CULTURA

"As sete irmãs": Entenda o sucesso da saga criada por Lucinda Riley, que chega agora ao fim

Oitavo livro da série de 25 milhões de exemplares vendidos, "Atlas: a história de Pa Salt" traz desfecho aguardado pelos fãs

As capas da série 'As sete irmãs', de Lucinda Riley As capas da série 'As sete irmãs', de Lucinda Riley  - Foto: Divulgação

Os dois anos de expectativa pelo oitavo e último livro da série “As sete irmãs” foram angustiantes para os fãs de Lucinda Riley. Para piorar, a espera foi acompanhada de um trauma: a morte da best-seller irlandesa em junho de 2021, vítima de um câncer, aos 56 anos.

O lançamento de “Atlas: a história de Pa Salt” (Arqueiro), portanto, chega com um peso emocional suplementar. Coube ao filho Harry Whitaker a tarefa de completar a saga iniciada pela escritora em 2014, e que vendeu 25 milhões de exemplares reunindo cinco ingredientes indispensáveis: heroínas fortes, segredos familiares, mitologia grega e temporalidades simultâneas em diferentes cantos do mundo.

— A existência desse oitavo livro é um milagre — diz Whitaker, em entrevista via Zoom. — É ao mesmo tempo uma celebração e um grande adeus. Porque os leitores sentem essa rara conexão com a série das “Sete irmãs”. Não é só uma conexão com Lucinda, mas também com os personagens e com as locações que ela criou.

Desde maio, “Atlas: a história de Pa Salt” já vendeu 20 mil exemplares nas livrarias brasileiras, de acordo com a Arqueiro. Este mês, o livro alcançou a sexta posição da lista da Publish News. Em diversos países, porém, já tinha chegado ao primeiro lugar na Amazon antes mesmo de seu lançamento global. Mas de onde vem o sucesso da série?

Enigmas do passado
Primeiro, a originalidade da premissa: fazer uma releitura épica das Plêiades, como eram conhecidas as filhas de Atlas e Peione, que foram perseguidas pelo caçador Órion. Plêiades também é o nome do aglomerado estelar popularmente conhecido como sete-cabrinhas. Foi olhando para o céu em uma noite fria do norte da Inglaterra que Lucinda teve a ideia de criar uma saga de dimensão mitológica e espiritual.
 

Maia, Electra, Taigeta, Ally, Ceci... Os nomes das personagens podem passar em branco aos não iniciados, mas para os fãs da série representam um mundo de mistério e curiosidade. De título em título, e sempre em camalhaços de no mínimo 500 páginas, Lucinda vai desvendando os segredos de cada uma das irmãs em questão, que foram adotadas em diferentes lugares do mundo pelo enigmático bilionário Pa Salt. Ao morrer, ele deixa às filhas apenas algumas pistas sobre as verdadeiras origens delas. A obra final, por sua vez, responde ao maior dos segredos: Quem é, de fato, Pa Salt e por que ele adotou as mulheres?

Viagem na poltrona
Ao narrar as jornadas de autodescobertas das irmãs, a autora leva o leitor a transitar entre passado e presente, cruzando fronteiras e oceanos. Do Brasil à Austrália, passando por Noruega, Espanha, Irlanda e outros tantos países, a série é um case de “turismo” literário e de delírio escapista. Não à toa suas vendas cresceram ao longo da pandemia, quando as pessoas não podiam sair de casa.

— Os leitores se sentem como se tivessem viajado ao redor do mundo, mesmo estando sentados em sua sala com o livro na mão — diz Whitaker.

Leitura frenética
Lucinda é considerada exemplo entre mestres do page-turner — expressão em inglês para narrativas envolventes, que fazem o leitor virar a página freneticamente para saber o que vai acontecer. A carioca Isabel Murad é exemplo de como seu estilo fisga de forma instantânea. Até três meses atrás, a psicóloga de 69 anos sequer conhecia a existência da saga. Quando falou com a reportagem na semana passada, já estava na página 50 do oitavo volume. Devorou cerca de 4 mil páginas em 90 dias.

— O primeiro livro caiu na minha mão por causa do Kindle e não consegui mais parar de ler — diz. — O que captura a atenção é que nos livros você fica sempre entre o passado e o presente, então quer resolver a trama anterior antes de voltar à atual e entender como isso vai impactar a situação das filhas. Sabe aquela frase “quem não gosta de ler vive uma vida, quem gosta de ler vive duas”? Eu acrescentaria: “e quem gosta de Lucinda vive o dobro”.

Da janela, o corcovado
Se Lucinda faz sucesso no Brasil, é — em parte — porque o Brasil fez sucesso com Lucinda. A relação de intimidade e interesse vem sendo recíproca há quase uma década. Uma das tramas do primeiro livro da série, sobre o passado de Maia, tem como pano de fundo a história real da construção do Cristo Redentor. A ideia surgiu após a primeira passagem da autora pelo Brasil, na qual ela se encantou com o monumento — e também com os brasileiros.

— Durante um jantar, passei a noite ouvindo sobre a rivalidade entre Rio e São Paulo — contou a autora ao GLOBO em 2014. — Descobri, então, que ela havia começado nos anos 1920, quando a estátua do Cristo foi construída.

Em outra passagem por aqui, na Bienal do Livro de São Paulo de 2016, ela disse ter vivido o seu “momento Madonna”, em referência aos fãs enlouquecidos. Também revelou que nunca sentiu em outros países o que o Brasil despertou nela.

Abalou Bangu
Lucinda tinha um melhor amigo no Brasil: o analista de marketing digital na Sextante, Fernando Mercadante. Em 2015, ele era apenas um trainee na empresa quando descobriu que a irlandesa queria trocar de editora no Brasil. E levou a informação para a Sextante, que adquiriu os direitos para publicar a série por aqui por meio de um dos selos do grupo, a Arqueiro.

Mercadante teve uma conexão imediata com Lucinda, e a acompanhou durante toda sua passagem pelo Brasil em 2017. Nas disputadas sessões de autógrafo, agiu quase como um guarda-costas (“Foi tipo aquele filme com a Whitney Houston”, conta ele). Uma noite, ela deixou o Copacana Palace para jantar na casa dele em Bangu.

— Depois foi minha vez visitá-la em Londres, nas minhas férias — diz Mercadante.— Trocávamos mensagens até os últimos momentos (da vida dela). Lucinda não se preocupava tanto com vendas, e sim como sobre as suas histórias estavam impactando as pessoas.

Possível série
“As sete irmãs” se tornou um fenômeno em diversos grandes mercados editoriais — como a França, por exemplo, onde Lucinda é a terceira autora estrangeira mais lida. Lá, o lançamento de “Atlas: a história de Pa Salt” fez leitores organizarem maratonas de leitura nas redes sociais, dedicando um dia inteiro ao livro. Aliás, 90% das vendas da saga foram em países não anglófonos, caso raríssimo na literatura do Reino Unido.

De acordo com Whitaker, há ainda dois mercados proeminentes que a autora ainda não conseguiu conquistar: os americano e o asiático. Isso pode mudar com a adaptação para uma série de TV com sete temporadas, que deve ser anunciada ainda este ano. Seria a segunda tentativa de adaptação, já que uma produtora de Hollywood chegou a planejar um filme em 2016, que nunca saiu do papel.

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