Biografia expõe as múltiplas atuações de Frei Betto

“Sou um ser essencialmente político. A igreja incentiva, é uma consequência da minha fé", disse o frei dominicano em entrevista incluída na biografia

Mais de 1,6 mil instrumentos musicais foram entregues às gerências regionais nesta quarta, beneficiando mais de 100 escolasMais de 1,6 mil instrumentos musicais foram entregues às gerências regionais nesta quarta, beneficiando mais de 100 escolas - Foto: Hélia Scheppa

 

Apesar de ter seu nome muito vinculado ao do ex-presidente Lula, Frei Betto nunca foi filiado ao Partido dos Trabalhadores nem a qualquer outra sigla. Esteve, sim, ao lado de Lula em vários momentos; foi um de seus assessores na primeira campanha à presidência da República, em 1989, mas sempre por ideologia. “Sou um ser essencialmente político. A igreja incentiva, é uma consequência da minha fé. Não há um Betto religioso separado de um Betto político”, disse o frei dominicano em entrevista, segundo consta em “Frei Betto: biografia”, livro lançado pela editora Civilização Brasileira.

Aliás, essa relação com a política norteia uma das partes interessantes do livro. Em relação à campanha presidencial de 1989, a direita estava na figura de Fernando Collor (o eleito, levado para o Planalto pela maioria mais conservadora) e a esquerda representada por Lula e por Leonel Brizola - este, acusando a Igreja de estar apadrinhando a campanha petista. Em resposta, Frei Betto publicou, na Folha de São Paulo, o artigo “Os ataques de Brizola à Igreja”, no qual dizia que a postura do candidato demonstrava, entre outras coisas, sua ignorância sobre a história da instituição nas últimas décadas. “Para Betto, Brizola errava ainda em deixar de reconhecer o papel que a Igreja exercera no processo de democratização do País, ao lado de outras forças sociais. ‘Sem a anistia’, afirmava, ‘Brizola não estaria aqui cuspindo no prato que comeu’”, registra o livro.

Existem na obra várias frações de quem é frei Betto (como é mais conhecido o mineiro Carlos Alberto Libanio Christo): religioso dominicano (entrou em um convento em 1965 e não saiu mais), irmão dedicado, ser político, jornalista, repórter, alguém que viveu na clandestinidade, com experiência até em teatro, participante de movimentos populares, ícone da Teologia da Libertação. Um personagem multifacetado assim, cuja história é arraigada na história brasileira, é um prato cheio para autores como o historiador, doutor em História Social, Américo Freire (um dos organizadores de “A razão indignada: Leonel Brizola em dois tempos”), e a jornalista Evanize Sydow (autora da biografia “Dom Evaristo Arns, um homem amado e perseguido”), o que resulta em um livro de conteúdo denso, cheio de detalhes, mas narrativa leve e fluida.

Betto e Fidel
A biografia começa com o furacão Kate arrasando Cuba, em 1985. O fenômeno atingiu a impressão de “Fidel e a religião: conversas com Frei Betto”, que viria a ser um dos maiores best-sellers da história editorial cubana, ultrapassando os 360 mil exemplares na primeira edição (que só não foi maior por causa do furacão). Essa publicação tanto explicita os laços entre os dois quanto foi uma grande surpresa para os cubanos e o mundo: nela Fidel afirma ser necessária a união entre cristãos e comunistas e que “para ser marxista não é necessário deixar de ser cristão”. Tudo dito em uma conversa de mais de 23 horas que virou amizade.

Como relata Frei Betto, Fidel certa vez afirmou que havia “10 mil vezes mais coincidências entre o cristianismo e o comunismo do que as que poderia haver com o capitalismo”. “Não vamos criar divisões entre os homens. Vamos respeitar as convicções, as crenças, as explicações. Cada um que tenha sua posição, que tenha sua crença. Contudo, no terreno dos problemas humanos, que interessam a todos e são dever de todos, é precisamente nesse terreno que temos de trabalhar”.

É justamente de Fidel Castro o prefácio do livro, escrito pouco mais de um ano antes da morte do presidente cubano. O texto é uma franca demonstração de apreço, onde Fidel rememora com exatidão o momento em que conheceu Betto: 19 de julho de 1980, quando o presidente visitava Manágua, capital da Nicarágua, “por ocasião do primeiro aniversário da Revolução Sandinista”. E nessa generosa descrição, o dominicano é narrado como alguém culto, de “profundas convicções”, mais que solidário com os mais pobres, um agente de mobilização popular. Fidel trata de Frei Betto como um homem justo, capaz de defender pontos de vista diversos dos seus; aberto, então, ao diálogo e à compreensão.

 

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