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Artistas e produtores falam sobre expectativas em relação à Cultura no governo Bolsonaro

Uma das questões mais citadas é a possibilidade de se fundir os ministérios da Cultura, da Educação e dos Esportes

rodutor musical Paulo André Moraes, do Abril pro Rock, elogia investimentos da última década, como os Pontos de Culturarodutor musical Paulo André Moraes, do Abril pro Rock, elogia investimentos da última década, como os Pontos de Cultura - Foto: Arthur de Souza/Arquivo Folha

Enquanto a atriz e jornalista Daniela Câmara está se organizando para ir morar fora do País, o músico e produtor musical Zé da Flauta aguarda ansioso pela posse do presidente eleito Jair Bolsonaro. "Apostar nele foi o que me restou, é o que mobiliza minha esperança", afirma ele. O setor da Cultura espera inquieto pelas mudanças que Bolsonaro vem prometendo desde a época de campanha, e que incluem a possibilidade de extinguir a Lei Rouanet de incentivo e de fundir três ministérios num só, congregando Cultura, Educação e Esportes. Até o momento, porém, nada foi determinado - o que não impede que o assunto seja debatido nas redes sociais, mesas de bar e encontros presenciais de quem lida com o segmento.

"Prefiro esperar para ver como vai ser, mas sempre sou muito positivo diante das situações. E dependendo de quem seja o ministro, posso até apresentar projetos", contemporiza o produtor musical Paulo André Moraes, "descobridor" de nomes como Chico Science & Nação Zumbi e criador do festival Abril Pro Rock. Paulo elogia as ações criadas pelo Ministério da Cultura nas últimas décadas, em especial quando se trata de investimentos na base - como os Pontos de Cultura. "Essa iniciativa levou verba e acesso à internet para dentro dos grupos tradicionais de cultura popular do Brasil inteiro. Hoje temos uma molecada de 25 anos para baixo que é militante dos direitos humanos, da comunicação pública, extremamente antenados. Minha esperança está depositada neles, que vêm se destacando no Brasil e no exterior, especialmente na Europa", conta.

"Tudo o que a gente faz está ameaçado. É óbvio que a cultura vai sofrer mais que outros setores. Primeiro, porque Bolsonaro não tem um alcance para entender o que significa a Cultura para este País; ele confunde Cultura com eventos de diversão, quando é muito mais. Ele não tem ideia da dimensão simbólica e econômica desse setor. Os artistas estão se preparando para represálias, até porque a maioria não votou nele. E é por isso que ele vai atingir a Cultura, por represália e por ignorância", aponta Paula de Renor, que é atriz, produtora e conselheira de Teatro e Ópera no Conselho Estadual de Política Cultural.

Já o vice-presidente do Conselho Municipal de Cultura de Caruaru, o produtor musical Leonardo Salazar, admite que se a promessa de fundir ministérios for cumprida, o protagonismo do Ministério da Cultura será ameaçado. "Vamos dar um passo atrás e voltar ao que existia em 1985", afirma. Salazar, porém, diz que não vê a situação com alarde. "O Ministério da Cultura existe, mas não funciona. Diga aí, uma ação relevante feita por ele. Se acabar, será a última pá de cal. Porque já vinha semi morto desde a saída de Gilberto Gil", critica.

O cantor e compositor Juliano Holanda descreve uma eventual fusão de ministérios como um retrocesso. "Isso já denota o tipo de direcionamento que será adotado por esse governo. Os conceitos gerais de Cultura e Educação são próximos, mas, as pastas, tecnicamente, têm atribuições e responsabilidades distintas", afirma. Além disso, Juliano ressalta a existência de um enorme ruído na compreensão da Lei Rouanet, constantemente criticada por Bolsonaro e seus aliados. "A lei é um importante dispositivo de manutenção e preservação cultural, além de servir para fiscalizar, incentivar e premiar a regularidade fiscal das empresas", comenta.

Como Zé da Flauta, o empresário Tito Lívio (proprietário da casa de shows Downtown Pub) chegou a ter projetos aprovados pelo Ministério da Cultura, mas não conseguiu realizar a captação de recursos através do mecanismo de fomento. "Só tentei uma vez, é difícil. A captação acontece apenas para quem é do esquema", diz Tito Lívio.

Zé da Flauta é ainda mais duro: "A Lei Rouanet deveria se chamar Lei Pilatos. O Ministério aprova teu projeto e depois lava as mãos, e você que se vire para buscar dinheiro através de renúncia fiscal", critica. Para Zé, "quem merece financiamento não recebe, só ganha quem não merece, gente consagrada, que está no auge. Esses conseguem arrancar milhões e depois ainda cobram ingresso caro do público que vai assistir".

Paula de Renor defende a lei. "Há problemas? Sim. Eu mesma tenho dificuldades de captar para meu festival. Mas não é por causa disso que vou dizer que a Lei Rouanet não presta, ainda mais que ela não é só de mecenato. Falaram muitas fake news sobre isso, disseram que as pessoas não prestam contas do dinheiro, quando há controle, auditorias, um processo muito sério", destaca.

   Momento delicado

"Se ele cumprir as promessas que vem sinalizando, vai impedir a sobrevivência de muitos artistas. Sou atriz, vivo da arte há 30 anos e vislumbro a perda de minhas perspectivas de trabalho. É um setor que já vive em dificuldades, e vai ficar muito complicado atuar sem esse suporte", preocupa-se Daniela Câmara. Tito Lívio conta que apesar de seus projetos terem "auxílio governamental zero", o momento está muito delicado.

"Prefiro aguardar, não posso arriscar. Espero e torço para que ele melhore as coisas. Puxei o freio dos eventos, porque o risco é iminente e os patrocínios sumiram. Depois da crise de 2014, a iniciativa privada deixou de apoiar eventos, então têm sido anos terríveis para quem é desse meio", relata Tito, que admite ter votado em Bolsonaro. "Preferi dar um crédito para ver se ele vem com alguma coisa nova", afirma.

"Eu sou a favor da fusão, porque não é o fato de ter um ministério que vai definir o que é cultura, e sim o bom andamento das coisas. A gente precisa de um governo sério, e apostar em Bolsonaro foi o que me restou. Foi a maneira que tive de mobilizar minha esperança", confessa Zé da Flauta.

"Se houver uma junção de ministérios será um retrocesso. Vai prejudicar os três segmentos e principalmente a Cultura, pois esse governo pensa que Cultura é só fomento para os artistas mamarem [nas tetas do Governo], e não algo que traz desenvolvimento social e econômico. Vamos ter que lidar com essa ignorância. Mas não tenho medo. A gente sobrevive a tudo, e vamos buscar novos caminhos. Somos fortes, criativos, e essa situação não será eterna", acredita Paula de Renor. 

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