#Cazuza60Anos - Amiga e ex-empresária, Gilda Mattoso fala sobre o poeta

Gilda conta que, em sua ultima turnê pelo Nordeste, Cazuza quis fazer um piercing num salão de beleza bem careta no Recife e deixou 'as madames' em polvorosa

Gilda Mattoso, com o então marido, Vinícius de Morais: Cazuza era amigo queridoGilda Mattoso, com o então marido, Vinícius de Morais: Cazuza era amigo querido - Foto: Reprodução

Em entrevista concedida por e-mail em 2008, até então não publicada, Gilda Mattoso - ex-empresária de Cazuza - fala como amiga do cantor e relembra a pessoa amorosa e fervorosa que ele era. Nesta quarta (4), faz 60 anos que nasceu Cazuza.

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Como você conheceu Cazuza?
Conhecemos Cazuza em meados dos anos de 1980 quando ele assinou contrato de carreira solo com a Polygram, gravadora onde fazíamos assessoria de Imprensa. Paralelo a isso, cruzávamos com ele nas noites do Baixo Leblon.

Vocês trabalharam com o Cazuza e acabaram amigos dele. Quais as características mais marcantes da "pessoa" que o "artista" escondia?
Cazuza não escondia nada: sua irreverência, seu humor, seu lirismo, a fidelidade aos seus. Enfim, a pessoa não tinha nada diferente do artista.

Algum episódio interessante das parcerias de vocês por shows Brasil afora?
Fizemos uma viagem muito interessante com Cazuza em sua ultima turnê pelo Nordeste acompanhando uma equipe da extinta revista Manchete. Ele já estava bem doente e fazia loucuras pra chocar as pessoas. Ele quis, por exemplo, fazer um piercing num salão de beleza bem careta no Recife. As madames ficaram em polvorosa.

Quais as mudanças que mais chamaram a atenção de vocês depois de Cazuza descobrir que tinha Aids?
Ficamos muito impressionados pela coragem dele de encarar não só a doença, mas também a opinião pública numa época que muito pouco se sabia sobre a doença. Além disso, costumávamos brincar que Cazuza estava tomando o soro da verdade, pois tudo que lhe vinha em mente ele falava. Um dia, por exemplo, logo depois de termos sido despedidos da Polygram por razões meramente politicas, Cazuza cruzou no pátio da gravadora com o então presidente da mesma, um sujeito da África do Sul muito careta, que disse: "oOi, Cazuza, tudo bem?". Ao que ele respondeu, de bate pronto: "Tudo bem é o caralho! Você despede meus amigos e ainda me pergunta se está tudo bem?".

Cazuza recebeu dois prêmios Sharp em abril de 1989, logo depois da publicação da matéria da revista Veja "Cazuza - uma vítima da Aids agoniza em praça pública". O que vocês lembram deste episódio?
Lembramos da revolta generalizada, não só no meio artístico, mas também nas pessoas em geral. Nos chocou especialmente o fato dele ter aberto a casa dele para a revista, apesar de, já naquela altura, muita gente do meio artístico não falar com a Veja por razões diversas, ter aberto o coração, e a revista fazer uma coisa tão marrom de uma entrevista que poderia ser tão esclarecedora. Lembramos ainda que o estado de saúde dele piorou depois de ler a matéria, de ver a pior das fotos possível estampada em todas as bancas. Ele ficou muito mal.

Capa da Veja em 26 de abril de 1989

Capa da Veja em 26 de abril de 1989 - Foto: Reprodução


Como foram as manifestações da mídia depois da morte de Cazuza?
Foi uma onda enorme de solidariedade que seus pais, Lucinha e João, receberam de todo o Brasil. A mídia, exceto a Veja, foi muito respeitosa e até mesmo afetuosa.

Vocês imaginam como seria Cazuza mais velho? Qual seria o reflexo dessas mudanças na música dele?
Embora a gente continue a conviver com Frejat e outros contemporâneos de Cazuza, achamos difícil imaginá-lo grisalho, mais velho, mais sossegado. Conversamos sobre isso outro dia e acho que ele não sossegaria nunca devido à inquietação natural que tinha.

 

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