Artistas promovem arraial para pressionar pela reforma do Teatro do Parque

Equipamento cultural está fechado desde 2010. No evento deste sábado (16), haverá quadrilha, apresentações musicais e venda de camisetas e comidas típicas

Teatro do Parque está fechado há 8 anos. Entorno do espaço está em decadênciaTeatro do Parque está fechado há 8 anos. Entorno do espaço está em decadência - Foto: Arthur Mota/Arquivo Folha de Pernambuco

Esta semana trouxe novos episódios à longa novela envolvendo a reforma do Teatro do Parque. Neste sábado (16), a partir das 18h, artistas e entidades vão promover um grande arraial em frente ao equipamento público, chamando atenção para o fato de que está fechado desde 2010 e antecipando uma grande Virada Cultural, que deve ocorrer em agosto.

O evento vem recebendo apoio do público via redes sociais e vai trazer diversas atrações, como Isaar, Helder Vasconcelos (ex-integrante da banda Mestre Ambrósio), Coco de Umbigada de Beth de Oxum e o Forró Coletivo Só Luiz. Também haverá quadrilha, venda de comidas típicas e comercialização de camisetas, bottons e outros produtos, para arrecadar verba para a manutenção do movimento.

Coincidentemente ou não, a Prefeitura do Recife, responsável pelo teatro, acaba de anunciar a retomada das obras, após a Fundação do Patrimônio Histórico e Artístico de Pernambuco (Fundarpe) ter emitido, no dia 8 de junho, um parecer técnico favorável ao projeto arquitetônico. Segundo nota enviada à reportagem da Folha de Pernambuco, as obras devem ser finalizadas em aproximadamente um ano.

"Quando fizemos a primeira Virada Cultural, em agosto de 2017, a Prefeitura publicou uma licitação de urgência no diário oficial, como se procurasse mostrar que está trabalhando ou para tentar esvaziar o movimento. Depois, suspendeu. Se isso é uma estratégia, não nos afeta. Comemoramos o parecer e esperamos que as promessas sejam mantidas, mas mantivemos a festa deste sábado. Ela está bem organizada e vai dar muita gente que apoia a arte de resistência no Recife", comenta o ator Diógenes D. Lima, membro do Movimento Virada Cultural do Teatro do Parque.

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"A sociedade civil precisa estar a par do que está acontecendo. A Prefeitura tem que firmar um calendário, para que possamos acompanhar o andamento da reforma. O que a gente não quer mais é ser enrolados. Que cumpram o que dizem, porque se não me falha a memória já houve três assinaturas de ordem de serviço e as coisas não andaram. Que essa seja a última vez que anunciam a retomada das obras", critica.

O Arraial, a Virada Cultural, as discussões via redes sociais e a presença contínua em frente ao teatro têm sido a forma que a classe artística vem encontrando para pressionar o poder público. "Toda segunda-feira a gente se encontra na rua do Hospício. Tem microfone aberto, a gente fala, declama poesias. Às vezes, o pessoal do cinema projeta filmes na frente do espaço", descreve o ator Cláudio Ferrário.

"As Segundas no Parque funcionam como uma forma de chamar a atenção e aglutinar as pessoas. Nossa sala de reunião é no bar de Seu Joaquim", brinca Diógenes D. Lima, frisando a importância de estar presente naquele espaço. "Isso ajuda a trazer movimento para a área, que virou uma cracolândia e está abandonada pelo poder público. Muitas lojas fecharam, não há fluxo de pessoas", complementa. Se no passado o entorno do Teatro do Parque era o coração cultural do Centro do Recife, fortalecendo o comércio dos arredores, hoje convive com lixo acumulado, prostituição e violência. 

   Entenda o caso

O Teatro do Parque foi fechado ainda na gestão do prefeito João da Costa (PT), após passar por um longo processo de degradação. Um dos equipamentos culturais mais queridos pelos recifenses, era assiduamente utilizado para apresentações artísticas de teatro, música, dança e cinema.

Em 2012, o teatro foi classificado como Imóvel Especial de Preservação (IEP) e teve a primeira etapa da sua intervenção realizada pela gestão do prefeito Geraldo Julio (PSB), em 2013. "Nesta primeira fase, a Prefeitura investiu R$ 1,1 milhão para sanar os problemas mais urgentes encontrados na estrutura da edificação. Com isso, foi possível cessar a degradação crescente que vinha acontecendo. Todo o madeiramento, além de telhas, calhas e rufo do telhado tiveram que ser substituídos. Tubulações e fiações das instalações elétricas também precisaram ser completamente refeitas, além das instalações hidrossanitárias e do sistema de drenagem do teatro", informa a nota oficial.

Ao todo, estão previstas cinco etapas de obras, indo do reforço estrutural à total recuperação da caixa cênica, e estima-se que o custo total ultrapasse R$ 10 milhões. 

A devolução do Teatro do Parque aos recifenses havia sido planejada para 2015 (quando o teatro completou cem anos), e depois prometida pela atual gestão para 2016, tendo sido adiada por conta da crise econômica. Em agosto de 2017, durante audiência pública para discutir a situação do equipamento, o representante do Gabinete de Projetos Especiais da Prefeitura, João Guilherme Ferraz, chegou a afirmar que o espaço seria reaberto em julho de 2019, prazo que não se sabe se será mantido.

Segundo a assessoria de imprensa da Secretaria Municipal de Cultura, as obras de reforma e restauro foram retomadas no dia 02 de maio e o processo de contratação da empresa vencedora da licitação para execução das obras foi concluído em abril, com custo previsto (para esta etapa) de R$ 5.652.904,38.

"Trata-se de uma obra delicada que envolve não só a reforma, mas, também, o restauro de toda a estrutura predial. Este é um trabalho minucioso que envolveu estudos preliminares feitos pela equipe técnica do Gabinete de Projetos Especiais da Prefeitura, que conseguiu resgatar e registrar as características que o teatro tinha em 1929", diz o texto da nota.

Os artistas queixam-se de falta de diálogo e de transparência no processo. Em janeiro deste ano, chegaram a se acorrentar às grades do equipamento cultural, como forma de protestar contra o atraso nas obras de restauro. Eles também reclamam que não vêm sendo informados acerca do andamento do processo, apesar de existir uma comissão nesse sentido, criada em agosto de 2017 (quando o Teatro do Parque completou 102 anos e foi realizada a primeira Virada Cultural), numa audiência pública realizada na Câmara de Vereadores do Recife.

A Prefeitura contesta, afirmando que "o diálogo está estabelecido" e citando que "no último dia 29 de maio, houve uma reunião da comissão com o presidente da Fundação de Cultura Cidade do Recife, Diego Rocha, e a arquiteta Simone Osias, do Gabinete de Projetos Especiais, no prédio sede da Prefeitura do Recife". O próximo encontro estaria agendado para o dia 11 de julho.

Serviço:

Arraial do Parque
Quando:16 de junho, a partir das 18h.

Segundas no Parque
Quando: toda segunda-feira, a partir das 17h 

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