esteve na abertura da exposição e diz se sentir privilegiado. "Acompanhei o processo e você não imagina como montar aquilo tudo deu trabalho", confessa, deliciado com a oportunidade inédita de ver um Portinari de perto. "Ele tinha uma técnica fabulosa, é uma coisa horrorosa de boa", ri.

Peças de Catarina Dee Jah recontextualizam objetos cotidianos

Peças de Catarina Dee Jah recontextualizam objetos cotidianos - Crédito: Divulgação


"Estamos vivendo um momento em que se aprofunda esse abandono que sempre existiu em relação ao Nordeste, e trazer nossa realidade para um contexto assim grandioso, que sai da coisa pejorativa, folclórica, expondo o que produzimos enquanto identidade e arte atemporal de resistência, mostrando a cultura popular como a forma primal de resistência de um povo, é realmente uma iniciativa maravilhosa", pontua Catarina Dee Jah, jovem artista olindense que vem desenvolvendo um trabalho que classifica como 'design guerrilheiro', utilizando objetos cotidianos de forma recontextualizada.

Uma participação controversa na mostra é a de Alcione Alves, digital influencer que se tornou famosa por suas postagens acerca do brega funk recifense. "Quando fui convidada, logo me veio a ideia de narrar o passinho criado aqui no Recife. É uma marca nossa, assim como o frevo e o maracatu. Ter meu trabalho exposto é uma alegria imensa, estou lisonjeada em saber que meu trabalho é arte. É muito legal poder levar a cultura das comunidades do Recife para um ambiente assim, é uma grande conquista, qualquer um gostaria de ter esse privilégio", afirma.

 Ao lado de Alcione, outra videoinstalação arranca gargalhadas do público. Com letreiros de led e gifs animados, o coletivo Saquinho de Lixo traz uma produção feita especialmente para a exposição, "Memelito", recheada de piadas e tiradas sarcásticas como as que já o fizeram atrair mais de 300 mil seguidores no Instagram.

Outras obras que devem gerar polêmica são as video instalações censuradas para menores de 18 anos. Exibidas de forma contínua em espaços controlados dentro da exposição, elas exploram temas que vêm sendo alvo de ataques nos espaços voltados para a arte, tratando de conteúdos como sexualidade e violência.

Videoperformance de Juliana Notari, na ilha de Marajó (PA)

Videoperformance de Juliana Notari, na ilha de Marajó (PA) - Crédito: Divulgação

"Mimoso", videoperformance da artista Juliana Notari, é uma dessas peças, e traz um registro realizado no Pará, na Ilha de Marajó, em que Juliana é arrastada nua pela areia da praia por um búfalo e, posteriormente, comendo os testículos do animal, questionando questões como virilidade, potência e machismo através de um ritual criado a partir de uma prática cotidiana. "Se eu tivesse dinheiro, teria comprado Mimoso e impedido a castração, mas ela já ia acontecer e foi incorporada à performance", explica a artista. 

Sobre "À Nordeste", ela classifica a exposição como "pretensiosa no bom sentido, de querer dar conta dessa complexidade". "É algo vertiginoso, você sai desnorteado mas sentindo que a arte existe no Nordeste, e é plena, potente, forte e se dá de muitas formas para além do estereótipo de representação que as pessoas geralmente têm".

* A jornalista viajou a convite do Sesc 24 de Maio.


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