Solidariedade

Artistas se unem para arrecadar fundos para ações na Cracolândia

Projeto reúne 30 artistas de diversas linguagens e condições sociais

São Paulo - Região entre a Estação da Luz e o Viaduto Santa Ifigênia, conhecida como Cracolândia -São Paulo - Região entre a Estação da Luz e o Viaduto Santa Ifigênia, conhecida como Cracolândia - - Foto: Rovena Rosa/Arquivo Agência Brasil

A iniciativa Birico reúne 30 artistas de diversas linguagens e condições sociais (dormindo na calçada ou em casa) com a proposta de gerar uma economia colaborativa por meio da venda de seus trabalhos. Birico é o nome da iniciativa que junta artistas que vivem na região da Cracolândia e artistas que têm trabalhos que passam por aquele território ou colaboraram de alguma forma para fortalecer a luta diária de quem tem menos condições econômicas e estão expostos à violência das ruas. 

O projeto traz em pé de igualdade trabalhos de quem expõe em grandes museus e galerias e obras que circularam em carroças de materiais recicláveis. Essa reunião de artistas busca formas de apoiar quem vive nesse território estigmatizado, neste momento em que a pandemia acentua as vulnerabilidades e impede a renda com produção artística.

A proposta é criar dois fundos com a venda de pôsteres e impressões de tiragem limitada a preços acessíveis. Os recursos arrecadados serão divididos igualmente entre um fundo para apoiar ações emergenciais na Cracolândia e outro para ser repartido igualmente entre artistas que se envolverem com o projeto.

 

O Fundo da Cracolândia é para ajudar os coletivos que estão no território e continuam com suas ações. Hoje, os coletivos Tem Sentimento, Pagode na Lata e Cia Mugunzá de Teatro estão distribuindo marmitas diariamente, além de máscaras e kits de higiene. Sabendo que a pandemia não acaba agora, os coletivos pretendem continuar a distribuir itens básicos de sobrevivência à pandemia.

O Fundo para Artistas será dividido igualmente entre todas as pessoas que participam do projeto, independentemente das vendas individuais ou do valor de mercado dos trabalhos. A intenção é não haver nenhuma forma de competição, mas fortalecer quem produz arte e não consegue a visibilidade merecida por estar em situação de vulnerabilidade. Uma cooperativa, onde todas as partes se fortalecem.

As obras e os artistas podem ser vistos na página do projeto no Instagram   e o catálogo está disponível neste site.

Arte de rua
Uma das artistas participantes do projeto é Lau Guimarães. Além de artista de rua ela é roteirista e poeta. “É uma honra trabalhar com artistas que trabalham muito na linha de frente, na rua, no acolhimento. É um lugar [Cracolândia] que também trabalho há um tempo e seguir trabalhando num momento desse de fragilidade, que o país inteiro está frágil, imagina como estão as pessoas ali, é um momento que elas precisam e é um lugar para gente se responsabilizar como sociedade”.  

A artista espera que a iniciativa seja uma chance para chamar a atenção da sociedade para as pessoas e para os artistas da Cracolândia. “Espero que o projeto seja uma oportunidade para que as pessoas possam olhar de uma forma mais carinhosa para aquela região, para as histórias das pessoas que moram ali”.

Outro artista que participa é o Cleiton Ferreira, ou apenas Dentinho. Ele frequentou o fluxo da Cracolândia por anos, até ser incluso no Programa de Braços Abertos, onde teve contato com as práticas de pintura e começou a morar nos hotéis sociais, onde vive até hoje. Ele acredita que a iniciativa vai ajudar artistas e quem está nas ruas.

“A iniciativa Birico mostra que é possível evoluir, se socializar. Estamos ajudando os coletivos a fazer um trabalho social que o estado não faz, não vê”. Para ele, a arte salva e diminui os danos. “A arte e a cultura inovam a vida das pessoas e inovam o crescimento e sentimento de uma sociedade. A arte dá um incentivo, a arte me salva. Quando saiu o Projeto Braços Abertos entrei em oficinas de artes e comecei a soltar minha brisa na parede, eu comecei a fazer vários tipos de artes plásticas, gosto do rústico, do urbano, do lixo. Sou o artista que vê o que ninguém vê na via, que transforma o lixo no luxo”.

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