Crítica

Autoral e ambicioso, 'Eternos' rompe com fórmula de sucesso da Marvel

Novo longa-metragem é dirigido por Chloé Zhao e apresenta heróis criados nos quadrinhos em 1976

"Eternos", novo filme da Marvel"Eternos", novo filme da Marvel - Foto: Marvel Studius/Divulgação

Desde o seu anúncio, o nome de Chloé Zhao à frente de "Eternos" vem gerando um misto de espanto e curiosidade. Afinal, a diretora vencedora do Oscar por "Nomadland" é conhecida por seu cinema experimental, algo que destoa completamente do rentável modelo criado e exaustivamente repetido pela Marvel em seus filmes. O resultado desse casamento pouco provável finalmente chega aos cinemas brasileiros, com sessões de pré-estreia marcadas para hoje.

Para os fãs mais "puristas" do MCU (Universo Cinematográfico da Marvel), o novo longa-metragem pode causar certo estranhamento. É que o trabalho se distancia em grande parte das fórmulas pré-estabelecidas e que levaram multidões ao redor do mundo às salas de exibições na última década. Tal desprendimento, no entanto, gerou um filme com viés mais artístico, que tira o estúdio norte-americano de sua zona de conforto e o joga em uma aventura ambiciosa e original.

O longa apresenta ao público um novo grupo de heróis, que nasceram nos quadrinhos em 1976. Os Eternos são uma espécie criada pelos Celestiais, seres cósmicos responsáveis pelo surgimento de vida no universo. Eles são enviados à Terra para protegê-la dos Deviantes, uma raça de predadores alienígenas. Vivendo no planeta há 7 mil anos, os guerreiros imortais permanecem no anonimato, influenciando a cultura e a ciência, mas sem permissão para interferir nos conflitos humanos.



Ônus e bônus

A equipe é composta por dez membros com poderes distintos: Ajak (Salma Hayek), Ikarus (Richard Madden), Sersi (Gemma Chan), Duende (Lia McHugh), Thena (Angelina Jolie), Kingo (Kumail Nanjuani), Druig (Barry Keoghan), Makkari (Lauren Ridloff), Phastos (Bryan Tyree Henry) e Gilgamesh (Ma Dong-seok). Com uma narrativa não-linear, que usa e abusa de flashbacks para mostrar os personagens em momentos históricos, Chloé foca mais em contar as histórias de cada um dos heróis do que na ação em si.

Na trama, após milhares de anos combatendo juntos os Deviantes, os Eternos vivem suas vidas longe um do outro, como pessoas comuns. O retorno inesperado dessas criaturas monstruosas é o que faz o grupo se reunir outra vez. Além de ressuscitar traumas do passado, esse reencontro traz descobertas surpreendentes sobre a origem e a real missão dos guardiões da Terra. O ritmo frenético de filmes como "Vingadores: Ultimato" (2019) dá lugar a uma trama com fundo místico e filosófico, que parece não ter pressa para mostrar a que veio.

Ao optar por um número tão grande de protagonistas, a diretora chinesa arca com o ônus e bônus da sua escolha. Por um lado, há um claro avanço em termos de diversidade, com personagens negros, asiáticos, latinos e, pela primeira vez, um homossexual e uma surda como superheróis. A duração de 2 horas e 37 minutos, no entanto, não é suficiente para o desenvolvimento aprofundado de todos os personagens. Grandes estrelas de Hollywood, como Salma Hayek e Angelina Jolie, têm suas participações no filme praticamente reduzidas a convidadas de luxo.

Os obcecados por discutir teorias devem ficar decepcionados, já que o roteiro traz poucas referências às outras produções do MCU e não parece apontar muitas pistas sobre o que vem por aí. As duas cenas pós-créditos podem ajudar a saciar um pouco dessa sede, já que elas introduzem os atores Kit Harington e Harry Styles como o Cavaleiro Negro e Eros, respectivamente.

Visualmente, o longa proporciona um verdadeiro show aos fãs. Utilizando suas paisagens naturais e menos recursos computadorizados do que em outras obras da franquia, o filme traz belas tomadas em plano aberto e recriações bem realistas de arquiteturas de antigas civilizações. Já o figurino dividido por cores e com detalhes dourados dos heróis faz com eles pareçam uma mistura genérica de "Power Ranger" e "Cavaleiros do Zodíaco".  

Chloé quebra tabu

É válido ressaltar a ousadia de Chloé no comando do longa. A cineasta não hesitou em quebrar um dos principais tabus da Marvel: a sexualidade. Feito inédito em uma produção do estúdio, "Eternos" traz uma cena de sexo (ainda que nada reveladora) e outra de um beiho gay, ambos tratados com total naturalidade e inseridos no contexto da trama. A iniciativa pode ser a explicação para algumas das notas ruins que o longa vem atingindo no Rotten Tomatoes, site agregador de críticas, mas aponta para um futuro mais livre e menos conservador entre as obras da empresa.  

 

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