Cinema

Agremiação da primeira vila operária da América Latina é tema de curta documental

Fundado por trabalhadores da Vila da Fábrica, Bloco Foiará de Camaragibe, com 67 anos de história, agora ganha registro audiovisual em curta-metragem do cineasta pernambucano Matheus Rocha

Cena do curta documentário "Eu quero é botar meu bloco na rua", de Matheus RochaCena do curta documentário "Eu quero é botar meu bloco na rua", de Matheus Rocha - Foto: Divulgação

Para além da tradição carnavalesca, muitos blocos de rua de Pernambuco surgiram como símbolos de resistência e empoderamento social. Em Camaragibe, na Região Metropolitana do Recife, o "Bloco Foiará" é um exemplo de agremiação com forte vínculo social com a comunidade do bairro da Vila da Fábrica. A história do bloco ganhou destaque e foi registrada no curta documental "Eu quero é botar meu Bloco na rua", dirigido pelo cineasta pernambucano Matheus Rocha.

O curta-metragem foi contemplado com o edital da Lei Paulo Gustavo, através de recursos do Governo Federal repassados para a Prefeitura de Camaragibe. Com previsão de lançamento para o início do segundo semestre de 2024, o filme vai estrear durante uma série de eventos realizados pela Fundação de Cultura de Camaragibe, que exibirá os projetos audiovisuais contemplados pelo edital, na sede do Teatro Bianour Mendonça Monteiro - Av. Dr. Pierre Collier, 440, Vila da Fábrica, Camaragibe, com data ainda não definida. 

Sobre a agremiação
Com 67 anos de história, o Bloco Foiará foi fundado em 1957 por trabalhadores do bairro Vila da Fábrica, a primeira vila operária da América Latina. A história do bloco começa quando os trabalhadores pedem uma folga aos patrões para curtir o Carnaval. Com a negativa do patronato a esse pedido, eles resolveram fundar o bloco em protesto. 

Fruto da resistência da classe trabalhadora, o bloco escancarou a disputa de classes que esteve presente na formação social do município de Camaragibe. "Eu achei interessante porque é uma iniciativa da classe trabalhadora, é um bloco simples, de rua, raíz, que abrange e une todas as pessoas daquela região. A gente vê que o carnaval está passando por um processo de elitização, mas o bloco de rua continua sendo resistência, perpetuando a tradição de um carnaval mais democrático", explica o diretor. 

Resistência e identidade comunitária

Além de possuir uma história vinculada à luta dos trabalhadores, o bloco também tem participação cultural na comunidade, através do Carnaval de rua, mantendo a tradição de um ritual que acontece desde a década de 50. Os foliões se concentram na "boca da mata" de Camaragibe, parte onde se encontra a vegetação da Mata Atlântica no município. Ali, eles esperavam a saída do Foiará, que é o personagem principal, que dá nome ao bloco, coberto de folhagens e que é o "heroi" da mata camaragibense, defendendo a flora e fugindo do caçador, outro personagem do bloco.

"A gente esperava a saída do Foiará na boca da mata. Quando a gente ouvia os fogos dentro da mata, era porque estava anunciando que o Foiará foi encontrado pelo caçador e estava saindo. A gente ficava aguardando com galhos de mato e com apitos, para fazer a folia", é o que relata Enilde Barros, uma das foliãs mais antigas do bloco. "Quanto mais barulho, mais emocionante e bonito ficava", complementa. O objetivo era unir os foliões, que, a cada ano, aumentavam em números. Na "boca da mata", os moradores faziam uma mesa com frutas, feijoada e chá. "Eu ajudava na preparação da mesa e todo mundo podia se servir, era um momento de união", afirma Enilde. 

Após a saída do Foiará e do caçador da mata, os foliões seguiam em cortejo pelas ruas da Vila da Fábrica ao som de uma orquestra de frevo tradicional. São seis décadas de histórias e encontros em torno de um carnaval feito por gente humilde, que, inclusive, não possuía muitos registros na internet.

"O Foiará não tinha nenhum documento escrito na internet, somente uns vídeos antigos de desfiles passados, mas não tinha registros da história do bloco que, inclusive, é bastante interessante e tem relação com a luta dos trabalhadores daquela fábrica, com a simplicidade e resistência do carnaval de rua e com o verdadeiro carnaval tradicional pernambucano. Além de valorizar as raízes camaragibenses", finaliza o diretor Matheus Rocha. 

O Foiará e a ditadura militar

O nome do curta, "Eu quero é botar meu Bloco na rua",  faz referência a uma canção da década de 1970, do compositor Sérgio Sampaio, que ficou conhecida no período da ditadura militar brasileira. A escolha do nome do curta tem relação com a história do Foiará no período ditatorial, como explica o diretor Matheus Rocha. "Em 1964, doze integrantes do Foiará tiveram que sair de Camaragibe porque poderiam ser presos sob acusação de serem comunistas. O bloco teve que parar entre 1964 e 1966 por censura, por isso a escolha do nome. Além de ser um bloco de resistência da classe trabalhadora frente à classe dominante dos patrões, é um bloco de resistência ao regime militar que oprimiu pessoas, censurou artistas, jornalistas e cidadãos, violando o direito de todos à liberdade de expressão, de brincar, de circular, enfim, de desfrutarem da democracia". 

Matheus Rocha é cineasta, fotógrafo, assessor de comunicação e jornalista. Formado em jornalismo pela Universidade Católica de Pernambuco e pós-graduado em Narrativas Contemporâneas da Fotografia e Audiovisual.

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