Beatles popularizaram mundo afora a música lisérgica

Livro “LindoSonho Delirante”, do jornalista e pesquisador paulistano Bento Araújo, traça panorama dos 100 discos nacionais lançados entre 1968 e 1975

Governador Paulo Câmara (PSB) participou de mais um evento do Consórcio NordesteGovernador Paulo Câmara (PSB) participou de mais um evento do Consórcio Nordeste - Foto: Demis Roussos / GovRN

 

Embora não seja considerada a maior banda psicodélica de todos os tempos, os Beatles popularizaram mundo afora a música lisérgica com a sua produção entre 1966 e 1967. A música “Tomorrow Never Knows”, do álbum “Revolver”, por exemplo, é tomada como ponto de partida pelo jornalista e pesquisador paulistano Bento Araújo para o nascimento da música psicodélica brasileira, que é mapeada no seu livro “LindoSonho Delirante”. Ao todo, o trabalho resenha 100 discos nacionais lançados entre 1968 e 1975 sobre influência e posterior recriação do acid rock vindo dos Estados Unidos e Inglaterra.
Incluindo títulos como “Grande Liquidação”, de Tom Zé; o homônimo de estreia de Gal Costa e “Carlos, Erasmo”, de Erasmo Carlos, a lista usa uma avaliação bem abrangente de psicodelia ao trazer discos que não são habitualmente classificados como tal. “Tentei contextualizar olhando em retrocesso para tentar criar uma cena, porque, olhando atentamente, o Brasil não teve uma cena de rock psicodélico, isso foi algo que veio mais na virada do século. Por isso, incluí também o Clube da Esquina, que não é estritamente psicodélico, mas tinha influências dos Beatles. Se fosse mais rígido, acho que só teria uns 30 discos para resenhar, mas fui mais amplo, coloquei até uma galera da Bossa Nova”, explica ele, sobre a entrada de “A Bad Donato”, de João Donato, e “Vento Sul”, de Marcos Valle.
No texto, o autor descreve o processo de produção de Donato para o disco de 1970. Vivendo nos Estados Unidos e bastante influenciado por Jimi Hendrix, Sly Stone, Miles Davis e pelo consumo de LSD, o músico criou o seu álbum mais experimental até então, que se tornou um marco para o jazz fusion. As informações são fruto de cerca de 13 anos de pesquisa, quando o jornalista criou o fanzine poeira Zine, para o qual entrevistou vários dos compositores que entraram no material. No entanto, cada disco conta com um texto breve que não entra em muitos detalhes, mas serve como material introdutório para quem ainda não conhece tanto esse recorte musical.
“Tomei cuidado para não ficar muito pessoal, porque eu queria algo mais enciclopédico. Usei a ordem cronológica para listar os discos e quando eram do mesmo ano, fui pela numeração do selo”, comenta ele, que preferiu não enumerar por relevância. No entanto, Bento assume que, se fosse preciso fazer um ranking, se dividiria entre “Tropicalia ou Panis Et Circenses” e “Paêbiru”, do pernambucano Lula Côrtes e do paraibano Zé Ramalho. “Em termos de relevância, se fosse considerar a psicodelia ao pé da letra, o ‘Paêbiru’ seria o primeiro lugar, mas no sentido de importância para a cultura pop brasileira, o pódio seria do ‘Tropicalia’. Considero o ‘Tropicalia’ nosso primeiro movimento psicodélico por excelência mesmo. Ele traz toda a herança dos Modernistas de 1922, fizeram uma antropofagia com os Beatles e fizeram uma música brasileira super nova. Por isso, achei emblemático começar o livro com esse disco e terminar com o ‘Paêbiru’”, resumiu ele.
Pernambucanos
Lula Côrtes ainda figura na lista outra vez por conta do álbum “Satwa”, feito em parceria com Lailson de Holanda. O Estado é bem representado também por outros nomes, como Alceu Valença, que entra com “Quadrafônico”, ao lado de Geraldo Azevedo, e com “Molhado de Suor”; a banda Ave Sangria, com o homônimo de 1974; e Marconi Notaro, com o seu único disco “No Sub Reino dos Metazoários”, todos considerados parte do movimento Udigrudi.
“A psicodelia pernambucana se dá pela ousadia. Foi algo que Os Mutantes também fizeram, de soar genial com a falta de recursos, mas soava como uma banda inglesa. Os pernambucanos foram isso, só que totalmente underground. Fiz questão de botar todos, mas por conta do recorte até 1975, não entrou o de ‘Flaviola e o Bando do Sol’, que é de 1976, mas é um dos meus favoritos”, lamentou Bento, que acompanha o cenário pernambucano até hoje.
Colaborações
Viabilizado por uma campanha de financiamento coletivo, o livro foi feito com a ajuda de vários amigos. “Quis usar as capas originais dos discos e achava que o disco de Alceu e Geraldo se chamava ‘Quadrafônico’, mas um colecionador russo entrou em contato comigo e me mostrou a primeira edição, que não tinha o título, somente o nome dos dois. Essa edição que tem o ‘Quadrafônico’ escrito é de 1976, a original mesmo, que é de 1972, tem só o nome deles, mas acho que depois eles acabaram se apropriando”, exemplificou ele, sobre o auxílio dos interessados. Inclusive, a procura do mercado internacional por esse segmento da música nacional também determinou que cada texto tivesse uma tradução em inglês ao lado.

 

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