'Alvorada' mostra Dilma momentos antes do impeachment
Filme Anna Muylaert e Lô Politi mostra os bastidores do Palácio da Alvorada em meio ao afastamento da ex-presidente
Amplamente acompanhado pelos veículos de imprensa e registrado em mais de uma produção cinematográfica, o impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff, em 2016, ganha um novo recorte em “Alvorada”. No documentário, as diretoras Anna Muylaert e Lô Politi mostram os bastidores do Palácio da Alvorada, residência oficial da presidência, enquanto o processo de afastamento da petista estava em andamento.
O filme, que teve sua estreia no Festival É Tudo Verdade, chega nesta quinta-feira (27) às plataformas digitais (Now, Oi, Vivo Play, Google Filmes, iTunes e Youtube), para compra e aluguel. Com uma abordagem mais intimista em relação ao tema, o longa-metragem trata a primeira mulher a assumir a presidência do País como protagonista daqueles acontecimentos. O olhar humanizado e, por vezes muito próximo da personagem, retrata uma Dilma para além da governante, ainda que mergulhada numa crise política.
A percepção de que a cobertura midiática em relação ao impeachment deturpava a imagem da então presidente despertou nas cineastas o desejo de filmar o documentário. “Esse processo estava se desenvolvendo de uma maneira muito violenta contra ela. Pintavam a Dilma nas capas de revista como se estivesse louca, berrando com todo mundo, e a gente, que já a conhecia antes, sabia que ela não era assim”, comenta Lô Politi.
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Para Anna Muylaert, a postura firme da chefe de estado diante de um momento tão turbulento foi o que mais marcou o convívio com ela. “Ela enfrentou tudo sem nunca levar para o lado pessoal. Sua preocupação era muito mais com as consequências daquele golpe para a democracia”, aponta.
Segundo as diretoras, Dilma não impôs restrições para as filmagens dentro do Palácio. Em determinados momentos do filme, no entanto, ela demonstra certo desconforto com a câmera seguindo seus passos. “No começo, ficamos bem próximos dela. Mas ela não nos impediu de trabalhar, embora tivesse todo direito. Tivemos acesso ao prédio inteiro, sem precisar informar o que a gente estava filmando. Não parecia que ela tinha algo a esconder”, relembra Lô.
O longa também retrata o cotidiano dos funcionários da sede do governo. Enquanto a presidente se reúne com políticos e membros da sociedade civil, concede entrevistas e articula sua defesa, os profissionais a sua volta dão conta dos afazeres triviais. “O Palácio é dividido em três andares e, no subsolo, há um verdadeiro formigueiro de gente trabalhando, com uma rotina que não muda de presidente para presidente. A gente usa isso como uma contraposição, que acentua essa percepção melancólica do filme”, afirma Lô.
Processo histórico documentado
“Alvorada” se junta a outros documentários já lançados que também falam sobre o impeachment. “Democracia em vertigem”, de Petra Costa, e “O processo”, de Maria Ramos, são dois exemplos com grande repercussão. Poucos momentos da história política brasileira foram registrados pelo cinema com tanta instantaneidade.
“Acho que esse é um legado muito importante para o Brasil. Esse processo teve consequências muito grandes para o País, em todos os aspectos”, diz Anna. Também é simbólico para as cineastas o fato da maioria dessas produções terem direções femininas. “Não foi à toa várias mulheres terem se levantado imediatamente para mostrar o que estava acontecendo de outro ponto de vista. Esse afastamento de uma mulher do poder teve sim um forte caráter misógino, que nos afeta diretamente”, ressalta Lô.

