Adaptações de quadrinhos brasileiros chegam ao cinema

Seguindo a tendência de produções de Hollywood, filmes como 'Tungstênio', 'O Doutrinador' e 'Turma da Mônica: Laços' levam quadrinhos brasileiros para o audiovisual

Fabrício Bolivera, em "Tungstênio" Fabrício Bolivera, em "Tungstênio"  - Foto: Divulgação

Há tempos, os grandes estúdios de Hollywood encontraram no universo das histórias em quadrinhos uma verdadeira mina de ouro. O sucesso comercial de "Vingadores: Guerra Infinita" - que em seu final de semana de estreia arrecadou US$ 630 milhões em bilheteria e pode ser o primeiro filme do verão nos EUA a atingir US$ 2 bilhões em vendas de ingressos - confirma o potencial lucrativo das adaptações dessas obras para as telonas. Consolidada nos Estados Unidos, a estratégia começa a ser abraçada pelo cinema brasileiro, que até então tem explorado pouco essa linguagem. As HQs nacionais vêm, cada vez mais, despertando o interesse de diferentes diretores, que estão transpondo essas obras para o audiovisual.

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Em junho, estreia o thriller "Tungstênio", inspirado na premiada graphic novel homônima de Marcelo Quintanilha. O longa-metragem, que conta com produção da Paranoid e coprodução da Globo Filmes, é dirigido pelo pernambucano Heitor Dhalia, de "O cheiro do ralo" (2006) e "À deriva" (2009). "Conheci o livro por indicação de um amigo meu, que é produtor. Depois, o Marçal Aquino - que assina o roteiro do filme, com Fernando Bonassi - também falou dele para mim. Duas coisas me atraíram: o título forte e a estrutura narrativa complexa, cheia de tensões", revela o cineasta.



A obra segue as histórias entrelaçadas de quatro personagens: o policial Richard (Fabrício Bolivera); sua esposa Keira (Samira Carvalho); o militar aposentado Seu Ney (Zé Dumont); e Caju (Wesley Guimarães), um pequeno traficante. Todas as tramas têm como cenário a cidade Salvador, passando por diferentes regiões da capital baiana, como o Forte de Nossa Senhora de Monte Serrat e o bairro da Ribeira.

"O Quintanilha faz, como ninguém, uma crônica muito forte do Brasil profundo. Colocar isso no filme foi nosso maior desafio, além da parte técnica. Há muita ação, com tiroteio e cenas subaquáticas. Foi complexo conseguir equacionar esses aspectos técnicos, sem perder a continuidade, já que a trama se passa no período de tempo de 12 horas", conta o diretor.

Quintanilha, que reside em Barcelona há mais de 15 anos, conta que já havia sido procurado por outros diretores antes do pernambucano, mas sempre negou as investidas. "Já conhecia e admirava o trabalho do Heitor no cinema. Isso trouxe a segurança necessária para autorizar uma adaptação. O que ele fez ficou muito fiel aos quadrinhos, mais até do que eu imaginava", confessa.

"Tungstênio", assinado por Marcelo Quintanilha - Crédito: Divulgação



"Quando adapto algo para o cinema, procuro manter a maior fidelidade possível à obra original. Às vezes, é necessário fazer certas modificações, mas em ‘Tungstênio’ fui absolutamente fiel. Filmei tudo com uma lente grande angular, para dar uma estética parecida com a dos quadrinhos. Segui o storyboard, além do recorte narrativo temporal, que vai e volta o tempo inteiro, com flashbacks", explica Heitor.

Consumidor ávido de HQs, Dhalia assume que o êxito das produções norte-americanas abriu caminhos para esse tipo de adaptação no mercado nacional. No entanto, ele enfatiza as particularidades do produto brasileiro. "A diferença é que os nossos quadrinhos têm uma veia autoral muito grande. A qualidade dos autores daqui é reconhecida lá fora. É uma das áreas nas quais o Brasil tem maior protagonismo internacional", defende.

O diretor já avalia adaptar duas outras obras dos quadrinhos para o formato de série de TV. Uma delas é "Tabloide", de L. M. Melite, que conta a saga de uma jornalista investigativa. "A outra ainda não posso revelar, pois ainda estou em negociação", despista.

