Seg, 10 de Agosto

Logo Folha de Pernambuco
CRÍTICA

"Cem Anos de Solidão": nova temporada da adaptação expõe feridas abertas da América Latina

Segunda parte da série colombiana estreia na Netflix nesta quarta-feira (5)

Novos episódios aprofundam lado político da obra de Gabriel García MárquezNovos episódios aprofundam lado político da obra de Gabriel García Márquez - Foto: Netflix/Divulgação

Gabriel García Márquez acreditava que “Cem Anos de Solidão”, sua obra-prima, era inadaptável. Infelizmente, o escritor colombiano - que morreu em 2014 - não viveu tempo suficiente para descobrir que estava completamente enganado.

A prova do engano é o êxito alcançado pela série inspirada no livro, que estreou em 2024 na Netflix. Nesta quarta-feira (5), a plataforma lança a segunda parte da produção, com sete novos inéditos - vistos antecipadamente pela Folha de Pernambuco. 

Com direção de Laura Mora e Carlos Moreno, a nova fase traz a conclusão da trágica saga da família Buendía. A árvore genealógica dos fundadores de Macondo se expande, enquanto novos infortúnios atingem os herdeiros de Úrsula e José Arcádio. 
 

Nestes novos episódios, a trama mergulha mais profundamente em sua dimensão política e escancara as feridas ainda abertas da América Latina. Mesmo com a assinatura do armistício entre Conservadores e Liberais, a paz não se estabelece por completo em Macondo, espelhando a história do próprio continente.

A construção de uma ferrovia traz ao povoado o progresso ilusório e o imperialismo, representados pela companhia bananeira norte-americana. Prometendo uma modernização ilusória, a empresa entrega exploração e, por fim, um massacre violento de trabalhadores. Depois de maratonar os novos episódios, é difícil não perceber como a trama soa atual. 

Por outro lado, a história segue explorando a temática moral. Fernanda del Carpio (Carla Baratta), que chega de Bogotá e se casa com Aureliano Segundo (Julián Román), encarna o conservadorismo religioso.

Mesmo em meio às repressões, os amores não deixam de florescer em Macondo. Aureliano encontra nos braços de Petra Cotes (Ángela Cano) a alegria que falta em casa. Já sua filha com Fernanda, Renata Remedios (Juanita Molina), se entrega a um amor proibido. 

As atuações seguem tão viscerais quanto na fase anterior da série. Embora sua Úrsula apareça com bem menos destaque desta vez, Marleyda Soto não deixa de emocionar a cada cena em que está presente. Outro destaque é Claudio Cataño, que sustenta a carga dramática necessária para defender um desiludido Coronel Aureliano.

Toda filmada na Colômbia, em espanhol, e com o apoio da família de García Márquez, a produção audiovisual captura bem a essência do romance publicado em 1967. A fotografia e a direção de arte dão à série o tom de “realismo mágico” que a obra literária constrói tão bem em suas páginas. 

“Cem Anos de Solidão” é uma declaração de amor à América Latina. Em meio a tantos títulos que replicam fórmulas prontas, é prazeroso passar algumas horas diante de uma obra que não abre mão da identidade local na forma de contar uma história. A série ainda retorna para um episódio final no dia 26 de agosto, quando finalmente nos despedirmos - saudosos - de Macondo e seus personagens. 

Veja também

Newsletter