Memória

Artista pernambucano resgata memória e força de Tupac em álbum virtual

O designer e DJ Kaique Lopes criou um projeto digital, reimaginando o trabalho do rapper na contemporaneidade

Trabalho virtual resgata memória de TupacTrabalho virtual resgata memória de Tupac - Foto: Kaique Lopes / Divulgação

Quando o rapper Tupac Amaru Shakur foi assassinado em setembro de 1996, com apenas 25 anos, uma lacuna ficou aberta no rap. No entanto, os quatro tiros que ceifaram sua vida não foram suficientes para apagar o seu legado no gênero musical. Filho de militantes dos Panteras Negras, ele denunciava o racismo, a miséria e a violência nas músicas. Com o objetivo de resgatar a força e a importância de Tupac, o designer, artista e DJ Kaique Lopes, 26, criou o álbum visual “Surviving in America”, projeto virtual que simula o que seria seu 6º álbum de estúdio, caso estivesse vivo.

Disponível na plataforma Behance, “Surviving in America” reimagina visualmente o que seria um Tupac contemporâneo, trazendo referências políticas e o universo dos guetos - presentes nos discos anteriores do rapper. “Eu estava escutando algumas músicas dele, lembrando de como a vida dele também não foi tão diferente de tantos pretos hoje em dia, que sofrem na mão da polícia e do racismo. Lembrei que ele sempre não teve o medo de falar e me perguntei como seria ter a voz de alguém que era tão ativo politicamente nos movimentos nos dias atuais. Fazendo um comparativo, eu acho que ele seria hoje tão grande ou importante quanto Jay-Z é nesse sentido”, explica Kaique, também conhecido como Kai.

Idealizador do projeto, Kaique LopesO idealizador do projeto, Kaique Lopes - Foto: Divulgação

O trabalho é composto por 10 faixas visuais, entre elas “The Black House”, “Join City”, Who Shot Me” e “Dead President”. Há, também, uma composição de videoclipes, um encarte de fotografias e uma playlist de músicas que carregam a essência do projeto. “Tupac era um rapper que falava e retratava tudo que ele via nas ruas. Num trabalho atual tudo seria refinado com o empoderamento da nossa cultura. O CD é basicamente isso pra mim, uma mensagem contra o sistema. Saí procurando fotos dele que pudessem compor um photoshoot para o encarte. Já para o visual dos vídeos, eu tinha uma ideia específica para narrativa de cada música e só traduzi em imagens sequenciais dando a ideia do que seria o vídeo”, conta, levando duas semanas para finalizar.

O trabalho foi costurado pelo movimento hip hop na vida de Kai. Nascido em São Paulo, mas com infância em Caruaru, no Agreste de Pernambuco, ele recebia influência dos primos que vinham visitá-lo da capital paulista. “Lembro que bati o olho na capa do DVD e vi Tupac. Eu achava ele um gato (aos risos) e também uma figura muito confiante, isso me inspirou muito. É como se num estalar de dedos você pudesse se ver ali e enxergar que existem tantas outras possibilidades além do que a família da gente projeta enquanto grande”, enfatiza, relembrando dos DVDs que assistia de outros rappers na época, como Eminem, 50 Cent e Lil Wayne. 

Contemporaneidade

Embora tenha sido assassinado há mais de duas décadas, Tupac continua sendo uma das grandes referências do rap e do movimento negro nos Estados Unidos. Sua mãe, Afeni Shakur, e seu pai, Mutulu Shakur, foram militantes pela luta dos direitos civis entre 1960 e 1980. O rapper nasceu um mês após a libertação de Afeni, em 1971, presa por causa do grupo “Pantera 21”. Já Mutulu foi responsável por organizações de proteção à vida e saúde dos afro-americanos durante décadas. Isso influenciou diretamente a vida pessoal e artística do rapper, que unia as duas frentes através da música.

Hoje, o movimento “Black Lives Matter” - tradução para Vidas Negras Importam -, atravessa questões já trazidas por Tupac. “A maior contribuição que ele faria é inspirar esse coisa do “Sim, nós merecemos tudo”. Não existia nada menos que o melhor para Tupac. Ele não estava aqui na terra ele para pedir educadamente que você o respeitasse ou o tratasse como igual, ele tava aqui para exigir isso. Sem aplausos para o básico. Certamente ele estaria envolvido com o movimento; seus pais eram panteras negras e em toda sua carreira ele sempre expressou essa voz política sobre a imagem de pessoas negras na sociedade, denunciando o racismo estrutural que foi criado para que a gente falhe”, pontua Kaique.

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