Adorno em quebra-cabeças

Filme “A garota no trem”, em cartaz nos cinemas, rende homenagens ao suspense clássico, como o de Alfred Hitchcock

Voto evangélicoVoto evangélico - Foto: Arte/Folha de Pernambuco

 

Em um período no qual vem se ampliando as discussões sobre a violência contra a mulher e os debates sobre a cultura machis­ta, um filme como “A ga­rota no trem” deve encontrar seu público. Seu valor parece ser mais pela forma como espelha padrões de comportamento doentios de certos homens que se enxergam como os chefes dos relacionamentos do que propriamente enquanto obra refinada de cinema. O filme, que estreou no circuito nacional, é baseado no livro bestseller de mesmo nome escrito por Paula Hawkins (também disponível no mercado editorial brasileiro).
O enredo presta homenagens a certos clássicos do cinema voyeur, usando o artifí­cio narrativo em que perso­na­gens observam sem se­rem notados como peça fundamental.

“Janela Indiscreta” (1954), clássico de Alfred Hitchcock, é uma grande referência. Na história, acompa­nhamos Rachel (E­mi­ly Blunt), mulher que usa o trem para ir e voltar do trabalho. No caminho presta atenção em diferentes famílias e cria nomes e personalidades para esses desconhecidos, indício de solidão e tédio da personagem cujo drama ainda não é inteiramente conhecido.

A constante narração nesse primeiro momento incomoda: há uma grande quantida­de de texto sendo dito pela pro­tagonista, de certa forma revelando a origem literária do enredo, enquanto os mistérios e as possibilidades intrigantes que envolvem narrar através de imagens o ato de fantasiar sobre intimidades (em diferentes níveis) de desconhecidos não parecem tão desenvolvidas. Em seu processo particular de fan­tasia, há um casal que cha­ma a atenção de Rachel: Megan (Haley Bennett) e Scott (Luke Evans), aparentemente sofisticados e apaixonados.

Todo dia Rachel observa frag­mentos da intimidade des­se casal. Até que, em uma certa manhã, ela vê algo que a deixa chocada: um outro homem beijando Megan. Rachel se descontrola ao saber que a mulher por quem é fascinada e sobre quem projeta seus desejos tem complexidades emocionais. No dia se­guinte, quando surge a no­tícia que Megan está desa­parecida, a protagonista se sente motivada a investigar o caso. É quando passamos a conhecer mais sobre seus próprios problemas: o alcoolismo, o ciúme do ex-ma­rido, Tom (Justin Theroux), agora casado com Anna (Rebecca Ferguson), feridas ain­da abertas e sangrando.

É um filme que se desenvol­ve como um truque de ilusionismo: aponta para um enredo enquanto o real procedimento de surpresa vem sendo construído em outro lugar. Há certa engenhosidade, embora aos poucos fique claro que o roteiro preza mais pelos truques para despistar o espectador do que por uma construção emocional em sintonia com o duro momento vi­vido pela protagonista. É co­mo se o diretor do filme, Ta­te Taylor, apreciasse mais a criação de adornos fascinantes do que mergulhar nas sombras de suas personagens.

 

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