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Adaptações: a literatura infiltrada na arte

Poesia de João Cabral inspirou versões em outras linguagens artísticas, como música, teatro, cinema, dança e quadrinhos

Cão sem plumasCão sem plumas - Foto: Arthur de Souza/Folha de Pernambuco

 

100 anos João Cabral de Melo Neto

100 anos João Cabral de Melo Neto - Crédito: Arte Folha PE/Greg 

 

A poesia de João Cabral de Melo Neto, tal qual o rio que tantas vezes o inspirou, sempre foi viva e dinâmica. Tanto é que muitos dos seus versos transcenderam a própria literatura e alcançaram diferentes linguagens artísticas, como teatro, música, cinema e quadrinhos. "Morte e Vida Severina", obra mais emblemática do escritor, foi criada para ser encenada nos palcos e conquistou ainda mais popularidade após ser musicada por Chico Buarque, em 1966. Essa e outras criações do poeta pernambucano seguem inspirando artistas brasileiros e ganhando novas versões.

A notória aversão à música nutrida durante décadas por João Cabral quase foi um empecilho para o trabalho feito por Chico Buarque. Em entrevista ao programa "Conversa com Bial", da TV Globo, em 2017, Inez Cabral, filha do autor, contou que o pai resistiu à ideia de autorizar as músicas colocadas por um jovem cantor em seus versos. "Ele deixou a duras penas, até porque soube que o Chico era filho do Sérgio Buarque de Holanda", disse. Ao ver o resultado, no entanto, a opinião do escritor mudou. "Ele virou fã absoluto de Chico Buarque, porque ele conseguia não ser lírico, pelo menos não sempre", relembrou.

"Morte e Vida Severina" foi escrita entre 1954 e 1955, a pedido de Maria Clara Machado, que, na época, dirigia o teatro Tablado, no Rio de Janeiro. Com o subtítulo de "Um auto de Natal pernambucano", o texto foi publicado em 1956, mas só subiu ao palco pela primeira vez em 1958, pelas mãos da companhia Norte Teatro Escola do Pará, que estreou a montagem no Recife. A consagração da obra veio com a versão do Teatro da Universidade Católica (TUCA), de São Paulo, em 1965. Já contendo as músicas de Chico na trilha sonora, a peça fez sucesso dentro e fora do Brasil, recebendo premiação no festival universitário de Nancy, na França.

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A boa repercussão na Europa - com direito a críticas positivas em jornais como o "Le Figaro" e o "Le Monde" - tornou "Morte e Vida Severina" um dos textos mais encenados do teatro brasileiro, com inúmeras montagens ao longo dos anos. Atualmente, o Grupo Magiluth trabalha em uma nova encenação da obra, com direção de Rodrigo Mercadante, da Cia. do Tijolo (SP). A previsão de estreia é para o primeiro semestre deste ano. Segundo Giordano Castro, um dos integrantes do coletivo teatral pernambucano, o espetáculo está sendo planejado para espaços públicos e palcos alternativos.

Grupo Magiluth

Grupo Magiluth - Crédito: Julya Caminha/Arquivo Folha de Pernambuco

"Como nos nossos trabalhos a gente tende a misturar muita coisa e trazer várias referências, a obra começou a se abrir para a gente. Começamos a pesquisa a partir dessa poesia e fomos encontrando outras discussões no meio do caminho. A busca desse Severino por um lugar melhor nos leva a pensar sobre várias questões muito atuais, como as brigas por terras e o drama dos refugiados ao redor do mundo", comenta o ator e dramaturgo Giordano Castro, um dos fundadores do Magiluth.

Assim como "Auto do Frade" (1984), "Morte e Vida Severina" não chega a apresentar características típicas de um texto dramatúrgico clássico. Mesmo assim, o dramaturgo e professor de teatro Luís Reis defende que a identificação como autos sugere a intenção de que os dois trabalhos servissem às artes cênicas. "Se você pensar nesses textos enquanto dramaturgia, eles são de uma eficiência tremenda e guardam algumas marcas do gênero auto, como nenhum compromisso com a verossimilhança e um forte tom épico de narrativa. Esse último elemento fica mais acentuado de fato no 'Auto do Frade', que utilizas as vozes da cidade para contar a história de Frei Caneca", relata.

Audiovisual

Em 2010, "Morte e Vida Severina" foi transformada em desenho animado, com produção da TV Escola e da Fundação Joaquim Nabuco (Fundaj). A animação em 3D, que conta com músicas de Lucas Santtana, Marcelo Jeneci e Siba, é baseada numa HQ assinada pelo ilustrador Miguel Falcão.

