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BBB das contradições: 'cancelamento' e militância em jogo

Lucas Penteado sofreu pressão de Lumena e outros participantes negros antes de desistir do jogoLucas Penteado sofreu pressão de Lumena e outros participantes negros antes de desistir do jogo - Foto: Reprodução / rede Globo

Quando a edição do Big Brother Brasil deste ano foi anunciada com maior paridade entre participantes negros e brancos, a expectativa criada era de um programa com o tema do racismo no centro do debate. Mas depois do desenrolar da convivência na casa e suas repercussões na opinião pública, no entanto, o reality ganhou outra dimensão e complexidade. Com menos de um mês de programa, o tema da cultura do cancelamento passou a ser o foco principal, reverberando em posicionamentos de influenciadores e de representantes de movimentos sociais do País.

A estratégia inicial de Lucas Penteado de unir todos os negros da casa para "eliminar" os participantes brancos, na primeira semana de convivência, não teve adesão de ninguém do confinamento. Essa atitude, inclusive, mereceu uma "enquadrada" particular do rapper Projota, que o aconselhou sobre rever seus erros. A conversa do artista com Lucas chegou a ser elogiada ao vivo pelo apresentador Tiago Leifert, o que talvez tenha confundido a leitura do cantor no jogo, pois após o comentário ele passou a ver o jovem como alvo.

Mas foi mesmo a reação de Lucas ao ser rejeitado por Kerline, uma mulher branca, que o faria ser sumariamente cancelado pelos participantes. Talvez pautados pelo debate da edição anterior do programa, quando a reflexão sobre o machismo definiu o destino do jogo, os participantes passaram a ver o jovem como o “macho opressor” a ser combatido. 

A partir daquele momento, ele viraria o foco da casa, sobretudo do núcleo que estava acabando de se formar, composto pela cantora Karol Conká, o rapper Projota e o humorista Nego Di - do lado dos artistas - e da psicóloga Lumena, uma ativista negra, integrante do lado dos participantes não famosos. Sem perceber, todos estavam caindo na armadilha de um debate ainda despercebido pelos jogadores: o cancelamento que levaria à desistência de Lucas de participar do BBB 21.

Diante do isolamento, perseguição e tortura psicológica que Penteado passaria a sofrer no programa, protagonizados por personalidades que eram vistas como referências progressistas, foram abertas feridas que mudaram a percepção dentro e fora casa, antes e depois de sua desistência. Na casa, Lucas ficava cada dia mais cancelado. Fora, passava a ganhar a simpatia e adesão do público, enquanto seus algozes, ex-ídolos, agora eram vistos como vilões. 

Mas, afinal, qual o impacto na sociedade das contradições trazidas por personagens antes venerados por seu ativismo sobre bandeiras de lutas de minorias? O que fez Karol Conká, por exemplo, uma mulher negra que era cultuada por seu empoderamento feminino, do dia para a noite, ir do céu ao inferno e perder milhares de seguidores, contratos e apoio? E Projota, Nego Di e Lumena, personalidades negras que se colocaram como protagonistas na casa, o que os fez virarem desafetos do público?

"O que está meio que deslegitimando os nossos avanços sociais e nossa fala realmente são eles. O quarteto que costumo dizer que são o ‘gabinete do mal’. São pessoas que falam porque ouviram alguém falar e não aplicam aquilo na sua própria vida", avalia a aIyabassé, pesquisadora e influenciadora Dona Carmem Virgínia. Contudo, ela aponta que outros participantes brancos também cometeram erros, mas o peso do erro de pessoas negras sempre provoca maior repercussão, pois diante de tantas barreiras para conquistar e se afirmar nos espaços, fica a impressão de que pessoas negras precisam acertar sempre.

"Quem está aqui fora tem o dever de dizer que nem todo negro é igual. Cabe a gente dizer que negro também erra. Mas quando ele erra, erra de uma forma muito maior. Na visão do outro, o negro não pode errar. Fui criada dessa forma e isso é muito perverso. O tempo todo vivo com isso na cabeça, de que não posso errar porque senão vou estar fechando a porta de um povo inteiro. Porque se um negro chega em um espaço como esse e faz 'cagada' ele corre o risco de fechar a porta para os demais", explica Dona Carmem.

O professor e doutor em Sociologia pela UFPE, Heitor Rocha, destaca a herança colonial reproduzida no programa. “É uma coisa terrível, pois estamos falando dos mecanismos de dominação, da violência simbólica que é essa de fazer o dominado internalizar a visão de mundo do dominador, do colonizador. Essas pessoas absorvem valores do dominador”, afirma.

Segundo Heitor, a cultura do cancelamento que o programa amplifica é apenas uma representação do que é a sociedade brasileira. “Isso coloca em evidência algo que as pessoas já conhecem no seu dia a dia, mas com uma lupa, um zoom da mídia, da televisão. Gilberto Freyre já falava sobre isso quando abordava essa relação sádico-masoquista que a casa grande com a senzala estabeleceu. Há na nossa sociedade um certo gosto pelo sadismo, de humilhar o mais fraco, de abusar. Como também, por parte do dominado, um certo masoquismo. Segundo Marcuse, a indústria cultural faz as pessoas beijarem os grilhões que os acorrentam”, destaca.

“[O cancelamento] por um lado, tem justiça. Mas, por outro lado, o da perversidade, a marca da escravidão”, reflete o sociólogo. “Por exemplo, a menina que fez bullyng (Karol Conká), que era tida com uma referência, uma artista de esquerda, progressista, das minorias, de repente desmascarou seu lado perverso. A mídia que faz esse exagero. É muito uma característica da mídia televisiva”, critica.

O tribunal da internet
Em um ambiente em que tudo é amplificado à máxima potência, o julgamento e a execração pública nos coloca diante de uma questão moral. Até que ponto o cancelamento deve destruir a vida e a carreira das pessoas julgadas? E como elas poderão, mesmo se depois decidirem reconhecer seus erros, seguir em frente diante de tantas agressões e ameaças que passaram a receber, não só contra si, mas também envolvendo seus familiares? 

Mesmo com duras críticas aos “canceladores” dentro da casa, Dona Carmem Virgínia lembra que a empatia é importante, sobretudo para pessoas que vivem o racismo na pele. “Eu venho de um pensamento que diz que a gente não deve criticar um irmão de cor publicamente, porque assim a gente fornece armas para o racista. Mas quando está dessa forma tão aberta e tão escancarada a gente tem que falar, até para que as pessoas saibam que não é todo mundo desse jeito. Isso não faz parte da nossa linguagem”, afirma.

Dona Carmem enxerga a postura de Lumena como um desserviço aos movimentos sociais. “A Lumena no Big Brother está me silenciando em lutar pelas causas que ela diz que representa. Eu não tenho mais coragem de chegar para um amigo para tentar explicar sobre essas causas. As pessoas vão achar que eu sou chata igual a ela. Eu não vou ter mais coragem”, confessa, avaliando que a participante talvez seja a mais prejudicada ao sair do programa, pois não era rica nem famosa como os demais. 

Apesar de discordar das posturas, a influenciadora se disse preocupada com a execração pública dos artistas. “Eu não desejo que a Karol tenha a vida dela tirada e que ela não tenha mais abertura para cantar, não tenha mais espaço. Não concordo com esse cancelamento. Karol perdeu muito. É uma mulher que tem um filho de 15 anos, uma criança preta”, lamenta. 
“Quero que eles reflitam, passem algum tempo na deles e procurando ver tudo e notar onde está o erro”, desejou Dona Carmem.

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