Artistas criam novas formas para atrair público e sobreviver à falta de incentivos no teatro

"O teatro tem esse apelo do presencial, do erro, do não se estar lidando com uma máquina, que faz com que o público não o abandone", diz Paula de Renor, que estreia novo festival em setembro

'O Evangelho Segundo Jesus', de Renata Carvalho, lotou o Teatro Apolo, durante o Trema!'O Evangelho Segundo Jesus', de Renata Carvalho, lotou o Teatro Apolo, durante o Trema! - Foto: Rogério Alves/Divulgação

As dificuldades continuam enormes - e isso, ninguém discute. Mas, nos últimos anos, Recife vem recuperando seu posto de destaque na produção cênica brasileira. Isso pode ser percebido pelo grande número de companhias teatrais em funcionamento (Fiandeiros, Poste, Magiluth, Angu, Coletivo Lugar Comum e Cênicas, entre outras) e a crescente quantidade de festivais.

O mais recente deles, Trema!, conseguiu atrair um público de cerca de quatro mil pessoas durante sua sexta edição anual, esgotando ingressos e lotando salas mesmo tendo acontecido em plena crise de combustíveis, que causou sérias dificuldades de locomoção. "Para nós, é a constatação de que existe uma demanda muito grande e que os gestores públicos precisam estar mais atentos aos apelos da população. Público para o teatro existe, sim, e sedento por espetáculos", afirma Pedro Vilela, curador do festival (que contou com doze apresentações teatrais e três oficinas).

"A luta pelo público é uma das coisas mais bonitas que o teatro proporciona. Lutamos contra esse estado de coisas que vivemos, o medo, a violência. A gente consegue atrair as pessoas pra rua, para fora de suas casas. É uma luta incansável e é assim que tem que ser", reforça Cláudio Ferrário, que em março alcançou a proeza de, sem patrocínio, encenar dois espetáculos ("Martelada" e "A Invenção da Palavra", em temporada no Teatro Arraial Ariano Suassuna), quitar todos os custos, pagar cachê "e ainda ficar com algum dinheiro".

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"Produtores e artistas estão se reinventando, criando novas formas de atrair. O teatro tem esse apelo do presencial, do erro, do não se estar lidando com uma máquina, que faz com que o público não o abandone. Ali sempre tem interação, um texto, um ator, um público. E cabe a nós pensar no que dizer às pessoas, saber quem é nosso público e o que queremos dizer a ele", diz Paula de Renor, que está produzindo o Câmbio Festival Internacional de Teatro, previsto para ter sua edição inicial em setembro.

"É o pior momento possível para se inventar coisas novas, estou engatinhando sobre os prazos, com muita vontade e muito esforço. Vamos nos somar ao muito que já existe na cidade", adianta.

Paula conta que nos anos 1970 o Recife chegou a se destacar como o terceiro pólo produtor de teatro do país, e perdeu espaço por conta da falta de apoio. "São ciclos. Quanto maior a crise, mais a gente ousa e experimenta, busca saídas, estuda mais. Hoje temos a consciência de que o desenvolvimento das artes cênicas depende da manutenção de grupos e companhias teatrais. Se isso não existe, não há pesquisa, experimentação, novas propostas estéticas", aponta.

   Senso crítico

Por outro lado, ela comemora o fato de que se está criando uma tradição de se frequentar o teatro. "Antigamente era muito pior, as pessoas só iam ver uma peça se fosse estrelada por um ator global. Hoje se tem mais discernimento do que é bom, se está desenvolvendo um senso crítico. Nossa arte pode até ter um público menor, mas é um público cativo", afirma.

Paula de Renor, produtora e atriz

Paula de Renor, produtora e atriz - Crédito: Gustavo Glória/Folha de Pernambuco


Paula de Renor diz que a falta de políticas culturais prejudica a manutenção de corpos cênicos estáveis, que consigam realizar seus trabalhos de forma mais profunda e a longo prazo. "O que falta para que se dê um salto ainda maior é justamente uma política cultural que assegure a manutenção dessas iniciativas. Por que não se fazem editais voltados para a criação de espaços, nos moldes dos pontos de cultura? Por que não se apoia a produção nos espaços independentes?", questiona.

