Céu, de APKÁ!, é afetiva, sonora e estridente

Quinto disco de estúdio da cantora e compositora paulista está disponível nas plataformas digitais

Cantora e compositora CéuCantora e compositora Céu - Foto: Fábio Audi

APKÁ! Com maiúsculas e exclamação no final, como porta de entrada para enfatizar significados. Quando nominou o recém-lançado quinto disco de carreira, a cantora e compositora Céu trouxe à tona o resultado de um processo criativo inspirado pela gestação do seu segundo filho, autor da expressão que dá título a um álbum que parte de inspirações afetivas-maternas e do desejo de potencializar, em arranjos e voz, o seu protesto ao que ela chama de "momento sombrio" pelo qual o universo atravessa.

"No momento em que meu filho nasceu, me senti muito criativa, passei a escrever muito, porque o momento é muito intenso. Isso me ajudou a querer botar para fora esse processo todo, de pensar dentro de um puerpério ou de uma gestação, o que pode ser muito potente por estar inundada de hormônios e de amor, e de esperança dentro de tempos tão sombrios, um contraste por si só, mas é um disco que fala de contraste mesmo", ressalta ela, em conversa com a Folha de Pernambuco.

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Produzido por Pupillo (Nação Zumbi) e pelo músico francês Hervé Salters (General Elektriks), os mesmos que estiveram à frente de Tropix (2016), trabalho fortemente agraciado pela crítica, APKÁ! é permeado por batidas eletrônicas entremeadas pela suavidade já conhecida da voz de Céu, e que não se perde ao “concorrer” com os timbres e beats digitais que predominam no trabalho.

Nas onze faixas que compõem o disco, um "cantar mais alto, mais forte" esboça uma amplitude vocal sugerida pelo músico pernambucano que, segundo ela, foi o responsável pelo resultado: "Acho Pupillo brilhante, ele me dá muita segurança, pelo conhecimento rítmico e de produção, além de ser uma pessoa sensível às necessidades do artista. Fui impulsionada por ele a compor de maneira onde eu pudesse, no disco, mostrar mais a minha potência vocal. Aliás, o time deste trabalho foi muito bom de se trabalhar, porque todos têm uma dimensão profunda de onde estou querendo chegar".

Assim como Tropix, APKÁ! ressoa coerente com as renovações de Céu a cada retorno ao estúdio, e com uma sequência que preza pela diversidade sonora. Desde o disco homônimo, em 2005, eram perceptíveis que suas escolhas musicais não pairavam óbvias, fato constatado no decorrer de quinze anos de uma trajetória agora, culminada, com canções como "as luzes artificiais e os comandos sagazes" de "Off (Sad Siri)" composta por ela e por Salters, que voltam a aparecer junto a Pupillo em "Ocitocina (Charged)", faixa que exala, em metáforas, as influências hormonais do novo trabalho.

"Todas as canções têm uma história particular e eu não tenho uma favorita, porque elas fazem o conjunto da obra", afirma ela que, em "Pardo", de Caetano Veloso, empresta o feminino da voz para falar sobre o amor entre dois homens. "Ele (Caetano), me passou essa música com entusiasmo, porque queria ver como ficaria com uma mulher cantando uma relação homoafetiva entre homens. Achei incrível poder fazer isso, dentro de uma melodia e harmonia tão 'caetânica'. O Pupillo e o Hervé se empenharam em deixá-la tão Céu quanto 'caetana'".

Disponível nas plataformas digitais e, logo mais, em formato de vinil e de CD, entre o sonoro e o estridente, APKÁ! confirma o peso de Céu no cancioneiro da música brasileira, tanto como intérprete quanto como compositora, desde sempre à frente de um tempo que ela não se preocupa se ou quando vai chegar, já que "sensivelmente ligado ao tempo de hoje", como ela própria proclama, o disco reflete em voz e timbres sintéticos o prazer de dizer o que tem que ser dito (cantado), hoje.

"Faço meus trabalhos e deixo em aberto para que as pessoas sintam como elas quiserem. De repente APKÁ! é uma sequência (de Tropix) e pode chegar um terceiro, eu não sei. Para mim é um trabalho feito intensamente no presente".

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