Cepe traz dois clássicos pernambucanos de volta para o público
Companhia Editora de Pernambuco está relançando nesta segunda-feira (18) os livros 'Arruar', de Mário Sette, e 'Bacamarte, Pólvora e Povo', de Olímpio Bonald Neto
Dois dos mais importantes livros de referência pernambucanos estão sendo relançados nesta segunda-feira (18), pela Companhia Editora de Pernambuco (Cepe), em uma cerimônia na Academia Pernambucana de Letras (APL), na avenida Rui Barbosa, 1596, Graças. "Arruar - História Pitoresca do Recife Antigo", de Mario Sette, e "Bacamarte, Pólvora e Povo", de Olimpio Bonald Neto, estavam esgotados no comércio há mais de 20 anos.
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Para o escritor Leonardo Dantas Silva, que é responsável pelo setor de pesquisa do Instituto Ricardo Brennand e atua como editor desde 1972, as obras são dois clássicos da literatura local e trazê-las de volta a público é uma ação extremamente necessária.
Arruar
"O livro de Mario Sette tem um dos textos mais gostosos que já li. Não é maçante, relata casos pitorescos na forma de crônicas. O curioso é que não perdeu sua atualidade, apesar de ter sido lançado em 1948, e desperta no leitor o gosto por nossa história", descreve Leonardo Dantas Silva.
A primeira edição do livro está completando 70 anos, mas algumas histórias nele contidas são mais antigas. Nascido no Recife, em 1886, Mario morou no Rio de Janeiro por um breve período e começou a escrever suas impressões afetivas ao regressar a sua cidade natal, quando tinha apenas 16 anos. "Arruar" é o resultado de quatro décadas de vivências, e fala sobre as pessoas, costumes e sociedade do começo do século XX.
O termo "arruar" vem da cabine que as senhoras de engenho usavam para se locomover pela cidade, carregadas nos ombros de escravos. Mas o autor usa "arruar" como verbo, referindo-se à lenta e prazerosa contemplação do Recife, ao andar por suas ruas. Em um momento no qual se intensifica o ritmo de nosso tráfego e que andar por nossas ruas é um ato que exige coragem, o olhar de Sette se torna poético, antropológico e pleno de significado. O autor faleceu em 1950 e lançou várias obras que falam de nossa memória. "Arruar" está em sua quarta reedição e conquistou fãs ao longo de sua existência, como o sociólogo Gilberto Freyre e o poeta Manuel Bandeira, que em carta ao autor disse enxergar nas crônicas "o Recife sem mais nada" - simples e de memória saborosa.
Bacamarte
Já o livro de Olimpio Bonald Neto é um pouco mais recente, e foi o resultado de uma pesquisa premiada pela Fundação Joaquim Nabuco, na década de 1960. Lançado pela primeira vez em 1966, "Bacamarte, Pólvora e Povo" é até hoje o texto definitivo sobre essa curiosa tradição pernambucana. "Poucos sabem, mas os bacamarteiros surgiram no período posterior à Guerra do Paraguai, que terminou em 1870, e se tornaram uma presença típica do período junino, com grupos espalhados por cidades como Caruaru, Cabo de Santo Agostinho e Serra Talhada, entre outras", relata Leonardo Dantas Silva.
A palavra "bacamarte" vem do francês "braquemart" e se refere a uma arma de fogo primitiva, de cano curto e largo, originária do século XV e retirada de uso por não ser eficaz. Os termos bacamarte e seus sinônimos reiúna e granadeira são arraigados no vocabulário nordestino.
A obra traz como anexo um documento do então presidente da Comissão Pernambucana de Folclore, Roberto Benjamin, que em 1997 encaminhou um pedido a Marco Maciel (vice-presidente da República durante o mandato de Fernando Henrique Cardoso), falando da importância da tradição dos bacamarteiros num momento em que a posse de armas de fogo estava sendo regulamentada no Brasil.
"O bacamarte tradicional desta brincadeira, usualmente, apresenta-se desprovido de alça e massa de mira e do guardamato, partes essenciais desse tipo de arma. O seu municiamento consta de pólvora e papel, assemelhando-se aos cartuchos de festim. Em sentido estrito, não chega a se constituir em uma arma, mas apenas uma representação dela, numa rememoração das comemorações dos Voluntários da Pátria, no retorno da Guerra do Paraguai", escreveu Benjamin, que conseguiu com sua atitude inserir uma ressalva na legislação sobre o assunto.
Serviço
Relançamentos:
"Arruar - História Pitoresca do Recife Antigo", de Mário Sette
Preço: R$ 35 (livro físico) e R$ 12 (e-book)
"Bacamarte, Pólvora e Povo"
Preço: R$ 15 (livro físico) e R$ 4,50 (e-book)
Na Academia Pernambucana de Letras - avenida Rui Barbosa, 1596, Graças
Na segunda-feira (18), a partir das 19h

