A redoma do mundo VIP

Documentário “Gente Bonita”, do estreante Leon Sampaio, expõe o discurso elitista, misógino e racista em espaços segregadores

Raul Jungmann, ministro da DefesaRaul Jungmann, ministro da Defesa - Foto: Felipe Ribeiro

 

Além de exibir filmes clássicos e contemporâneos de cineastas já conhecidos, esta edição do Janela Internacional de Cinema do Recife apresenta também a estreia de novos realizadores. Neste fim de semana serão projetados dois documentários de cineastas estreantes: “Gente Bonita”, que será exibido hoje, às 18h, no Cinema São Luiz, do baiano Leon Sampaio, e “Banco Imobiliário”, projetado também neste sábado, às 17h10, no Cinema do Museu, do paulista Miguel Antunes Ramos.
“A ideia para o filme veio depois que eu visualizei uma espécie de documentário institucional de uma boate VIP de Florianópolis, na qual o dono falava das suas motivações e influências, do período em que passou no Bali meditando e surfando e aí depois teve a ideia de criar uma casa de festas neo-hippie para um público segmentado”, diz Leon. “Fiquei impressionado com aquele vídeo, sobretudo pelo uso recorrente da expressão ‘gente bonita’, que operava no discurso como uma forma de filtro social, de recorte elitista”, ressalta.
No documentário, Leon parece radiografar uma certa juventude brasileira, sugerindo comentários e perspectivas sobre as pessoas que frequentam o universo VIP de festas em camarotes privados no Carnaval de Salvador. “Vejo com muita crítica essas formas de vida localizadas nos camarotes, especialmente porque elas cultuam padrões de beleza e felicidade propagandeados pelas instituições. Acho que o belo não pode ser padronizado, tampouco a felicidade - ainda mais a partir de um filtro tão elitista, tão misógino e racista”, diz Leon.
“Esses espaços definitivamente não aceitam a diversidade, eles são excludentes desde a raiz, enquanto ideia fundadora. No entanto, essas pessoas que cultuam os camarotes, que não veem problema em comprar uma camisa de mil reais por uma festa de um dia, são pessoas carregadas de contradições, de afetos, assim como eu. Por isso, não me coloco acima delas. Eu me reconheço nelas, no banal, no piegas, no grotesco, mas eu também me distancio delas, me oponho a elas, e isso se dá, claro, a partir da montagem, de alguns cortes e durações”, ressalta.
Entre a ideia e o projeto finalizado, Leon amadureceu conceitos. “Antes de receber o material bruto, acreditava que o filme giraria em torno da questão de classe, mas acho que hoje, o filme que se apresenta nos convoca a refletir mais sobre relações de gênero.

 Evidentemente que a questão de classe está presente no filme, que é nítida a divisão social nos camarotes - negros trabalhando, brancos curtindo a festa - mas os acontecimentos do filme parecem nos convocar a refletir sobre relações de gênero, sobre micro-violências”, diz Leon.
Banco
“Banco Imobiliário” parte de uma premissa relativamente simples: o cineasta Miguel Antunes Ramos entrevista corretores de imóveis e executivos de empreiteiras na capital paulista, conseguindo reunir opiniões, crenças e relatos que provocam reflexões diversas sobre o mercado imobiliário contemporâneo e a ideia de urbanismo.
Encerramento
A nona edição do Janela termina neste domingo. No sábado, os destaques do Cinema do Museu são o programa do coletivo Rabbit Hole (15h30); o clássico “O Tambor” (1979), de Volker Schlöndorff (21h); no domingo, há sessão especial de “O que Está Por Vir”, de Mia Hansen-Love (18h15). No São Luiz, no sábado há exibição de “O Cinema, Manoel de Oliveira e Eu”, homenagem de João Botelho ao cineasta português (16h). No domingo, o São Luiz recebe uma sessão surpresa de um clássico do cinema (18h40) e uma apresentação especial, com o filme “Shakespeare Plan On!” e trilha ao vivo do projeto pernambucano RUMOR.

 

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