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A nova cara dos carnavais de clube

Já se foi o tempo em que as pessoas usavam longos e black tie para as tradicionais prévias de Carnaval: hoje, o dress code é outro e os formatos de festa também

O Baile Municipal resistiu e acontece dia 15 de fevereiroO Baile Municipal resistiu e acontece dia 15 de fevereiro - Foto: Divulgação

Mulheres vestiam longos, homens iam de black tie e assim seguiam paras os camarotes, espaços o tanto quanto glamurosos dos nossos antigos carnavais. Aos salões, foliões chegavam fantasiados de pierrôs, colombinas, arlequins, ciganas e outros trajes pensados semanas e até meses antes do grande dia do baile.

E não se está falando, aqui, de um fato secular, porque até um dia desses era assim que o Recife promovia os carnavais em seus clubes, animados por chuvas de confetes e serpentinas, orquestras, concursos e marchinhas memoráveis, requisitos que ficaram no passado com a urgência dos novos tempos, ritmos e público.

"De dez anos para cá, quando mudamos o formato do baile e fomos para o lado de fora, deixamos de exigir trajes a rigor e fantasias. Estávamos perdendo público e começamos a repensar a estrutura, mudar as atrações e demos um novo fôlego", contou Joseli Lacerda, à frente há duas décadas do Bal Masqué, um dos mais tradicionais bailes de máscaras que, este ano, vai homenageá-la. Realizado no Clube Internacional do Recife, no bairro da Madalena, cujo presidente atual é Jorge Luiz Gil Rodrigues, o baile de máscaras se mantém com edições ininterruptas há 72 anos. Até 2009, o palco do espaço era tomado pelo frevo e pelo lirismo pernambucano, além do luxo dos concursos de máscaras.

A partir do ano seguinte, em 2010, o 62º baile começou a esboçar mudanças, homenageou a cidade de Las Vegas e investiu em atrações baianas mescladas ao cancioneiro pernambucano. "Ou a gente mudava o estilo ou então acabava o baile. E deu certou, 'bombou'. Botamos os camarotes para fora do clube, fechamos a piscina, tiramos o estacionamento e ampliamos o espaço, porque sabíamos que viria muita gente. Quando trouxemos Ivete Sangalo, por exemplo, vinte dias antes da festa não tinha mais senhas. Cláudia Leitte, Preta Gil e Carlinhos Brown foram outros nomes que lotaram a casa", completa Joseli, "embora a gente nunca tenha deixado de trazer atrações locais".

Este ano, o Bal Masqué vem com Babado Novo e É O Tchan, Maestro Spok e Orquestra Raízes. "E mesmo assim conversamos com os artistas de fora para que exaltem o nosso frevo, porque não queremos que as pessoas digam que o baile virou axé", justifica ela, que enxerga nessa mudança uma forma de preservar a tradição e agradar aos novos foliões que ignoram o que restou dos concursos promovidos pelo clube, que, atualmente, mantém ainda na disputa apenas a categoria "Máscara Luxuosa", já que outras, como fantasia e originalidade, saíram da programação. "Muitos dos nossos desfilantes vêm por amor. Até pensamos em terminar o de Máscaras, mas eles pediram e vieram mesmo sem a premiação, além do que os diretores do clube fazem questão em preservar o desfile.

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"Se for extinto os bailes e os desfiles, vou desfilar no Rio de Janeiro"
A campeoníssima Sandra Farias tem 44 anos de vida e pelo menos 29 deles dedicados às passarelas de bailes de Carnaval. Em seu currículo, já são mais de 200 títulos acumulados desde a década de 1990 e, só de Bal Masqué, foram oito primeiros lugares consecutivos.

Saudosa dos antigos carnavais e da época em que o glamour dos desfiles era um dos pontos altos das festas, ela lamenta, entre outras coisas, não ser mais o frevo o protagonista da folia de Momo recifense. "Estamos perdendo espaços para outros ritmos, mas para a juventude os bailes estão ultrapassados. Eu serei a última geração dos desfiles de fantasia de luxo e hoje desfilo muito mais por amor e por reconhecimento do povo", lamenta a artista, que não se enxerga longe do brilho, das plumas e das passarelas.

"Se forem extintos os bailes e desfiles, vou para o Rio de Janeiro. Vai ser uma tristeza grande, tenho todos os recortes de jornais e outros registros, para saber que um dia brilhei nos bailes tradicionais da minha cidade", ressalta Sandra, veterana também nos palcos do Municipal e em outras tantas folias em Pernambuco e País afora.

Já o presidente da Fundação de Cultura do Recife, Diego Rocha, é otimista quanto ao futuro dos carnavais tradicionais, pelo menos do Baile Municipal, festa que ele atribui longevidade pela combinação de fatores como tradição, preços populares, valorização da cultura pernambucana, qualidade da programação e solidariedade. De fato, realizado há 56 anos, o baile é um dos mais representativos da folia pernambucana, tendo como um dos pontos altos decorações que focam nas tradições do ciclo carnavalesco. "A Prefeitura do Recife não abre mão deste formato, muito menos da realização da festa. Levamos para o baile a cara da festa de rua, com foliões caprichosos em suas fantasias, assim como mantemos costumes de carnavais saudosos, a exemplo do desfile dos vencedores do Concurso de Fantasias na abertura da festa. É dessa forma que vamos perpetuar a tradição por muitos carnavais", garante.