A obra-prima de João Cabral foi levada ao pela primeira vez cinema em 1977, com roteiro e direção do cearense Zelito Viana, irmão do humorista Chico Anysio. No elenco, figuraram nomes como José Dumont, Elba Ramalho, Stênio Garcia, Tânia Alves e Luiz Mendonça. Parte dos atores foi reaproveitada no teleteatro musical produzido pela TV Globo em 1981, com direção de Walter Avancini.

Elba Ramalho

Elba Ramalho - Crédito: Divulgação

Fã declarada da poesia cabralina, a cantora Elba Ramalho comemora o fato de ter participado das duas adaptações audiovisuais. Seu contato com a obra e com o ator, no entanto, foi anterior. "Com 16 anos, fiz um dos personagens de 'Morte e Vida Severina' no teatro, na presença de João Cabral, em Campina Grande. Ele ficou admirado, porque o Severino, dentro do nosso contexto teatral, era interpretado por um menino ou por uma menina, dependendo da cena.

Depois, na TV Globo, fiz a 'Mulher da Janela', num diálogo lindo entre uma rezadeira e o protagonista, numa situação de muita miséria", relembra a artista, que, em 1997, ainda deu voz ao poema "O cão sem plumas", ao lado de Geraldo Azevedo e Zé Ramalho, no curta-metragem "Recife de dentro pra fora", de Kátia Mesel. No filme, os versos musicados acompanham cenas do rio Capibaribe, revelando os seus problemas de degradação ambiental e desigualdade social.

Dança

A famosa coreógrafa carioca Deborah Colker encarou o desafio de transformar em movimento "O cão sem plumas", extenso poema de João Cabral sobre o Capibaribe. Batizada de "Cão sem plumas" (sem o artigo do título original), a montagem estreou em 2017 e venceu o prêmio Benois de La Danse, condecoração russa considerada o "Oscar da dança". O espetáculo já foi visto em vários países, como Alemanha, França e Inglaterra, e retornará aos Estados Unidos em fevereiro, para uma temporada de uma semana em Nova Iorque.

Para as apresentações internacionais da obra coreográfica, os versos de João Cabral foram traduzidos para o inglês. Mas, para Colker, o público estrangeiro conseguiria compreender a essência da obra mesmo sem o recurso. "Percebo que há uma identificação imediata. O rio que João Cabral fala é o Capibaribe, mas também é todos os rios do mundo, castigados e roubados", diz a diretora, que cobriu de lama os bailarinos para externar a destruição da natureza e as mazelas sociais denunciadas pelo poeta.

Deborah Colker, coreógrafa

Deborah Colker, coreógrafa - Crédito: Arthur de Souza/Folha de Pernambuco



"Quando li esse texto pela primeira vez, senti como um soco no estômago. Percebi que precisava fazer aquilo de alguma maneira. João Cabral é tido como um poeta cerebral. Para mim, ele é de uma secura tão profunda que acaba transbordando e alagando tudo", pontua.

O contato com a cultura espanhola, que João Cabral conheceu profundamente quando morou em cidades como Sevilha, Barcelona e Madri, deixou marcas visíveis em sua poesia. Em livros como "Quaderna" (1960) e "Sevilha andando" (1990), o escritor expõe seu fascínio pelo universo intenso do flamenco. Esse diálogo estabelecido pelo autor entre o nordeste brasileiro e a terra das touradas serviu de inspiração para a Cia Karina Leiro de Flamenco levar aos palcos dois espetáculos de dança flamenca.

"Bailaora" estreou em 2015, adaptando o poema "Estudos para uma bailadora andaluza". Já "A palo seco", inspirado no poema homônimo, foi encenado em 2016, com roteiro e direção assinados por Emmanuel Matheus. "João Cabral traz as impressões de um nordestino sobre todo o movimento do flamenco. A maneira como ele escrevia sobre o assunto mostra que ele entendia bem como funcionava. Isso faz dele a ponte perfeita entre as duas culturas", comenta a bailarina baiana Karina Leiro, que morou durante seis anos em Pernambuco, onde ministrou aulas de dança flamenca em um estúdio de dança próprio.

Cia. Karina Leiro montou dois espetáculos baseados na obra de João Cabral

Cia. Karina Leiro montou dois espetáculos baseados na obra de João Cabral - Crédito: Lane Hans/Divulgação

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