Luto

Cacá Diegues: 'Arnaldo Jabor era obcecado por botar o Brasil nos trilhos certos'

Em depoimento ao GLOBO, cineasta e colunista fala de amizade com o colega "um irmão" que conheceu no colégio e destaca importância de sua obra

Cacá Diegues (esquerda) / Arnaldo Jabor(direita) Cacá Diegues (esquerda) / Arnaldo Jabor(direita)  - Foto: Divulgação/Reprodução Instagram

Arnaldo Jabor costumava dizer que, além de sua mãe, apenas Cacá Diegues o chamava de... "Arnaldo". Os dois se conheceram no Colégio Santo Inácio, em Botafogo, na Zona Sul do Rio de Janeiro, numa época em que "o sobrenome dos amigos não dizia absolutamente nada", como ressalta Cacá.

"Para mim, ele sempre foi o Arnaldo, a pessoa com quem eu tinha a maior confiança", afirma o cineasta e colunista do GLOBO, sobre o amigo a quem chama de "irmão", morto nesta terça-feira (15), aos 81 anos, vítima de complicações de um AVC. Em depoimento ao GLOBO, transcrito a seguir, Cacá Diegues fala da amizade entre eles e destaca a importância da obra do diretor de pérolas do cinema nacional, como "Eu sei que vou te amar" (1986) e "Toda nudez será castigada" (1973).

"Conheci o Arnaldo no Colégio Santo Inácio, quando ainda éramos adolescentes, com 15 ou 16 anos de idade. Depois, fomos juntos para a PUC-Rio, fizemos cinema juntos... E a nossa vida passou a estar muito ligada. É difícil falar sobre um grande amigo que acabou de morrer. Lembro de tanta coisa.

Recordo-me, por exemplo, como conheci o Arnaldo: ele tinha um grupo de teatro, na época do colégio, e eu fui lá me inscrever. E Arnaldo me deu um papel, numa peça sobre os bandeirantes, em que eu ficava no fundo do palco pedindo água, e o personagem acabava morrendo de sede no final das contas. Aquilo tudo me marcava.

Ficamos amigos, e aí começamos no teatro, depois veio o cinema... E a vida foi começando a embolar a gente, sabe? Virei padrinho do filho da filha dele, e ele virou padrinho do meu filho. Ele era, no fundo, meu irmão, a pessoa com quem eu tinha a maior confiança.

De certa forma, fui o responsável pela entrada dele no cinema. Eu o ficava sacaneando com o negócio de teatro, dizendo que ele tinha que ir para o cinema. Era brincadeira, né? E Arnaldo acabou fazendo um filme, o primeiro dele, em que fui montador. Era um documentário ("A opinião pública") sobre língua. A partir disso, atraí ele para o cinema.

Jabor era como todos nós da minha geração. Era uma pessoa obcecada pela coisa de botar o Brasil nos trilhos certos, no caminho que todos nós achávamos que o país tinha que percorrer. E ele fez isso no teatro, no cinema e no jornalismo. Arnaldo se tornou uma estrela do jornalismo brasileiro, porque tinha uma capacidade de irreverência e, ao mesmo tempo, de dizer a verdade de uma maneira clara, sem nenhum problema. Isso influenciou, de certo modo, o cinema dele.

"Eu sei que vou te amar" me causou uma espécie de choque, porque é um filme que me despertou para uma coisa que eu não conhecia no cinema brasileiro, e que o Arnaldo Jabor praticava com muita habilidade. Há ali um certo humor cáustico, pautado por um grande sentimento de desconforto com a realidade. Isso havia muito nos filmes dele.

Além de ser meu grande amigo, Arnaldo Jabor foi um grande cineasta. Mais do que um cineasta, foi um grande intelectual. Era uma pessoa que pensava o Brasil, o mundo e tudo o que está acontecendo na atualidade".

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