Anteriormente realizado no Clube Português, o Baile Municipal foi para Classic Hall pela necessidade de ampliar o espaço para um público que lotava a festa a cada edição e que não cabia mais no espaço da Rosa e Silva. Não raras eram as vezes de ingressos esgotados e foliões de fora, assim como ocorria nos idos anos de Bal Masqué e nos não menos tradicionais Siri na Lata e Baile dos Artistas. "Entre tantas prévias que surgiram na Cidade, o Municipal conseguiu preservar sua identidade e essência, dialogando sempre com o Carnaval da Cidade e com as novidades", reforça Diego Rocha. Em 2019, de acordo com ele, cerca de 13 mil pessoas lotaram o salão do baile que teve, entre as atrações, nomes locais e nacionais, como Spok, Elba Ramalho, Belo Xis e Gaby Amarantos.

Siri e Baile dos Artistas: parada estratégica
O tempo segue seu fluxo, impulsiona mudanças e imprime novas realidades. Ao Carnaval, inclusive. O "Abre Alas", tão corajosamente pensado por Chiquinha Gonzaga ou os lamentos de atravessar o deserto do Saara entoando "Allah-lá-ô, ô ô ô ô ô ô" ficaram para trás. Tampouco cabe olhar a cabeleira do Zezé ou expor, em uma música, a ignorância de que um cabelo não nega mulata

Os tempos são outros, de liberdades, feminismo e conduta moral - ao menos, em tese - e de crise financeira, é claro. "Fazer um baile de Carnaval não é uma coisa fácil. Passávamos seis meses preparando e hoje as pesoas querem fazer em quinze dias. É por isso que sai qualquer coisa", comenta Valdi Coutinho, fundador do Baile dos Artistas junto a Marcelo Peixoto. Este ano, a prévia entraria em sua 42ª edição, mas, por motivos financeiros e estratégicos, segundo a organização, não será realizada. "Vamos parar este ano para voltar em 2021 com o mesmo formato dos bailes de antigamente", promete o carnavalesco que se orgulha em computar 40 anos de baile, no auge dos seus 77 anos de idade.

Criado em 1978, o Baile dos Artistas era point, em especial, do público LGBT. Tradicional em formato, concursos e glamour, há algum tempo, a festa vinha dando sinais de que precisava ser revista, sob a mesma justificativa do Bal Masqué: adequações aos novos tempos e novos públicos. "Eu entendo que as coisas mudam, e o baile também. Mas não precisa perder sua essência. As pessoas não veem mais a necessidade de um baile para se divertir e ser quem são, diferente da minha época e do Marcelo, em que o público contava os dias de chegar a noite da festa, porque baile é lugar para a pessoa brilhar, se divertir", queixa-se Valdir. Em 2019, a prévia ganhou repercussão negativa com cancelamentos e desistências dos artistas. Na programação, as cantoras Priscila Senna e Michelle Melo, além de Alan Ka, Maestro Forró, afoxé Ara Omim e o maracatu Leão do Poço estavam na programação que teria, também, o Maestro Forró e a apresentadora Fátima Bernardes como rei e rainha. "Ano passado, as pessoas foram de qualquer jeito, como se estivessem indo para uma troça. Emprestei meu nome mas nunca mais faço isso e em 2021, eu garanto, vamos ter um grande baile. Já vou começar a pensar em tudo assim que acabar o Carnaval deste ano", anima-se Valdi.

Assim como o "Artistas", o Siri na Lata também "deu um tempo" do Carnaval do Recife e não será realizado em 2020. De acordo com Paulo Brás, fundador de uma das prévias mais conhecidas da Cidade, que completaria 44 anos de história em 2020, o baile já teve seu auge quando, por exemplo, "vendia mais de 400 mesas e outros tantos camarotes e ainda deixava fila". Mas, como justificativa para os dias difíceis da festa, "o público envelheceu", motivo pelo qual o formato começou a ser repensado. "Há dois anos, investimos em atrações para atrair jovens e a festa explodiu com um público que acompanhou Daniela (Mercury). Repetimos a programação em 2019, mas sofremos boicote, porque ela havia dado declarações polêmicas sobre um fato no Festival de Inverno de Garanhuns (FIG)", relembra ele sobre o episódio que retirou a peça "Evangelho Segundo Jesus Cristo: Rainha do Céu" da programação do festival, fato que levou a cantora baiana a se posicionar contra.

Para Paulo Brás, o Siri foi levado a uma certa crise de identidade (de público), já que, ao mesmo tempo, ganhou novos adeptos, mas perdeu os veteranos. "O baile não acabou, apenas queremos nos reposicionar, recuperar nosso público que, como pode, era moderno em 1976 e conservador em 2019?", questiona. Há quatro anos, o Siri voltou para as ruas, fato que não acontecia há algum tempo. "Temos muita força nas ruas, mas vamos voltar com o baile, que não será feito só por fazer, precisamos entender o que está acontecendo. A marca ainda tem força para seguir adiante e, apesar de ser um problema geracional e de, talvez, tudo isso ser um ciclo que vai passar, acho que podemos dar um passo para trás e resgatar o tradicional de nossos carnavais".

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