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Cena teatral pernambucana lamenta a morte de Antonio Cadengue

Morte do diretor, dramaturgo e pesquisador Antonio Cadengue deixa sentimento de orfandade no cenário teatral do Estado

Antonio Cadengue  Antonio Cadengue  - Foto: Américo Nunes/Divulgação

A cena teatral pernambucana está de luto com a perda de Antonio Edson Cadengue, cujo velório ocorre na manhã desta quinta-feira (2), das 8h às 14h, no Teatro Valdemar de Oliveira. O dramaturgo, diretor, pesquisador e professor universitário pernambucano estava trabalhando em uma nova montagem de "Em nome do desejo", peça adaptada do romance homônimo de João Silvério Trevisan, que ele já havia dirigido em 1990. A estreia estava prevista para o dia 18 de agosto.

De acordo com Taveira Júnior, que integra o elenco da obra, o artista estava muito entusiasmado com a volta do espetáculo. "Passamos seis anos batalhando por essa remontagem. Provavelmente, vamos adiar o início da temporada para o dia 25. Não sabemos como será entrar em cena para essas 15 pessoas, que estavam acostumados com o carinho e também as broncas dele", afirma.

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Nas redes sociais, o autor da peça lamentou a morte do diretor. "Estivemos juntos neste último fim de semana, no Recife e em Porto de Galinhas. Assistimos juntos ao primeiro ensaio geral da peça. Esta manhã, pelo telefone, veio a notícia de sua morte súbita. Mesmo perdendo um pedaço de mim, sei que o amor não morre. O resto é silêncio, no Recife e no meu coração", publicou.

Legado

Antonio Cadengue morreu na madrugada da última quarta-feira (1), aos 64 anos, vítima de um infarto. Após passar mal, ele deu entrada no Hospital Hapvida, no Derby, mas acabou não resistindo. Depois de ser velado, o corpo do artista segue em cortejo até o Cemitério de Santo Amaro, onde será enterrado às 15h30.

Para Luís Reis, professor e diretor de Cultura da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), o estado de Pernambuco perdeu um dos maiores mestres que já produziu. "Fui aluno dele e, depois, além de amigo, colega de trabalho e parceiro de muitos espetáculos. Aprendi muito com ele, a quem devo muito. É um sentimento de orfandade enorme, uma tristeza imensa para todos os que fazem o teatro pernambucano", lamentou.

O diretor do Centro Apolo-Hermilo, Carlos Carvalho, destacou o legado que Cadengue deixou em várias áreas. "Em primeiro lugar, na educação. Ele foi professor da UFPE por muitos anos. Estava aposentado, mas era referência no ensino das artes cênicas. Depois, como encenador. Ele foi diretor da Companhia Teatro de Seraphim, prestando um serviço inestimável à cultura com espetáculos sempre muito bons, tanto na perspectiva da encenação como na colocação do espetáculo dentro do momento político e social que o Brasil estava vivendo", comentou.

Em março deste ano, Cadengue lançou o livro biográfico "Reinaldo de Oliveira - Do bisturi ao palco", que conta a trajetória do médico e atual diretor do Teatro de Amadores de Pernambuco (TAP). "Embora nunca tenha trabalhado diretamente com a companhia, tinha nosso reconhecimento e respeito. Não só Pernambuco, mas todo o teatro brasileiro está de luto", diz Reinaldo de Oliveira. O escritor também foi autor do livro "TAP - Sua cena e sua sombra", publicado em dois volumes, que resgata a trajetória do grupo.

O falecimento também foi lamentado por instituições públicas. Em nota oficial, a Secretaria de Cultura de Pernambuco e a Fundarpe disseram: "Que sua dedicação às artes cênicas brasileiras, expressa em quase 50 anos de carreira, siga inspirando a todos nós; e que sua brilhante trajetória ilumine sempre os caminhos dos que acreditam na arte e na cultura humanista como instrumentos para a libertação do homem de toda forma de opressão e preconceitos".

Ricardo Leitão, presidente da Cepe Editora, declarou: "A morte de Antônio Cadengue nos entristece profundamente, não apenas por ser ele um amigo da Cepe, mas pela perda que traz para a cultura pernambucana".

Trajetória

Nascido em Lajedo, no Agreste de Pernambuco, Cadengue iniciou a carreira como encenador nos anos 1970, ainda estudante de psicologia. Nessa época, se aproximou do Grupo de Teatro Vivencial, para o qual dirigiu "Viúva, porém honesta", de Nelson Rodrigues, em 1977. Em 1990, fundou seu próprio grupo teatral, a Companhia Teatro de Seraphim. Os últimos espetáculos dirigidos por ele foram "Dorotéia", também de Nelson Rodrigues, e "Puro lixo - O espetáculo mais vibrante da Cidade", de Luís Reis.

 

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