Um vingador 'made in Brasil'


Bruno Wainer, fundador e presidente da distribuidora Downtown Filmes (responsável por algumas das maiores bilheterias nacionais), assume que a tendência é seguir os passos de Hollywood. Ao investir na adaptação de "O Doutrinador", HQ do quadrinista Luciano Cunha, o empresário diz que está "apostando em um gênero consagrado em vários países, mas pouco explorado no Brasil".

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De fato, a distribuidora - assim como a produtora Paris Entretenimento - está investindo alto no projeto. Além de um longa-metragem, orçado em R$ 15 milhões e com estreia prevista para o mês de setembro, a história está sendo transformada em série de TV, que será exibida pelo canal fechado Space, em 2019. Tanto o filme como a série foram criados pelo próprio Luciano Cunha, em parceria com o roteirista Gabriel Wainer. Eles assinam os roteiros ao lado de Mirna Nogueira, LG Bayão, Guilherme Siman, Rodrigo Lage e Denis Nielsen.

"O Doutrinador" nasceu em 2013, seguindo o furor das manifestações políticas - Crédito: Reprodução


O interesse em trabalhar com "O Doutrinador" é compreensível. Depois de bombar nas redes sociais, o quadrinho teve suas três edições impressas esgotadas no Brasil. O sucesso pode ser explicado pela temática. O protagonista da trama é um agente federal, treinado por forças especiais, que tem como missão acabar com a corrupção brasileira aniquilando os maus políticos. O personagem ganhou a internet em 2013, no furor dos protestos que tomaram as ruas do País.

"A identificação das pessoas sempre foi muito forte e o projeto foi crescendo de uma forma muito natural. É curioso que ideia de virar filme sempre esteve por perto, pois eu sempre recebia algum comentário na rede social. Quase diariamente, alguém postava 'isso tem que virar filme!'. E aí começaram as sondagens por parte de produtores e diretores", conta o desenhista.



Na telona, o ator escolhido para dar vida ao justiceiro foi Kiko Pissolato. Eduardo Moscovis, Marília Gabriela, Helena Ranaldi, Tuca Andrada, entre outros nomes, estão no elenco. A direção do longa é de Gustavo Bonafé. "O personagem já nasceu polêmico, então, sempre convivi com reações extremadas. Espero que, no fim, as pessoas encarem o filme como uma obra de ficção e entretenimento. 'O Doutrinador' nunca quis ser um tratado de sociologia. É apenas um filme de ação nunca feito no Brasil, simples assim", pondera.


Mônica ganha vida nas telas


Sem dúvidas, não há quadrinhos brasileiros mais conhecidos do que os da "Turma da Mônica". A série criada por Maurício de Sousa em 1959 tem um universo amplo, com diferentes histórias e produtos franqueados. A transposição para outras mídias começou na década de 1960, com animações em preto e branco para a televisão. Nos anos 1980, começaram a ser produzidos longas-metragens de animação e, em 2015, durante a Comic Con Experience, em São Paulo, foi anunciado o primeiro filme live-action.

Produzido pela Quintal Digital e Latino Estúdio, "Turma da Mônica: Laços" é baseada na graphic novel homônima, assinada pelos irmãos Lu e Vitor Cafaggi. Anunciado no ano passado, o elenco mirim é formado por Giulia Barreto (Mônica), Kevin Vechiatto (Cebolinha), Laura Raseo (Magali) e Gabriel Moreira (Cascão), com direção de Daniel Rezende ("Bingo: O rei das manhãs"). A estreia é prevista para o final deste ano.

Elenco infantil caracterizado para o filme

Elenco infantil caracterizado para o filme "Turma da Mônica: Laços" - Crédito: Divulgação



Para o final de 2019, já está sendo produzido o segundo live-action dos personagens. Esse é uma adaptação da "Turma da Mônica Jovem", série que apresenta os personagens em versões adolescentes, com traços que remetem aos mangás japoneses. O filme é dirigido por Christiano Metri e produzido pela Bossa Nova Filmes. Para Maurício de Sousa, esse é um caminho sem volta. "Muitos podem pensar que demorou demais. Mas eu sempre achei que tudo tem seu tempo de acontecer. Com certeza não vamos parar por aí", assegura o cartunista.

 

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