Espaços de resistência

Uma das grandes queixas dos produtores cênicos recifenses é a falta de políticas públicas específicas para o teatro. Ao contrário do que acontece em relação a segmentos como música e cinema, o Governo Estadual não tem uma linha específica dentro do Fundo Pernambucano de Incentivo à Cultura (Funcultura). Os projetos concorrem dentro do edital geral, que prevê, por exemplo, que um único festival teatral seja beneficiado anualmente (quando, pelos cálculos de Pedro Vilela, do Trema!, existem mais de 15 em todo o estado).

Em nível municipal, a coisa é ainda pior. "A Prefeitura do Recife não tem qualquer ação nesse sentido. Foi tudo diluído, não existe mais lei de incentivo municipal nem prêmios de fomento às artes cênicas, como havia em gestões anteriores. O Departamento de Artes Cênicas foi dissolvido. Hoje, a Prefeitura fica focada nos ciclos, Carnaval, Natal, São João, e deixa de lado trabalhos mais contínuos", descreve o diretor Samuel Santos, fundador do espaço de teatro experimental O Poste Soluções Luminosas.

"A gente tem que re-existir, criando novos espaços para além do oficial, governamental. A gente sai do luto e vai pra luta, fomentando espetáculos, oficinas, cursos, festivais com preocupação estética e política. Tenho muita alegria de fomentar o teatro e tristeza de saber que aqui, oficialmente, não há interesse de se incentivar as artes cênicas. Batalhamos por conta própria e geralmente a remuneração obtida a partir das bilheterias dos espetáculos não dá para cobrir os gastos, pois o máximo que se consegue cobrar num espetáculo local é R$ 30", conta Samuel Santos.

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Pedro Vilela descreve a saga que é conseguir produzir um espetáculo, dentro da atual conjuntura local. "Primeiro, é preciso montar arcando com os custos do próprio bolso, pois é difícil obter patrocínio. Com a obra pronta, é complicado conseguir vaga na pauta dos teatros. Geralmente não se tem verba para divulgação, fazer outdoor, cartaz, e nem sempre se consegue espaço na mídia. Em resumo, tem sido jogada nas mãos dos artistas a total responsabilidade de algo que deveria ser um diálogo entre artistas e o Estado, dentro de uma cadeia de produção cultural", critica.

Pedro Vilela, diretor do Trema! Festival

Pedro Vilela, diretor do Trema! Festival - Crédito: Bernardo Dantas/Divulgação


Ainda segundo ele, quem consegue espaço na pauta dos equipamentos públicos vê seu orçamento se onerar ainda mais: por conta da falta de material, que em alguns teatros beira o sucateamento, é preciso locar equipamento extra (que, em tese, deveria estar disponível para uso, já que se paga pelo aluguel do espaço).

"Isso no Teatro do Parque foi algo levado ao extremo, a ponto de fazer o espaço fechar. Mas de forma geral os teatros públicos funcionam com uma série de limitações, embora eu deva reconhecer que têm um corpo técnico-profissional extremamente qualificado", diz.

Por meio de nota, a assessoria de imprensa da Secretaria de Cultura do Recife informou que "todos os teatros contam com estrutura básica de iluminação e som", e que "quando há alguma demanda específica, a produção do espetáculo faz o aluguel, prática recorrente em todos os teatros, geridos ou não pelo poder público". Através da mesma nota, a Prefeitura listou uma série de incentivos que oferece em relação a artistas e tradições locais, citando orquestras de frevo, quadrilhas juninas e núcleos voltados para a cidadania e profissionalização.

O texto destaca que "para o fortalecimento da linguagem teatral a Prefeitura mantém 28 equipamentos culturais, alguns dos quais considerados os mais atuantes e requisitados da cidade" e "realiza anualmente o Festival Recife do Teatro Nacional, além de oferecer apoio sistemático a diversos e importantes eventos, como Janeiro de Grandes Espetáculos, Trema!, Baile do Menino Deus, Palhaçaria - Festival Internacional de Palhaças do Recife, Festival de Circo do Brasil, Mostra Brasileira de Dança, Festival Estudantil de Teatro e Dança, Festival de Teatro para Crianças de Pernambuco, entre outros".

A nota diz ainda que a atual gestão assegura "condições faciltadas" para acesso à pauta dos teatros locais, com descontos que chegam a 90% do valor de tabela, dentro de equipamentos que, de acordo com a secretaria, estão abaixo do valor de mercado. Sobre a retomada do Sistema de Incentivo à Cultura (SIC), este seria "uma das prioridades do mandato", mas as ações dependem da melhoria da economia e do aumento de arrecadação, por envolver renúncia fiscal e aporte de recursos.

 

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