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Carlos Ranulpho tem trajetória reconhecida em biografia lançada pela Cepe

Livro sobre o mais importante marchand pernambucano será lançado nesta quinta-feira (30), na galeria de arte Ranulpho, juntamente com uma nova exposição de arte

Carlos Ranulpho em 1929, em foto de famíliaCarlos Ranulpho em 1929, em foto de família - Foto: Acervo Carlos Ranulpho /Divulgação

Nesta quinta-feira (30) vai ter festa na rua do Bom Jesus: é quando será lançado o livro "Carlos Ranulpho: o mercador de beleza", gerando um excelente motivo para abrir uma nova exposição de arte com obras de Lula Cardoso Ayres, Vicente do Rego Monteiro, Reynaldo Fonseca, Juarez Machado, Wellington Virgulino, João Câmara, Siron Franco, Alcides Santos e Aldemir Martins - alguns dos nomes mais significativos na trajetória do marchand, que atua no ramo há nada menos que 50 anos.

Sinônimo de dedicação e qualidade, Ranulpho não é modesto nem falta à verdade quando declara que fundou o mercado de arte no Recife, nos anos 1960. "Antes de mim, aqui não havia galerias. Fui eu quem inaugurou isso", afirma, categórico.

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Os olhos brilham ao folhear o volume de 247 páginas, produzido pelo jornalista Marcelo Pereira com base em mais de um ano de encontros frequentes. O texto esmiuça a vida e a atuação de Ranulpho, da infância aos dias atuais.  Lançado pela Companhia Editora de Pernambuco, a obra integra a Coleção Memória, que conta a história de pernambucanos importantes em vários ramos de atuação.

Do alto de seus 89 anos, Ranulpho reage com serenidade diante do reconhecimento à sua trajetória de trabalho e luta. "Só posso estar muito feliz e gratificado, diante de tudo o que fiz. Este livro só vai me estimular a ficar ainda mais exigente comigo mesmo, com o que já sou", promete.

De texto fácil e com muitas imagens, mesclando os lados pessoal e profissional, o livro flui e certamente agradará aos leitores. "Sei que muita gente talvez venha a comprar por obrigação, por uma questão social. E então vai dar uma folheada e deixar o livro de lado. Mas a maioria vai se interessar em conhecer minha vida", imagina o biografado.

O fato é que a obra traz muitos aspectos pouco conhecidos sobre o marchand. A começar por sua origem: filho de dona Maria José das Neves ("uma mulata muito bonita e prendada", orgulha-se Ranulpho) e do desenhista João Ranulpho Lopes de Albuquerque, mais conhecido como J. Ranulpho, o pequeno Carlos conviveu desde cedo com a arte.

O pai trabalhava fazendo caricaturas para jornais e desenhos para anúncios publicitários, mas vivia pobremente, apesar de gozar de certa fama. "Eu levava muito jeito para o desenho mas, diante do miserê que meu pai enfrentava, isso nunca me entusiasmou", admite.

O jovem precisou começar a trabalhar aos 15 anos, para ajudar seu João (que contraiu tuberculose numa época em que a doença não tinha cura e foi aposentado por invalidez).

O desenhista J. Ranulpho foi inspiração para o filho

O desenhista J. Ranulpho foi inspiração para o filho - Crédito: Acervo Carlos Ranulpho /Divulgação

Arrimo de família, Carlos Ranulpho foi prestamista por muito tempo, vendendo, de porta em porta, tecidos e joias. Tornou-se joalheiro, abriu uma loja de produtos finos de decoração. Ele mudou de ramo de atuação a partir do encontro com o artista cearense Aldemir Martins (que fazia pinturas, esculturas e objetos de design variados).

Aldemir tinha criado alguns desenhos de joias, que Ranulpho levou para serem executadas por um ourives de sua confiança. O artista sugeriu que o empresário fizesse uma mostra mais ampla, incluindo as pinturas pelas quais era mais conhecido. Assim, em 19 de julho de 1968, Ranulpho promoveu sua primeira exposição de arte: um sucesso de público e de crítica, que o fez vislumbrar um caminho sem volta.

Auxiliado por sua esposa, Maria Dulce, que apesar de não ter formação na área sempre apresentou um apurado senso estético, Carlos Ranulpho passou a vida intermediando a venda de trabalhos de artistas - muitos dos quais, como seu pai, não tinham seu talento reconhecido.

"Eu ajudei muitos artistas que não tinham projeção e depois de meu trabalho, das exposições, da divulgação, passaram a ter", relata. Mesclando a habilidade de vendedor, o gosto pela arte e o talento para a curadoria, o marchand tornou-se referência nacional, chegando a instalar uma filial em São Paulo.

Vários pintores se beneficiaram desse processo - caso de Wellington Virgulino, que se tornou exclusivo da galeria; e de Vicente do Rego Monteiro, em cuja trajetória Ranulpho teve um papel importantíssimo.

"Vicente andava meio esquecido, apesar de ser conhecido internacionalmente, de ter participado de salões na Europa, de ter quadros em museus estrangeiros... Consegui convencê-lo a fazer sua primeira exposição no Recife, pois havia muitos anos que ele não expunha. Foi logo que abri a galeria, e consegui vender todos os quadros. Isso o estimulou a fazer uma exposição no Rio de Janeiro, para a qual vinha sendo convidado há muito tempo. E a partir daí, Vicente ganhou muito destaque. Foi uma sequência de vitórias. Ele chegou a trocar um quadro por um apartamento na Barra da Tijuca", relembra o marchand acerca do amigo, que faleceu subitamente devido a um infarto, em 1970, mas cuja obra é representada pela galeria até hoje.

 

Tela de Vicente do Rego Monteiro

Tela de Vicente do Rego Monteiro - Crédito: Gustavo Glória/Folha de Pernambuco

Ao longo de cinco décadas, Ranulpho vem enfrentando e superando crises no mercado de arte. "As dificuldades existem, certas exposições e artistas fluem melhor, outros são mais trabalhosos. E, claro, a situação econômica do país se reflete nas vendas. Mas, sinceramente, quem tem dinheiro e gosta de arte, compra", diz ele, para quem o maior diferencial de sua galeria é a segurança de se estar adquirindo produtos autênticos e de qualidade.

 

   Seriedade

"Acredito que as pessoas dão preferência a comprar de mim, pela minha trajetória, pelo meu comportamento no mercado. Sempre procurei me pautar com a maior seriedade, com a maior correção possível", destaca.

A dedicação diária faz com que, todas as tardes, o marchand prossiga atendendo pessoalmente seus clientes na galeria, com total lucidez, atenção e amor. E aos domingos, na companhia de suas amadas netas, toma um cálice de vinho chileno para celebrar a vida junto com seu prato favorito: filé de garoupa com arroz de camarão.

Serviço:
Lançamento do livro "Carlos Ranulpho: o mercador de beleza", de Marcelo Pereira (Editora Cepe, 247 págs, R$ 80)
Nesta quinta-feira (30 de agosto), a partir das 19h
Ranulpho Galeria de Arte (rua do Bom Jesus, 125, Bairro do Recife) 

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