Amaro Freitas está entre as revelações do Prêmio Instrumental da MIMO

Pianista de 25 anos se apresenta no festival neste domingo, às 11h

Nicó do CimentoNicó do Cimento - Foto: Reprodução/Facebook

Já nos anos de 1800, tocar piano era um indicativo da educação dada às elites e reafirmava a posição dos indivíduos dentro da sociedade. Somente no século seguinte, o domínio sobre as teclas passou a se tornar mais comum entre as camadas mais simples da população, mas o próprio preço (altíssimo) do equipamento continuou segmentando seus virtuosos.

Não é a toa que o recifense Amaro Freitas ainda nem tem o próprio piano, mas já é uma das revelações nacionais no instrumento como um dos vencedores do Prêmio Instrumental da MIMO.

O festival inclui o show de lançamento do álbum “Sangue Negro” neste domingo, às 11h, no Convento de São Francisco, quando o trabalho chega às plataformas digitais para reforçar a data em que é celebrada o Dia da Consciência Negra. “Tem coisas que para mim já são uma vitória, como tocar piano e conseguir gerenciar uma carreira. O piano era um instrumento elitizado, por isso ainda hoje não se vê tantos negros tocando, então tento quebrar isso no meu show. Toco de sandália, calça de pano e camisa simples que é para dizer que qualquer pessoa pode ser pianista”, comenta ele, que escolheu o título da faixa mais intensa do disco para dar nome ao seu primeiro trabalho solo, em que é acompanhado pelo baixista Jean Elton e pelo baterista Hugo Medeiros, com participações do saxofonista Eliudo Souza e do trompetista Fabinho Costa.

A faixa-título é carregada de elementos que lembram a música negra e o afrojazz, passando pelo bebop até alcançar o improviso, como símbolo de libertação. “Eu uso muito o ritmo no piano e acho que essa é uma característica da música contemporânea, prestar mais atenção no ritmo do que nas melodias. Então brinco muito com o suíngue do samba, do frevo, das claves afro e do baião”, explica ele, sobre a perspectiva percussiva que adota para o piano como herança da sua musicalidade ancestral.

Além da carreira instrumental, Amaro também atua no cenário pernambucano popular, acompanhando músicos como Márcia Pequeno, Claudia Beija e Romero Ferro. Inclusive, chegou a produzir o álbum “Arsênico”, de Ferro, ao lado do carioca Diogo Strausz, mas para seu próprio disco delegou a função ao pianista Rafael Vernet, que ficou conhecido pela produção de trabalhos de gente como Ed Motta, Hermeto Pascoal e Toninho Horta. “O Vernet foi tão importante que o álbum seria metade do que ele é hoje se ele não tivesse topado, porque ele traduz muito bem o que é música, ele nos entendia e conseguia fazer as coisas fluírem”, disse Amaro, que começou a tocar aos 12 anos, na igreja. Ele cresceu em Nova Descoberta, onde vive até hoje.

Atualmente aos 25 anos e com a identidade firmada, Amaro apresenta seu cartão de entrada com “Sangue Negro”, introduzindo ao público a sua personalidade. Além de usar o jazz como ferramenta de libertação social, também explora outros gêneros que atravessam sua memória afetiva, como o samba, em “Samba de César”, em homenagem ao bandolinista e professor Marco César, e o “frevo-balada” “Subindo o Morro”. “Essa música era bem acelerada, aí quando fui gravar, os músicos me lembraram que ninguém sobe o morro correndo e sugeriram que ou eu mudava o título para ‘Descendo o Morro’ ou dava uma desacelerada. O frevo-balada não existe, mas a balada é uma das vertentes do jazz para tocar bem arrastado, por isso fizemos esse frevo com as notas mais longas”, justifica ele.

Ao todo o trabalho conta com seis músicas, das quais cinco são de autoria de Amaro e uma, intitulada “Estudo nº 0”, é do baterista Hugo Medeiros. O trabalho foi inteiramente gravado no estúdio Carranca, que foi escolhido justamente porque dispunha de um “piano fantástico”. O recifense custeou o trabalho do seu bolso, mas diz que seu próximo investimento será o instrumento próprio. Por enquanto, o músico segue compondo no teclado e se exercitando diariamente no piano do restaurante Mingus, onde atua como residente. Além do festival MIMO, o público recifense também poderá ver o show de “Sangue Negro” no Vivo Open Air, onde se apresenta nos dias 30 deste mês e nos dias 2 e 17 de dezembro.

 

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