Artista Juliana Lapa expressa o feminino em exposição

Artista visual autodidata, Juliana Lapa inaugura exposição individual na Torre Malakoff, no Bairro do Recife, com fotografias, desenhos e objetos

Exposição de Juliana Lapa está em cartaz na Torre Malakoff até o dia 11 de outubroExposição de Juliana Lapa está em cartaz na Torre Malakoff até o dia 11 de outubro - Foto: Divulgação

Doida, doída. Mulher fluida que jorra sentimentos, sendo conduzida pela sombra daquilo que ignora mas pressente, e é. O mundo interior de Juliana Lapa, que expressa o feminino em sua total amplitude, está em cartaz a partir deste sábado (1º), na Torre Malakoff. A primeira mostra individual da artista parte de uma série de relações silenciosas e silenciadas, experimentadas por ela e por todas as mulheres do mundo.

"A natureza feminina é incompreensível para a força bruta que determina, deslegitima e desautoriza, rotulando-nos como loucas", destaca. Não é por acaso que fogo e água estão tão presentes nas fotos, desenhos e objetos que compõem a exposição. "O movimento da natureza é feminino, envolve. É matéria, mater, mãe", afirma a artista.

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A maioria dos desenhos de Juliana foram desenvolvidos a partir de 2015 e espantam pelo detalhamento e grande dimensão. Completamente autodidata, a artista diz que nunca teve aulas teóricas. Suas obras transbordam carga emotiva, e ela mesma confessa que o processo de desenhar (às vezes, mais de dez horas por dia), além de significar uma necessidade de expressão estética, tem funcionado como um processo de cura pessoal.

Aos 32 anos, Juliana só se encontrou consigo mesma nos últimos sete. Antes, foi expulsa de escolas quando adolescente, largou o curso de Direito quando estava prestes a concluí-lo e chegou a se candidatar a vereadora, seguindo o caminho indicado pela família. A libertação começou quando se dedicou à produção em cinema, o mais próximo que inicialmente conseguiu chegar da arte. E depois disso, a paixão pelo desenho, que a acompanhava desde menina, enfim falou mais alto.

Juliana diz que obras refletem suas tentativas de 'arqueologizar-se'

Juliana diz que obras refletem suas tentativas de 'arqueologizar-se' - Crédito: Anderson Stevens / Folha de Pernambuco

Com base nos diários que escreve desde sempre, e que concretizam suas tentativa de "arqueologizar-se", Juliana compôs duas grandes temáticas que se complementam. Na série "Breus", sete desenhos mostram a floresta, uma constante em sua produção. Mais abstratos, apesar da presença onírica de plantas, humanos e animais, os trabalhos dialogam com um verso de Dante, na Divina Comédia, que Juliana leu ainda adolescente: “no meio da nossa vida, me encontrei numa selva escura e sombria”.

Já em "Eu não estou louca", a artista mostra uma faceta mais figurativa, trabalhando com diversos arquétipos e fazendo referências ao sagrado feminino, à cabala e ao tarô. Inicialmente, a mostra iria se chamar "Animal Incomum", mas ela resolveu mudar o nome a partir do entendimento da conotação de fragilidade, histeria e silenciamento forçado que as mulheres recebem dentro de nossa sociedade.

Assim, as figuras torturadas, poderosas, gigantes, sombrias, medonhas e animalescas que povoam o espaço são autorretratos de cada uma de nós. Estão feridas, mas conseguiram soltar seus bichos. Em uma das telas, a personagem está dividida entre cometas errantes e estrelas fixas.

Em outra, onde uma imensa mulher inunda uma cidade, ao mesmo tempo destruindo e limpando, Juliana descreve uma rota de voo. "Olhe. Este é o nosso mundo. Permita que a lança a transpasse. Seja atingida bem no meio do peito. Olhe para o rombo que ela faz. Sinta o vento atravessar. Feche os olhos. Abra os olhos. Imagine o ponto de vista de uma pássara que sobrevoa a sua cabeça. Quando você respira, a pássara bate as asas".

Serviço:
Exposição "Eu não estou louca", de Juliana Lapa
Na Torre Malakoff (praça do Arsenal, s/n, Bairro do Recife)
Abertura neste sábado (1º), às 16h. Em cartaz até 11 de outubro
Visitação: De terça a sexta-feira, das 10h às 17h. Sábados, das 15h às 18h. Domingos, das 15h às 19h
Haverá visitas guiadas com acessibilidade comunicacional voltadas para pessoas com deficiência visual (audiodescrição) e oficinas de desenho para estudantes de baixa renda
Entrada gratuita

 

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