Alceu Valença traz para o Recife turnê 'Amigo da Arte'

Cantor e compositor pernambucano faz show que ressalta citações literárias de seu cancioneiro

Alceu Valença se apresenta no próximo sábado (28), no Teatro GuararapesAlceu Valença se apresenta no próximo sábado (28), no Teatro Guararapes - Foto: Antonio Melcop/Divulgação

Entre risos (muitos) e papos-cabeça, prosear com Alceu Valença remete o ouvinte - jornalista, neste caso - a desdobrar a ideia inicial de uma “mera pauta sobre show”. Fato, aliás, que abre estas primeiras linhas, porque sábado (28), no Teatro Guararapes, o cantor e compositor pernambucano apresenta “Amigo da Arte”, sua mais recente performance pautada por música e citações literárias, em paralelo a tantas outras que ele segue palcos afora, a exemplo de "O Grande Encontro" e "Valencianas". “Espere o outro show já. Vá para este, mas sabendo que o próximo já está no gatilho”, alerta o nosso eterno "bicho maluco beleza" quando questionado sobre o fôlego para se reinventar.

Aos 73 anos de vida e quase 50 de carreira, o desbravador de São Bento do Una, Agreste de Pernambuco, não se arrepende de ter enfrentado a família quando decidiu driblar um destino que poderia ter enveredado, quem sabe, para o viés jurídico, como advogado, ou para as letras, como jornalista - profissões abandonadas por ele para seguir pelo universo das artes, mais precisamente pela riqueza estética do rock psicodélico em meio a elementos da música nordestina, quando, junto a Paulo Rafael e Ivinho (guitarras), integrantes do lendário Ave Sangria - o primeiro, inclusive, o acompanha até os dias de hoje - se apresentou à Música Popular Brasileira com "Molhado de Suor" (1974), que também trazia Lula Côrtes (tricórdio) e Zé Ramalho (viola).

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"Com uma guitarra, pode-se tocar samba, frevo, maracatu ou qualquer coisa. Havia uma época que, no Brasil, as pessoas ficavam questionando esse instrumento, porque quem tocava guitarra não fazia música brasileira, mas não é assim. A que eu tocava remetia ao pífano, por exemplo", explica ele, que ficou conhecido lá pelas bandas de Nova Iorque como “Alceu Valença, o rock que não é rock”. "Me indagavam se a minha música tinha relação com o que eu ouvia do Rolling Stones, mas eu nem tinha vitrola em casa, meu pai não queria que eu fosse artista. Lá em casa era proibido som", lembra.

E assim ele seguiu (segue) cercado por excentricidades que lhe colocam à parte do comum. Para falar sobre "Amigo da Arte", por exemplo, ele cantou, à capela, por telefone, um pouco do repertório do show: "Estou montado no futuro indicativo, já não corro mais perigo e nada tenho a declarar. Terno de vidro costurado a parafuso papagaio do futuro num paragaio ao luar (...)", para se referir à citação "terno de vidro" extraída do poema "E agora, José?", de Carlos Drummond de Andrade, que volta a ser citado em trechos de "Galopando" (Espelho Cristalino, 1977), novamente cantada por ele para lembrar do poeta mineiro em "viro pedra no meio do caminho" e de Guimarães Rosa em "viro rosa".

"São referências de minha infância, adolescência, que ficaram no 'HD' de minha memória", justifica Alceu, que continuou: "Na primeira manhã que te perdi, acordei mais cansado que sozinho, como um conde falando aos passarinhos (...)". "O conde falando aos passarinhos é do livro de Rubem Braga", esclarece, sobre a menção ao título da obra do escritor capixaba, "O Conde e o Passarinho" (1961), em "Na Primeira Manhã" (Coração Bobo, 1980).

E quem disse que "Morena Tropicana" vem, literalmente, de uma mulher morena dos trópicos? Obviedades não cabem em Alceu. "Foram várias as inspirações, claro, mas o verão do nosso Pernambuco me leva às mangas rosas, aos cajus. Aí me lembrei também de Sérgio Lemos, pintor pernambucano que foi meu cunhado, casou com minha irmã. Ele pintava muitas coisas, inclusive quadros com frutas", conta. Da mesma forma se deu a lógica de outras tantas que compõem o repertório do show, que ele faz ao lado de Paulo Rafael (guitarra), Tovinho (teclados), André Julião (sanfona), Nando Barreto (baixo) e Cassio Cunha (bateria).

"Formei o repertório por módulos, de quatro em quatro canções que têm mais ou menos o mesmo timbre. Com "Que Grilo Dá" e "Papagaio do Futuro" inicio, daí vou com outras duas até mudar a sonoridade e chegar a "Dois Animais". Ahhhhh, essa foi no tempo de 'Cavalo de Pau' (1982), deixa te contar como foi. Eu vi uma cena em Olinda, de um rapaz vestido de cachorro no Carnaval, namorando uma onça pintada. Entendesse? Depois dessa música chego com 'Amor Covarde' (Rubi, 1986) e então me diga, não é uma sequência de um filme? Hein? É uma sequência de filme, pô!", concluiu logo em seguida a um "Tá bom, bichinha?", adianta para o público, que pode esperar um passeio sonoro e artístico pela carreira do músico.

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